A Bela e o Fera já estão no céu

O céu, muitas vezes, demora para nos trazer seus presentes. Há lugares onde as pessoas olham para cima por um ano inteiro esperando a chuva cair. Casais vão à janela em noite romântica esperando ver uma estrela cadente e dormem com os olhos cheios de luz, mas a estrela não aparece. Os pais aguardam meses até ver o olhar da cria. O que vem do céu demora, às vezes. E demora mais quanto mais esperamos.

Mas, outras vezes o tempo do céu é mais ligeiro do que queremos. E quanto mais queremos que ele demore, mas ele se apressa, é quando ele resolve levar de volta o que já nos deu. Conto que hoje faz dez dias que o céu levou a bela Heleusa Câmara, bela no seu esplendor de ser humano, como já disse o simpático professor, fera na sua luta – que parecia incansável – para ressignificar o sentido do ser humano pelas letras e pela arte.

E dez dias depois, já não sei se na mesma hora, o céu resgata Gildásio Leite, fera na sua fidelidade ao viver, na aposta que fez no viver, belo na sua entrega à arte, no palco da vida, nos muitos palcos em que pisou, com seus pés fazendo no tablado aquele som forte de quem pisava firme, ainda que andasse suave, a dizer “este lugar é meu, não vim para me despedir tão cedo”. Sua voz meio trovão meio ópera dirigindo a peça, seus olhos enquadrando a cena, seus gestos regendo a música que lhe soava dentro e sinalizando para a plateia – nem sempre atenta – que ainda estava escrevendo a peça da sua vida.

“DIGA, FERA!”

Vasculhei os perfis de Gildásio no Facebook, agora há pouco, são três, ou mais, quem sabe? Vi as fotos antigas e mais recentes. Vi o pedaço do filme Tenda dos Milagres, onde ele, no vigor de sua capacidade como ator, fez o professor marxista Fraga Neto (veja, está lá embaixo, no fim de tudo). Revi sua cena no ônibus em Central do Brasil. Mas, a minha mente projeta para onde eu olhe – como na tela do computador, enquanto eu digito o texto – a imagem dele chegando de bicicleta na esquina do Paulinho do Bar e eu lhe perguntando como ele estava de saúde, porque ele teve um câncer, e ele a me dizer:

“Fera, ainda estou enfrentando, mas estou bem, estou bem, vai dar tudo certo”. Concordei e apontei a bicicleta como uma demonstração de que ele estava forte, fazendo o que eu não conseguiria, pedalar tanto tempo e para tão longe como ele. “Consegue, fera. É só querer. Mas, eu estou trabalhando em uma ideia massa e depois quero conversar com você. Agora, eu vou nessa”.

Há um ano soube que ele iria se submeter a uma cirurgia em um hospital de Salvador e precisaria de sangue. Aqui e ali alguém perguntava ou falava dele. Nada que me permitisse saber que ele iria embora no dia 17 de janeiro, dia de Senhor do Bonfim. O céu o chamou de volta. Não sei quantos ensaios ele fez para a cena final. Mas, penso que a pressa de quem mandou buscá-lo tem a ver com a necessidade de ter lá o diretor irrequieto, falador, com todos aqueles gestos das mãos grandes, olhos graúdos, a barba entre o branco, o castanho, o loiro e o acaju, para dirigir “Cartas na mesa“ ou “Fantasia serrana“, peças que Heleusa escreveu e ele dirigiu quando os dois nem pensavam na viagem que fizeram nesse janeiro.

Fico imaginando a beleza que ficaram os dois textos, com os retoques dados por Paulo Tiago. Talvez eles chamem Jorginho Chagas para fazer um papel. Jorge Melquisedeque vai querer participar, mexer com a luz, talvez, aproveitando uma gambiarra de Lelê, que vocês não conhecem, mas eu me lembro, rindo, vestindo saia no jogo de futebol do Clube Social. Paulo Mascena, vai produzir, quem sabe atuar ou até dirigir junto com Gildásio.

Na plateia vai ter uma gente bonita que viajou antes. Luís Quadros – que também conhecia Lelê -, falando charmoso numa TV etérea, vai dar a notícia da chegada do fera e anunciar a estreia. Luís Fernandes vai incluir a efeméride histórica, mesmo para a história celestial, no site Sendas da Eternidade, versão céu da sua Taberna da História, porque não deve ter boteco por lá. Dilton Rocha vai fazer alguma polêmica, mas vai adorar comentar o novo espetáculo na rádio celeste. Sara de Castro quererá cantar uma ária, se ária na peça couber, assim não sendo, fará uma entrada ao vivo, pois lá tudo é vivo sempre e para sempre, na TV de Luís.

