Opinião | Ednaldo Rodrigues não representa Vitória da Conquista, seja pelo bem ou pelo mal que faça como presidente da CBF
O fato de uma pessoa nascer ou ter vivido por muito tempo em uma cidade não a torna, automaticamente, representante daquele lugar aonde quer que vá e o que quer que faça. Embora seja legítimo sentir orgulho de conterrâneos que alcançam sucesso ou conseguem proezas não comuns, isso não significa, necessariamente, que aquilo foi feito porque a pessoa tenha tal origem ou identidade com uma determinada cidade, estado ou país.
Há casos que se diferenciam: um estudante de escola pública que, ainda frequentando aquela escola ou tendo saído dali direto para a conquista, obtém uma nota máxima no Enem, uma medalha em uma olimpíada de matemática ou em uma competição esportiva estudantil; jornalista que, escrevendo em um veículo local, consegue vencer um prêmio nacional; um(a) atleta que se consagra tendo iniciado sua carreira na cidade e que tenha alcançado um clube da primeira divisão; ou, ainda, um cantor ou uma cantora que se classificou no The Voice e, desde que lá chegou, disse ser daqui e representar a cidade, como eu ouvi uma menina dizer: “Sou do interior da Bahia, de Belo Campo, pertinho de Vitória da Conquista!”, emocionada e feliz por isso.
O sucesso, absoluto ou relativo dessas pessoas pode, sim, estar relacionado com o lugar, com a cidade, com a estrutura que lhe foi oferecida, com as coisas que ela aprendeu onde mora ou morou, com as pessoas, família, amigos que elas têm em Vitória da Conquista, neste caso.
Xangai representa Vitória da Conquista, Elomar também, porque eles não se desvinculam da cidade, de suas origens, de suas pessoas, de suas histórias.
Um deputado eleito pelos conquistenses representa Vitória da Conquista na capital estadual ou na capital federal, pela vontade do povo.
Ednaldo Rodrigues, não. A sua posição na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não tem relação com o fato de ele ser conquistense. Ainda que Juca Kfoury faça mil trocadilhos usando o nome da cidade ou a revista Piauí mencione o lugar de onde Ednaldo saiu, ainda como Nadinho, para aboletar-se nos sofás macios de couro da nababesca sede da entidade que manda no futebol nacional.
Ednaldo tem muitos amigos na cidade. Tem sido celebrado por esses amigos, que ainda o chamam de Nadinho, como um herói. Seu aniversário de 71 anos, no dia 27 de janeiro, e sua reeleição para a presidência da CBF, no dia 24 de março, renderam discursos na Câmara Municipal, notas em blogs e comemorações em redes sociais. Mas nem todo mundo que conhece Ednaldo veste a camisa dele.
Os fogos no aniversário e na reeleição saíram das mãos dos que privam de uma aproximação maior e recebem camisas da Seleção Brasileira personalizadas com seus nomes. Agora, com as faturas de Ednaldo expostas, se manifestam os que não vestem as mesma camisas e, ao invés de soltarem os rojões para o alto, apontam na direção do ex-jogador do antigo União Atlético Clube e ex-dirigente da Liga Conquistense de Desportos Terrestres (LCDT).
Os que dividiram o bolo de aniversário virtual estão calados, nem um traque ainda em defesa do amigo fustigado pela imprensa por seus métodos questionados para se manter no poder.
Já da parte dos que repercutem as críticas a Ednaldo, alguns arriscam acertar dois coelhos com uma cajadada só. O problema é que o outro coelho seria Vitória da Conquista. É uma turma que se acostumou a atrelar tudo à política e estica o braço até onde der para colocar a m… na porta da Prefeitura.
Por aqui, já chegaram mensagens, vídeos, links, opiniões nesse caminho.
Mas, hoje, vi que a artilharia anti-Ednaldo (calibrada com a derrota do Brasil para a Argentina) não sai apenas das casamatas da esquerda ou de quem se identifica contra o poder municipal, nessa toada há também governistas, do mesmo grupo da prefeita e dos vereadores Luís Carlos Dudé e Ivan Cordeiro, que já provaram do espresso de primeira servido na sede carioca da CBF e das promessas de recursos para programas sociais feitas pelo dirigente, mas que nunca se realizaram.
