Opinião | Sem essa de Suíça baiana. Atributos de Vitória da Conquista, a joia do sertão baiano, fazem dela singular sem necessidade do apelido forçado

Opinião | Sem essa de Suíça baiana. Atributos de Vitória da Conquista, a joia do sertão baiano, fazem dela singular sem necessidade do apelido forçado

Quando cheguei a Vitória da Conquista, em 1984, ela era a cidade das rosas, a capital do café, a terra do frio, a joia do sertão baiano. Baiana, mineira e nordestina. Nada era suíço. Nem chocolate, nem canivete, nem relógio. Nem gente. Até que um dia de 2010, um grupo de jovens ligados à cultura e à música, em especial, resolveu criar um coletivo chamado Suíça Bahiana, expressão que já havia sido cunhada por alguém mas não ganhara notoriedade. Assim, com H, foi batizado o excelente festival que este ano chegou à sua 13ª edição no mês passado.

O coletivo, o festival e a imprensa foram dando popularidade ao apelido. Diz-se que ele surgiu por causa da semelhança entre os climas da cidade e do país europeu. Teve até quem citasse o Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, explorador, naturalista e etnólogo alemão, autor do livro Viagem ao Brasil (1820), que tem uma parte dedicada ao Arraial da Conquista (de onde se originou a cidade atual e Vitória da Conquista), onde ele esteve em 1817. Neuwid comentou sobre o clima local, muito mais parecido com o europeu do que com o clima tropical da Bahia pode ele passou, mas nem falou da Suíça.

A Suíça, aliás, é um pais, provavelmente todo mundo saiba, e é um dos mais ricos da Europa. Segundo o Global Wealth Report 2024, do Boston Consulting Group, os adultos suíços estão em primeiro lugar no mundo em riqueza média per capita, com um patrimônio líquido de US$ 709,6 mil (R$ 4,3 milhões). O salário médio anual é de US$ 93,4 mil (R$ 560,4 mil), três vezes maior que a média europeia. O salário médio mensal em Conquista é de 1,9 salário-minimo, hoje R$ 2.884,20 (IBGE), sendo que cerca de um terço da população tem rendimento nominal per capita de até meio salário-mínimo.

A temperatura média anual na Suíça é de 5,8 ºC, em Vitória da Conquista fica entre 21⁰C e 22 ºC, mais perto de Argentina ou de Curitiba, no Paraná, onde fez -0,3°C em junho deste ano. Conquista teve sua temperatura mais baixa de 8,2ºC em agosto, segundo o Inmetro.

Este BLOG se posiciona contra desde esse apelido forçado desde que surgiu. Não pelas mesmas razões antropológicas e sociológicas apresentadas em diversas teses, que veem no apelido uma tentativa ideológica de criar uma simbologia branca da sociedade local, com valorização da branquitude em detrimento das heranças culturais e raciais não-brancas na identidade da cidade, uma “espécie de versão atualizada da valorização cultural branca, europeizada e colonial”, como anotou Renata Ferreira de Oliveira, em sua obra ‘Índios paneleiros do Planalto da Conquista: do massacre e o (quase) extermínio aos dias atuais’, mencionada na dissertação de Mestrado em História de Ângela Maria de Jesus Souza.

Não cremos que tenha pensando tão profundamente quem inventou esse slogan. Foi uma ideia tão superficial como é ilógico o próprio apelido.

Durante seu governo, entre 1989 e 1992, o ex-prefeito Murilo Mármore (1943-2024) falou em transformar Vitória da Conquista na Curitiba baiana, com um projeto de praças, jardins e avenidas arborizadas. Não conseguiu, mas é difícil conceber que ele tinha em mente “sudestizar” a cidade.

Usei o exemplo para concluir que não é custoso ver como razão do apelido apenas o clima e a apaixonada ideia de que esta é a melhor cidade da Bahia. Uma proposta de marketing que tem dado uma grande contribuição para atração de negócios e pessoas e para fortalecimento de um projeto político, além de impulsionar a já bem destacada autoestima do conquistense.

Longe em tudo da Suíça – que fica a aproximadamente nove mil quilômetros de qualquer endereço conquistense – inclusive no clima, que tem apenas algumas coincidências anuais, Vitória da Conquista é Vitória da Conquista.

O nome, em si, a torna singular, uma espécie de redundância comemorativa do que ela se tornou. Em vários pontos, a cidade difere de centenas de outras do estado de forma positiva e em outros de forma negativa, como normalmente acontece com todos os lugares.

Mas, sim, é uma cidade já bem estruturada, que alcançou um estágio de segurança superior às demais com população acima de 100 mil habitantes. Tem uma oferta de serviços de saúde e educação que a fez despontar nos últimos 15 anos. Tem a praça Tancredo Neves, a Olívia Flores, as feiras livres, o biscoito, a cultura, os festivais, a lagoa das Bateias (em continuo processo de revitalização), o Cristo da Serra do Periperi, o Poço Escuro, o Lomantão, a Catedral, o arrojo de sua gente e sua história. Precisava desse negócio de Suiça Baiana?

Não há mais rosas, para ser a Cidade das Rosas, embora tenha uma Catedral de Flores; perdeu a condição de capital do café para Barra do Choça, contudo, se o frio não é o mesmo de tempos atrás, quando havia menos asfalto e mais vegetação, os registros de baixas temperaturas – ainda que esporádicos – feitos pela estação meteorológica da Uesb mostram que ainda dá para ser chamada de Terra do Frio (ou uma delas, como Piatã, Maracás, Morro do Chapéu…). E será sempre a Joia do Sertão Baiano. Mas Suiça Baiana é meio demais, como se diz.

E para encerrar esse assunto, que veio a propósito do mês de aniversário de Vitória da Conquista, deixamos o link do excelente artigo ‘Por que Suíça Baiana?‘ do jornalista Carlos Gonzalez, falecido em maio deste ano, publicado no site A Estrada, de Jeremias Macário: https://www.aestrada.com.br/v1/2023/09/21/por-que-suica-baiana/

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