Cajaíba, coçando a barba e tirando as mãos do cimento em que esculpe o busto de Dona Dió, que sorri aberto e alto ao avistar Gildásio chegando abraçado a Paulo Tiago, uma câmera em cada mão livre dos dois, e mais nenhuma angústia na cabeça, ouve Leda Nova dizer que já tinha uma crônica para aquela cena e que tudo viraria um livro divino, revisado, prefaciado e editado por Zélia Saldanha, que mantinha a cabeça encostada no ombro de Heleusa, depois de terem rememorado com risos as conversas que tiveram entre drinques e leituras nas noites conquistenses.

E, afinal, era aquela uma madrugada conquistense no céu. Madrugada, não, porque lá o tempo é o mesmo, eternamente, talvez sem dias, manhãs, tardes ou noites, só eternidade. Mas, de qualquer forma, que não tivesse a hora de relógio, como eles diziam e ouviam dizer na Bahia, parecia estar começando uma festa sem hora para acabar. Porque chegaram quase juntos, a Bela e o Fera.

Essa peça pode até virar filme. Deve ser porque o céu, como Conquista, é coisa de cinema. E aqui em Conquista, é quase certo que vai virar cor e dar voz aos muros, pela arte de Tiano, eu sei que vai.

Hoje, 17 de janeiro dia de Senhor do Bonfim, em que ele acreditava, se foi Gildásio Leite. Como tinha fé, pode ter ido a pé. Ou de bicicleta.

Valeu, fera!

(Sei que variei, viajei, mudei a crônica da metade para a frente. Mas, ontem mesmo, aproveitando uma pauta da Secretaria de Comunicação da Prefeitura, escrevi sobre o trabalho de Tiano e comecei a imaginar os muros com Heleusa e Gildásio. Lembrei de mensagem que Elias Dourado me enviou, embevecido com os painéis de Tiano e pensei: o talento vem do céu e desta vez vieram também as encomendas dos próximos grafites da Voz do Muro. Meu coração, que já vinha emocionado com a passagem de Gildásio, foi ditando nome a nome dos amigos conquistenses que perdi e eu os vendo se preparando para a hora da peça ou do filme ou do recital ou da declamação, tudo no céu, porque, não tenham dúvida, há um céu. Enquanto houver vida, haverá céu. É o que eu penso. Desculpem por parecer que minha escrevinhação não tem fim. Tem. Mas, acho, que o céu pode esperar).


AS FOTOS DE GILDÁSIO CATEI DO PERFIL DE JOÃO GABRIEL, UM DOS QUATRO FILHOS DE GILDÁSIO E DA LINDA SÔNIA LEITE, JUNTO COM GABRIELA E PAULINE. PAULO TIAGO JÁ ESTÁ DO CÉU.

10 comentários sobre “A Bela e o Fera já estão no céu

  1. Absolutamente lindo o que meus olhos leram! Sua inteligência plena, transparece em graciosidade e competência, a arte da retórica nos mais sinceros detalhes!
    Giorlanda Lima, você consegue me emocionar e trazer para dentro do meu imaginário, imagens de uma história de vidas memoráveis! Gildasio Leite e todos os grandes humanos revelados nessa obra de arte, merecem serem lembrados e homenageados de maneira adstrita! Acho que só você seria capaz de um recorte tão profundo e esteticamente perfeito! Tão sutil e próprio, de modo a fazer merecer os anos de vida e luz, desses queridos hoje, desencarnados!
    Agradeço pela dupla oportunidade. A de me deleitar com tão bela leitura e por trazer em frações de segundo, lembranças de humanos inesquecíveis, numa homenagem verdadeiramente de amor!
    Grande abraco!
    Namastê!!!

    Selma Aguiar

  2. Trafegar neste teu texto nesta manhã de quinta feira me fez um bem imenso. Continue assim Diu… Com Essa capacidade imensa de emocionar agente. Grato!

  3. Nádia Márcia, Marquinhos, Selma, Marcelo, Júlio, Robério, respondo aqui aos seus comentários, expressando minha gratidão por terem lido o artigo e se manifestado dessa forma. Senti tanto quando anunciaram que essas pessoas tinham deixado o nosso planeta, chorei, mas lembrei da boa experiência de ter convivido com elas e achei que seria minha obrigação relatar o que sei delas para os que ficam e que, em algum momento, me dão ouvidos. Colocar umas letras a mais no valoroso legado de cada um. Quando faço isso me descubro um homem de sorte por ter vivo no tempo dessa gente.

    Abraços em vocês.

    1. Olá, Giorlando! Hoje, no dia em completam 4 meses que minha mãe partiu, descobri seu texto. Reconheci verdadeiramente minha mãe nele. Alegre, sabia, amiga… quanta falta ela nos faz… Obrigada por seu carinho.
      Verônica, a caçulinha já de meia idade como ela dizia…

  4. Que texto lindo!!! Deliciosa melodia gráfica a (re)memorar os seus! Parabéns por acolher em sua escrita o sentimento de tantos!

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