Coluna de Ronnie Peterson | O primeiro trilionário e a miséria do mundo: o abismo entre a fortuna e a empatia​

Coluna de Ronnie Peterson | O primeiro trilionário e a miséria do mundo: o abismo entre a fortuna e a empatia​

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

​A humanidade cruzou uma nova e inquietante fronteira. Elon Musk, o visionário por trás da Tesla e da SpaceX, alcançou o status de primeiro trilionário da história. O número é tão vasto que escapa à compreensão humana intuitiva: um milhão de milhões. Se você ganhasse um dólar por segundo, levaria mais de 31 mil anos para acumular um trilhão. No entanto, enquanto os gráficos financeiros celebram esse ápice do capitalismo, o solo sob nossos pés conta uma história diferente. A ascensão do primeiro trilionário não é apenas um marco econômico; é um atestado de falência moral de um sistema global que permite a acumulação infinita ao lado da escassez absoluta.

​A matemática da desigualdade tornou-se obscena. Dados do Banco Mundial e da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) indicam que quase 700 milhões de pessoas enfrentam a fome crônica. A ironia cruel reside no fato de que a solução para a miséria global é, financeiramente falando, uma fração do patrimônio de Musk.
​Em 2021, David Beasley, então diretor do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, afirmou que 6 bilhões de dólares — na época, apenas 2% da fortuna de Musk — seriam suficientes para salvar 42 milhões de pessoas da inanição imediata. Musk desafiou a ONU a provar os números, a ONU apresentou o plano, mas o cheque jamais foi assinado naquela magnitude. Estudos da Oxfam corroboram que uma taxação de apenas 5% sobre os multimilionários e bilionários do mundo poderia arrecadar 1,7 trilhão de dólares anuais, o suficiente para tirar 2 bilhões de pessoas da pobreza. O dinheiro existe; ele apenas está concentrado em silos privados.

​Contudo, esperar benevolência de Musk pode ser um erro de cálculo sobre quem ele é. O magnata não apenas ignora esses apelos, como parece ter declarado uma guerra ideológica contra o próprio conceito que motivaria tal doação: a empatia.

​Nos últimos anos, Musk tem se posicionado como um cruzado contra o que ele chama de “vírus mental woke” (woke mind virus). Sob esse guarda-chuva retórico, ele ataca iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), classificando a preocupação social como uma ameaça à meritocracia e à civilização. Para Musk, a empatia institucionalizada é vista como uma fraqueza, um bug no sistema que impede o progresso “hardcore”.

​Essa postura reflete-se em sua gestão empresarial — demissões em massa por e-mail, exigências de jornadas de trabalho exaustivas e desdém por normas de segurança ou bem-estar — e em sua visão de futuro. O foco de Musk está em Marte, na preservação da “luz da consciência” através da colonização interplanetária e na fusão homem-máquina via Neuralink. Para ele, o futuro da espécie (no abstrato e no longo prazo) justifica o sofrimento ou a negligência do indivíduo (no concreto e no presente). É um utilitarismo frio, onde salvar o planeta da fome é menos excitante e menos “necessário” do que construir foguetes.

Ao declarar guerra à empatia — rotulando-a indiretamente como irracional ou contraproducente —, Musk valida uma era de indiferença. Ele se torna o símbolo máximo de um tempo onde a tecnologia avança na velocidade da luz, mas a ética humanitária regride à idade da pedra.

Estar tão distante de Vitória da Conquista não nos faz alheios ao que acontece no mundo. A nossa postura perante a nossa própria miséria, qual é? Há gente (que não são atletas profissionais) pedalando em bicicletas que custam acima de 100 mil, passando ao lado de moradores em situações diferentes de pobreza, sem, contudo, haver um mínimo de empatia.

Ter um trilionário num mundo onde crianças morrem de desnutrição não é um sinal de sucesso econômico global; é um sintoma de uma patologia social. Enquanto Musk olha para as estrelas, sonhando com colônias marcianas, ele deixa para trás um planeta onde a sua fortuna, sozinha, poderia estancar a hemorragia da miséria humana. Mas, para isso, seria necessário algo que não se compra com ações da Tesla: a capacidade de se importar com o sofrimento alheio.

Texto revisado pelo autor.

As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional, em especial de Vitória da Conquista

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