Seu Zé da Alface e Javier Milei. Deve haver alguma vantagem em ser alienado politicamente

Seu Zé da Alface e Javier Milei. Deve haver alguma vantagem em ser alienado politicamente
Seu Zé da Letoce y Javier Milei. Debe haber alguna ventaja en estar políticamente alienado

alienado
1. (…)
2. Diz-se de pessoa que não se interessa pelos acontecimentos do país ou do mundo, ou que não tem conhecimento da realidade social.
3. (…)
4. Diz-se de quem está apartado, afastado, desinformado; sem vínculos, envolvimento ou interesse: isolou-se, alienado de tudo e de todos
5. Que não tem consciência da verdadeira natureza dos processos sociais e sua inserção nestes, ou dos conflitos entre classes e da exploração de certas classes por outras
6. Pessoa alienada (2, 3, 4, 5).

O meu dicionário preferido, o Caldas Aulete, hoje Aulete Digital na internet, não deixa de mostrar o verbete original de ‘alienado’ como doido, louco, mentecapto, aquele não sabe fazer uso da razão. E algumas pessoas, depois que lerem esse artigo, devem usar um desses adjetivos para me identificar.

Mas, eu imagino que pode ter alguma vantagem em ser alienado, nos sentidos 2 e 4 e até no 5, embora neste a alienação possa se dar não por ato voluntário, mas pela ausência do conhecimento, da informação, da tal da consciência política, esta que os leitores zangados dirão que me falta.

Dois argentinos ocuparam o noticiário nacional esta semana e um deles fez umas coisas sensacionais em campo e ganhou da nossa com sua seleção de futebol. Ontem (21), uma vitória que me contrariou e a uns outros milhões de brasileiros, mas que tem volta. Ao vencerem, Messi e a Argentina infligiram ao selecionado brasileiro a sua primeira derrota em casa na história das eliminatórias para a Copa do Mundo, assumiram a primeira colocação na classificação e empurraram o Brasil para o sexto lugar. Mas a gente sabe que ainda vai sorrir vendo Messi fazendo bem o que ele sabe fazer.

O outro também já foi do futebol. Goleiro. Virou político e é ultraliberal, direita até a medula. ‘Hay gobierno en la economía, estoy en contra’. ‘Hay Lula, China, Rússia, Maduro, comunistas, izquierdistas, soy contra’. Ao ouvirem isto, 14.476.462 argentinos, 55,69% dos que foram às urnas na eleição do dia no domingo (19), votaram em Javier Milei para presidente. O peronista Sérgio Massa ficou 11.516.142 votos contra 44,30% do total.

Pronto? Boa sorte, hermanos, segurem sua batata quente, lutem sua guerra, aproveitem seu momento, curtam a vitória? Nada disso. Para brasileños enamorados, a sorte ou o azar são seus. Sejam de esquerda, com a consciência intelectual da geopolítica e o temor de que a direita predomine na América do Sul, influencie a política brasileira e favoreça Bolsonaro, por exemplo. Sejam de direita, vivendo um verdadeiro deleite, exatamente pelas razões contrárias, alguns soltando fogos porque a bolsa argentina subiu 20 por cento. Não acreditam que o ex-goleiro possa ser um frangaço da democracia.

Quando a Globo começou a transmitir o jogo Brasil e Argentina, ontem (21), Seu Zé da Alface, morador de Lagoa das Flores, já estava em sono REM. Acordou, hoje, às 4h30 da manhã e só soube da derrota do Brasil porque ligou o rádio antes de sair para a horta. Se alguém lhe falar de Messi ele vai saber quem é, já ouviu falar e até sabe que é considerado o melhor jogador do mundo na atualidade.

Mas, se Seu Zé da Alfaceouvisse um empolgado ‘mileizista’ (me permitam chamá-los assim, seguidores brasileiros do anarcocapitalista recém-eleito) falar do eleito para governar a Argentina poderia pensar que falam de um novo presidente do Brasil, um extraordinário que apareceu para a redenção de nossos problemas, dado o entusiasmo com que os admiradores nacionais de Javier Milei ainda celebram o resultado da eleição lá no outro país. Chega de Supremo Tribunal Federal, afinal.

Se ele ouvisse um peronista com sotaque baiano poderia pensar que o presidente vencedor da eleição argentina declarou guerra ao Brasil, e tanques e aviões aposentados da guerra contra a Inglaterra para retomar as Ilhas Malvinas estarão a caminho da fronteira, logo depois do dia 10 de dezembro, quando ainda não teremos à mão todos os caças Gripen suecos que Dilma comprou. Ou que o cabeludo com costeletas chamativas pode estar preparando o confisco da nossa poupança.

E como Seu Zé da Alface reagiria? Pediria licença, iria continuar colhendo hortaliças para vender e sustentar sua família. Para ele, a Argentina é no estrangeiro, o estrangeiro é longe. Ele conhece um pouco Lula, Bolsonaro, Jerônimo, Rui Costa, Sheila, Waldenor, Lúcia, o goleiro Chico Estrela e nem para eles liga muito. Sinto dizer que Zé da Alface é um alienado. Eu não. E não estou sabendo lidar com essa desvantagem.

* Messi até que não jogou tanto ontem, especialmente no segundo tempo, quando foi substituído, mas a oportunidade de vê-lo em campo já vale o ingresso.

* E é de se lamentar o que ocorreu no setor sul da arquibancada do Maracanã, antes do jogo, quando torcedores argentinos e brasileiros brigaram e a PM desceu o sarrafo nos visitantes. Tem gente que viu, ali, um reflexo do tema do artigo.

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