Três prefeitos | A lembrança de José Pedral e os centenários de Orlando Leite e Nilton Gonçalves

Três prefeitos | A lembrança de José Pedral e os centenários de Orlando Leite e Nilton Gonçalves

Na terça-feira, dia 12 de setembro, fez 98 anos que nasceu José Fernandes Pedral Sampaio, conhecido no auge como J. Pedral, um dos mais importantes políticos da história de Vitória da Conquista e da Bahia. Depois de amanhã, dia 16, serão nove anos de sua morte. Engenheiro civil, maior construtor da cidade, responsável por obras viárias e estruturantes e equipamentos públicos de importância crucial, tendo projetado avenidas que foram fundamentais para o desenvolvimento da cidade, Pedral ganhou como homenagem seu nome no trecho de pouco mais de dois quilômetros do Corredor Perimetral iniciado por Guilherme Menezes e quase todo concluído por Herzem Gusmão.

Foto: Agliberto Lima (1984) – Acervo Blog de Giorlando Lima

No seu programa de terça-feira, ao meio-dia, na rádio na FM Brasil, o vereador Luís Carlos Dudé, que esteve ao lado do ex-prefeito na política, fez uma homenagem a José Pedral, nascido em 12 de setembro de 1925, levando ao estúdio os advogados Maurício Vasconcelos e Gutemberg Macedo Júnior, que testemunharam boa parte da vida do político. Foram lembrados momentos importantes da trajetória do ex-prefeito e sua importância histórica. Emocional e didático. Mas só foi isso o que aconteceu.

Desde que faleceu, Pedral recebeu uma única homenagem em Vitória da Conquista, feita por Herzem na inauguração do primeiro trecho da Perimetral, a partir de projeto de lei apresentado justamente por Dudé.

Pela sua história política, inquestionável envolvimento com o desenvolvimento de Vitória da Conquista, o prefeito que teve três mandatos e foi nome de destaque na política baiana, assumiu uma condição icônica, um símbolo cultural da cidade. Daí seriam justificadas todas as homenagens que se prestassem a ele. Algumas foram pretendidas e ficaram no caminho.

Três anos antes da inauguração da avenida, a deputada federal Alice Portugal (PCdoB) apresentou o projeto de lei 2.627/15 denominando de José Fernandes Pedral Sampaio o novo aeroporto, que estava no início das obras. Dois anos depois, o deputado Paulo Azi, então no DEM, também apresentou um projeto dando o nome do ex-prefeito ao aeroporto que avançava em sua construção.

No entanto, em 21 de dezembro de 2017, o Governo da Bahia publicou a Lei nº 13.812/17 nominando o aeródromo, que seria inaugurado no dia 23 de julho de 2019, como Aeroporto de Vitória da Conquista – Glauber de Andrade Rocha. O nome do cineasta conquistense pai do Cinema Novo foi defendido primeiro pelo ex-prefeito Guilherme Menezes, em agosto de 2015, em entrevista a este BLOG, tendo o deputado federal Jorge Solla (PT) apresentado projeto de lei na Câmara reforçando a ideia, Mas, quem decidiu foi o então governador Rui Costa, deixando a proposta de agradecimento póstumo a Pedral de lado.

A escolha do nome de Glauber foi uma ação de marketing e teve seu valor. Mas, por justiça histórica, foi Pedral o primeiro a falar da necessidade de mudança do aeroporto de lugar, com a construção de um de maior porte, em uma área onde sofresse menos os efeitos do clima e não ocorresse conflito com o desenvolvimento urbano. A localização sugerida ficava na região do distrito de José Gonçalves, em área aberta, descampada, com ótimas condições de vento, pouso e decolagem. Para o local do antigo Pedro Otacílio de Figueiredo ele estava pensando um moderno centro administrativo municipal.

O fato é que Vitória da Conquista é econômica em homenagens e de pouco reconhecimento efetivo de suas figuras públicas falecidas ou derrotadas nas urnas. Os mais notáveis, por terem ficado muito tempo em atividade e marcado mais suas presenças, livram-se de serem esquecidos rapidamente e têm sua notoriedade reforçada por nomes de vias ou equipamentos públicos.

Há livros que destacam aspectos de nossa história e personagens, mas não são adotados nas escolas. Ou muito pouco. Bem pouco mesmo. Quando não são temas do desfile do 7 de Setembro ficam guardados no esquecimento.

São muitos os casos, mas vamos mencionar dois ex-prefeitos já falecidos que este ano completariam 100 anos: Nilton Gonçalves e Orlando Leite.

Nilton Gonçalves (de bigode) fala em inauguração do Samur, ao lado de Sebastião Castro (1971)

Nilton Gonçalves, um dos conquistenses mais destacados, advogado reconhecido e ex-prefeito de Vitória da Conquista entre 1971 e 1973, nasceu em 4 de janeiro de 1923 e teria completado um centenário de nascimento este ano. Nenhum evento, discurso ou linha nos anais oficiais ou na imprensa.

