Livre pensar | E o deputado embarcou no primeiro voo da Gol, mas poderia ser no trem amarelo de Macondo

Livre pensar | E o deputado embarcou no primeiro voo da Gol, mas poderia ser no trem amarelo de Macondo

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Somos um povo que nutre um sentimento entre o orgulho de vivermos na terceira maior cidade da Bahia e uma das cem maiores do Brasil, com baixas temperaturas no inverno (motivo para a criação do incongruente apelido de Suiça Baiana) e a vaidade estimulada por uma mídia que dá manchete até para a aparição do nome de Vitória da Conquista em um mapa do tempo que passa na TV. No mais, temos todos os problemas comuns a cidades brasileiras desse porte, a exemplo de escolas ruins, transportes público e escolar deficientes, baixo rendimento nas avaliações da educação, como o Ideb, postos de saúde insuficientes, filas e demora para marcar consultas e exames, buracos nas ruas, esgotos fedorentos estourando no centro da cidade, estradas rurais mal conservadas, escuridão nos bairros periféricos, quase 20% de desempregados…

Mas, habemus aerportus*. Dois. Um mudando da condição de ativo para histórico e o outro, novinho, a nos encantar como o shopping center em tempos de outrora, lugar para passear e fazer selfies.

Mais que um aeroporto novo, temos Boeing. Aeronaves Boeing 737-700 da Gol já pousaram e decolaram quatro vezes no e do Aeroporto Glauber de Andrade Rocha (é assim que está registrado na Anac, aeronáutica, etc.), até a hora que este artigo foi publicado. Renderam incontáveis selfies, dezenas de notas nos blogs e nas redes sociais.

Um blog publicou uma selfie de um deputado e sua família, ao lado do avião da Gol, e tascou a manchete “Conquista: Zé Raimundo embarcou no primeiro voo da Gol que saiu do novo aeroporto”. Claro que esse tipo de notícia não é incomum. É até importante, para que saibamos o que andam fazendo – e por onde – os nossos parlamentares. Mas, a internet não entendeu e sapecou no blog uma saraivada de piadas, fazendo lembrar da reação à famosa manchete do portal Terra, publicada há oito anos, em 10 de março de 2011, “Caetano estaciona carro no Leblon nesta quinta-feira”, que bateu recordes de visualizações, compartilhamentos e, claro, memes. Na manchete sobre o embarque do deputado faltou dizer que também era uma quinta-feira.

Mas, Zé Raimundo (que não pediu para o blog fazer a nota, apenas postou em sua página como selfie particular e com o objetivo de enaltecer a ação do governo do Estado, que ele apoia) e Caetano Veloso, à parte, o que quero dizer é que estou muito feliz com o aeroporto novo. Gosto da ideia de viajar para mais destinos usando meus pontos de milhagem. Tenho Smiles. Também sei que o aeroporto é um novo ponto de alavancagem do desenvolvimento de Vitória da Conquista e da região no médio e longo prazos, embora não o veja como a coisa mais importante para o município desde a Rio-Bahia e a Uesb, no sentido de elemento modificador da realidade social e econômica do município, como ouvi um político afirmar.

Ainda assim, entendo esse pensamento e creio mesmo que devemos ficar felizes por essa obra feita pelo governo do Estado, com maior parte de dinheiro do governo federal e a participação fundamental da sociedade, José Maria Caires (do Movimento Conquista Pode Voar Mais Alto), à frente, e de políticos, com destaque para o ex-prefeito Guilherme Menezes e reconhecimento ao atual Herzem Gusmão, à Câmara de Vereadores, ao próprio Zé Raimundo que embarcou no primeiro voo da Gol e outros.

O que acho curioso, estranho, para dizer a verdade, é essa reação embasbacada de um número bem grande de gente, parte da imprensa, blogs, em especial. O avião da Gol vem aí! Sobrevoou! Pousou! Taxiou! Tomou banho inaugural! Decolou! “Graças a Deus! Que bom que vivi para ver isso”, postou um fã apaixonado no Facebook. Me fez lembrar do que ouvi durante a carreata que comemorou a vitória do ex-prefeito Guilherme Menezes, em 1996, encerrando um ciclo de poder do grupo emedebista de José Pedral Sampaio que já durava 20 anos, 24 se colocarmos a vitória e o governo de Jadiel na conta. Uma mulher gritou, feliz: “Graças a Deus que Dr. Guilherme ganhou, agora, o peço da carne vai baixar”. Não baixou.

O aeroporto continua longe para o povo. Lindo, confortável, aconchegante, moderno, mas distante da imensa maioria da população. E aqui nem vou falar da ilusão do preço da passagem “porque o avião é maior”. E, sejamos sinceros, os aviões vão trazer gente, empresários, turistas (?), podem levar mercadoria, boas impressões, nosso dinheiro, mas o equipamento construído no Pé de Galinha não mudará quase nada para quase todo mundo, por um largo período de tempo. Por isso, talvez seja a hora de olharmos de novo para as nossas demandas cotidianas e fundamentais, vamos empunhar novas bandeiras, digo isso para os políticos, militantes pelo desenvolvimento local e social e, me desculpo pela parte que me toca, a nossa fascinada imprensa (ainda que não toda).

Deixemos para as selfies pessoais, no Facebook e no Instagram, o não tão inocente avião branco com detalhes laranja, que tantas incertezas e evidências, e tantos deleites e desventuras, e tantas mudanças, calamidades e saudades haverá de trazer para Macondo, ops, Vitória da Conquista.

No início do outro inverno, entretanto, uma mulher que lavava roupa no rio na hora de mais calor atravessou a rua principal fazendo alarido, num alarmante estado de comoção.

— Vem aí — conseguiu explicar — um negócio horrível como uma cozinha arrastando uma aldeia.

Nesse momento a população foi sacudida por um apito de ressonâncias pavorosas e uma descomunal respiração ofegante. Nas semanas anteriores viram-se grupos de trabalhadores que colocavam dormentes e trilhos, mas ninguém prestou atenção porque pensaram que era um novo artifício dos ciganos, que voltavam com a sua secular e desprestigiada teimosia de apitos e chocalhos apregoando as excelências de sabe Deus que miserável panaceia dos xaroposos gênios hierosolimitanos. Mas quando se recuperaram do espanto dos assovios e bufos, todos os habitantes correram para a rua e viram Aureliano Triste acenando, com a mão, da locomotiva, e viram assombrados o trem enfeitado de flores que, já da primeira vez, chegava com oito meses de atraso. O inocente trem amarelo que tantas incertezas e evidências, e tantos deleites e desventuras, e tantas mudanças, calamidades e saudades haveria de trazer para Macondo.

Deslumbrado com tantas e tão maravilhosas invenções, o povo de Macondo não sabia por onde começar a se espantar.” Cien Años de Solead, 1967, Gabriel García Márquez

* habemus aerportus = temos aeroporto (latim)


FOTO DESTAQUE: Populares em torno do aeroplano Fairchild PP-FAE, que, pilotado pelo 1º Tenenete Aviador Antônio Eugênio Basílio, foi um dos primeiros a pousar no campo do aviação de Conquista, no dia 1º de setembro de 1939, há quase 80 anos (Fonte: Taberna da História, do meu saudoso amigo jornalista, bacharel em Direito e Economia e historiador Luís Carlos Fernandes, que faleceu em 2015, quando o aeroporto novo já estava em obras e as selfies já haviam se tornado uma febre)

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