Sobre meses com cores e a importância não esperar ter um câncer ‘mais simples’, porque qualquer deles pode matar


O jogador de futebol Everton Ribeiro, camisa 10 do Bahia, teve um câncer de tireoide. Jogou até a véspera da cirurgia e retornou ao campo um mês depois de operado. Foi notícia em todos os grandes meios de mídia, como era esperado que aconteça quando uma celebridade fica doente. Foram comemorados tanto o sucesso da cirurgia como a garra e o profissionalismo dele, afinal, sabia que estava com uma doença grave e ainda assim manteve o profissionalismo, sem fazer drama ou estardalhaço.
Contado no Fantástico, o drama de Everton comoveu quem ficou sabendo, ele chorou e milhares de brasileiros choraram com ele. Toda história ficou ainda mais emocionante na volta dele ao Bahia apenas 30 dias depois da retirada da tireoide.
Mas, nem todo mundo compreendeu o sentimento que direcionou a família, os amigos e os fãs de Everton que celebraram sua vitória. Na internet surgem os que parecem não ter alma. Pelo menos dois comentários chamaram a atenção do BLOG, em postagens de terceiros. Uma duvidava da honestidade do choro do atleta, “até com isso o povo faz marketing”; outra dizia mais ou menos assim: “Também, né, câncer de tiroide, qualquer um poderia jogar um mês depois, principalmente ganhando essa fortuna”. As expressões não foram exatamente essas, até porque o português, como o senso de humanidade, estava atropelado.
Os comentários se parecem com o que se diz fora das redes sociais. Uma pessoa próxima a mim teve a mesma doença do craque do Bahia, há alguns anos, e ouviu do médico que se uma pessoa tiver que ter um câncer, que seja de tireoide. Isso foi dito no sentido do alívio, para a pessoa se sentir mais segura de que tudo daria certo. E deu, graças a Deus. De fato, comparativamente com outras doenças do tipo, o câncer de tiroide causa muito menos mortes, cerca de mil por ano, no Brasil, porém pode matar.
Eu tive um câncer de próstata. Corri para ler tudo o que podia sobre essa doença que tem uma estimativa de 71.730 novos casos estimados anualmente no triênio 2023-2025 e chegou a aproximadamente 17.587 mortes em 2024. Me preparei emocionalmente para tudo, afinal, a fatalidade pode vir em um simples procedimento de extração de unha.
Percebi a preocupação da família e de amigos, muita gente conhecida foi solidária e até desconhecidos disseram orar e torcer por mim. Acompanhado do excelente urologista conquistense Leandro Dórea, fui submetido a um prostatectomia, realizada pelo genial Rafael Coelho. Deu tudo certo. Ainda cuido de efeitos pós-cirurgia, mas os exames apontam que o câncer se foi.
A maioria das pessoas, fora da família e algumas mais próximas, só soube que tive um câncer de próstata no dia em que eu faria a cirurgia, que me ajudaram a pagar, por meio de uma rifa. Foi quando ouvi, pelo menos três vezes, que “ainda bem que foi de próstata”, porque “todo homem vai ter e é um câncer fácil de tratar”. Cheguei a ouvir que “tem gente que, diferente de você, se desespera, mas é apenas um câncer de próstata”.
Em silêncio ou ouvia, sem dizer nada, mas vinha à mente, como James Carville na campanha presidencial de Bill Clinton, nos EUA, em 1992*: ‘mas é câncer, estúpido!’ Não era para tanto, contudo, porque eu absorvia essas falas como mensagens de consolo.
Mas, é importante que as pessoas, mesmo que estejam com o coração carregado de boas intenções, compreendam que, para quem está com qualquer câncer, seja de próstata, tireoide, pele, mama, pênis, boca, o que for, está convivendo com dúvidas e medo. Por uma razão muito simples: câncer mata. “É pouco, se comparado com não sei o quê lá”. É muito. Everton temeu, eu temi.
Há muita gente temendo, mesmo que poste no Instagram fotos na clínica, no hospital, no antes e no pós cirurgia, no antes e pós quimioterapia. Não é romântico. O guerreiro ou a guerreira do vídeo ou da foto, provavelmente sente uma luta interna, chora quando está só, olhando no espelho, no chuveiro, no travesseiro, no escuro e com um tique taque surdo de um relógio que pressiona: quando estarei livre? Estarei livre?
Este mês é o Novembro Azul, para nos fazer lembrar da importância da prevenção ao câncer de próstata (e da diabetes). O Outubro passou, foram dias de conscientização e ações de saúde pública com vistas a chamar a atenção para o câncer de mama. Mas, não tem a ver com calendário, com o mês, com o horóscopo ou com a cor, tem a ver com a importância de não adoecer, para não morrer. Todo dia é dia de cuidar, para continuar a ver as cores.
Os exames de próstata podem ser feitos em outubro, em dezembro, os de mama a qualquer hora. Não espere. “Ah, na saúde pública demora para fazer”. Por isso mesmo, marque hoje. “Por que, se não estou sentindo nada ainda?”. Porque às vezes o câncer é assintomático no começo, mas destruidor quando o tempo passa. Não senti qualquer dor quando descobrir que tinha câncer de próstata, e tenho certeza que Everton demorou para entender as coisas estranhas que a tiroide doente dele o faziam sentir.
Não há um mês para se cuidado, nem uma cor para uma doença grave. Digo que o sinal está sempre amarelo e não prestarmos atenção se dá mesmo para passar, pode ser que não dê. Aproveite o novembro azul e renove a sua paleta de cores da saúde.
* Em 1992, o marqueteiro de Bill Clinton (presidente dos Estados Unidos por duas vezes) cunho a frase “É a economia, estúpido!” como uma orientação interna de campanha, para lembrar a equipe de se concentrar nas questões econômicas que preocupavam os eleitores. O lema foi fundamental para o sucesso da campanha de Clinton contra o então presidente George Bush, aproveitando a recessão econômica da época.