Nilton foi adversário de Pedral em três eleições, na condição de candidato a prefeito em disputa com correligionários dele, e foi aliado de Orlando Leite, a quem se atribui a maior influência para a sua eleição em 1970.

Concorreu pela primeira vez em 1954, em uma campanha que repetiu o mote do “tostão contra o milhão”, usado por Jânio Quadros na eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1952. Na disputa conquistense, Nilton Gonçalves perdeu para Edvaldo Flores, que foi apoiado pelo grupo de Régis Pacheco, que incluía Pedral. A campanha de Nilton foi vitoriosa na cidade, tendo sido derrotada apenas no distrito de Caatiba.

Em 1964, Orlando Leite era o presidente da Câmara Municipal quando o Exército prendeu Pedral, acusado de subversão. No dia 6 de maio daquele ano, os vereadores, sob o argumento de que o prefeito eleito não poderia continuar a exercer o mandato – e antes da cassação do gestor pelo governo militar -, votaram pelo impedimento do prefeito e colocaram Orlando Leite no cargo. Naquele tempo não havia vice-prefeito.

Foto reproduzida da obra literária Rui Barbosa: o Plantador de Carvalho

Orlando Leite nasceu em 9 de dezembro de 1923, na fazenda Quatis, na região de Iguá, e entrou na política apoiando, justamente, a primeira candidatura de Nilton Gonçalves a prefeito. Ficou na Prefeitura até abril de 1967, quando foi sucedido por Fernando Spínola, eleito em 1966. Em 1970, Leite mais uma vez apoiou Nilton Gonçalves, que saiu-se vencedor contra Jadiel Matos, do MDB ao qual também pertencia Pedral.

Apenas dois anos depois, foi a vez de Orlando Leite ser candidato a prefeito de Vitória da Conquista, com apoio de Nilton, cujo mandato foi encurtado pelo Ato Institucional nº 11, assinado em 14 de agosto de 1969 pelo presidente Costa e Silva, determinando que as eleições municipais no país deveriam coincidir. Houve novas eleições em 15 de novembro de 1972 e posse dos novos prefeitos em 31 de janeiro do ano seguinte.

A Arena, partido de Nilton Gonçalves e Orlando Leite, disputou com dois candidatos, além do próprio Orlando, teve Fernando Spínola. Naquele tempo os partidos poderiam ter sublegendas e mais de um nome no pleito. Pelo MDB, saíram candidatos Jadiel Matos, apoiado pelo grupo discordante de Pedral; Raul Ferraz, pelo grupo pedralista; e Gilberto Quadros, independente. Jadiel venceu.

Orlando Leite dá nome a uma escola construída pelo Governo do Estado, municipalizada em 2020, e a uma praça que é conhecida apenas como Pracinha do Gil.

Nilton Gonçalves, jurista, advogado de destacada oratória em tribunais do júri, poeta, empresta seu nome a um presídio, além de uma rua no bairro Guarani e um colégio estadual. O deputado estadual Fabrício Falcão (PCdoB) chegou a apresentar projeto de lei dando seu nome à BA-959, da BR-116 até o distrito de José Gonçalves. Não prosperou. Em janeiro deste ano Nilton teria completado 100 anos.

Na sessão de ontem (13) da Câmara Municipal o vereador Luís Carlos Dudé apresentou requerimento para realização de uma audiência pública em outubro, para ampliar a homenagem a Pedral e preparar a comemoração de seu centenário a acontecer em 2025.

Para ler: UMA CIDADE DO SERTÃO EM MEIO À DITADURA E À REDEMOCRATIZAÇÃO: PODER E SOCIEDADE – VITÓRIA DA CONQUISTA (1962-1992) do Prof. Dr. Belarmino de Jesus Souza

Rui Barbosa: o Plantador de Carvalho, Orlando da Silva Leite (com organização, anotações, prefácio e notas bibliográficas sobre o autor de Marli Quadros Leite & Orlando da Silva Leite Júnior)

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2 comentários sobre “Três prefeitos | A lembrança de José Pedral e os centenários de Orlando Leite e Nilton Gonçalves

  1. Que texto “delicioso” de ler! Figuras importantes e que devem receber as homenagens devidas, porque contribuiram para o crescimento e desenvolvimento da nossa cidade . Um povo que não valoriza sua história, é um povo sem identidade! Parabéns Giorlando pelo texto magnífico! Você é sensacional!!

  2. Parabéns, Giorlando, texto maravilhoso, que nos leva a viajar no tempo, e conhecer a história política desta cidade que me adotou.
    Abraço, querido

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