Ednaldo Rodrigues assumiu provisoriamente a poderosa entidade do futebol brasileiro em junho de 2021, depois foi eleito e reeleito. Insinuam seus adversários, com indicações bem assertivas dadas pela imprensa, que o feito da reeleição e a força que ele adquiriu nesses quase quatro anos têm a ver com ricas relações com personagens que atuam no belo palácio da justiça nacional localizado em Brasília.
Nesse longo tempo, o presidente da CBF deve ter vindo a Vitória da Conquista três vezes, quando presenteou com mais algumas camisas, patrocinou ou foi convidado para algum convescote cheio de rapapés, e nada mais.
Enquanto isso, o time da cidade está na série B do Baianão, a cada ano tendo que rodar a sacolinha em busca de patrocínios de migalhas para manter viva a chama do futebol conquistense, e a LCDT vive raspando o tacho e nem seleção coloca no Intermunicipal.
(Ei, não me venha falar dessas escolinhas e projetos que empresários mantêm como se fossem sociais. São negócios e não têm rendido NADA para a cidade, apenas para seus donos.)
E é isso o que deveria importar. Nossos fogos de artifício poderiam barulhar todos os dias em homenagem a Ednaldo se ele tivesse feito mais que agraciar amigos com ingressos para jogos do Brasileirão na Arena Fonte Nova e tivesse colocado a força da CBF em favor de projetos sociais ou do esporte local. Não faz isso, portanto, não representa Vitória da Conquista, por mais que se esforcem os amigos que o paparicam ou os que estão revoltados com o dirigente.
Pelo histórico da CBF, não deve estar sendo com Ednaldo muito diferente do que foi com todos os outros antes deles. A confederação já foi palco ou alvo de histórias escabrosas. Todo mundo sabe o que aprontavam as elites que dominavam a entidade e dá para imaginar a luta renhida que deve ter travado o nordestino, negro, do interior da Bahia, do Alto Maron, para chegar à presidência.
Mas, aqui, não é essa a discussão. O que o BLOG abomina é a tentativa de atrelar Vitória da Conquista às ações de Edinaldo, para o bem ou para o mal, virtuosas ou cúpitas. Naquele ambiente, as regras são próprias, não há movimento inspirado em nada do que se faz aqui em nossa cidade, ou a qualquer filosofia moral. Há um regramento tácito, silencioso, de cumplicidades recíprocas, que não tem a ver com nada do que conhecemos aqui. Portanto, não há nossa representação lá, nem nele.
Ednaldo está na presidência da Confederação Brasil de Futebol por conta própria, inicialmente como fruto de sua amizade com Virgílio Elísio, seu predecessor e padrinho, tanto na Federação Bahiana de Futebol (FBF) como na CBF, e, a seguir, por suas articulações, fidelidade às regras do ambiente e seus méritos, quaisquer que sejam. O que se diz dele na imprensa, nos corredores de federações, em redações e nas mesas de bar é merecimento dele, pelo bem ou pelo mal que ele tenha feito, não é e nunca será por ele ser de Vitória da Conquista.
É um modo vil de fazer política enviesar a crítica a um homem que, se erra o faz por si e por seus interesses, para direcioná-la a adversários ideológicos ou eleitorais, atingindo Vitória da Conquista. Bem como, repito, me perdoem os que eu gosto, é pobre demais lambuzar quem quer seja com elogios e lisonjas sem que esse alguém tenha feito coisas que realmente importem, seja para a cidade ou para o país. E isso vale mesmo que Ednaldo traga Jorge Jesus ou Carlo Ancelotti para dirigir a Seleção Brasileira.
Vitória da Conquista é maior. Chega de ataques oportunistas a ela, por modo direto ou indireto, e de bajulação a quem não fez por merecer.



