O abismo entre a toga, o plenário e a rua: lições da História para o Brasil contemporâneo. Artigo de Gilberto Luna



Gilberto Ferreira Luna é engenheiro, ex-empresário e, atualmente, um dedicado analista de política internacional e nacional. Aposentado de uma carreira que exigiu precisão e visão de futuro, ele agora se aprofunda na leitura e interpretação dos eventos globais, utilizando sua vasta experiência profissional para oferecer insights claros e objetivos sobre o mundo em que vivemos.
Quando as instituições — Executivo, Legislativo e Judiciário — passam a agir em causa própria, elas perdem sua função primordial de representar a vontade popular, tornando-se “corpos estranhos” à nação. Esse fenômeno marca a falência do “Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau. Segundo o filósofo, o povo detém o direito inalienável de retomar o poder quando o Estado deixa de servir ao interesse comum para servir a si mesmo.
O Brasil de 2025 parece viver o fenômeno do “Estado dentro do Estado”. Guardadas as proporções temporais, o cenário remete à França de 1789: uma nobreza e um clero que viviam em uma realidade paralela de privilégios e impunidade, sustentados por uma população exausta. Hoje, o país divide-se entre uma elite burocrática-jurídica e os pagadores de impostos. Historicamente, foi essa desconexão, somada à corrupção sistêmica, que levou à queda da monarquia absolutista francesa.
A história recente reforça que o ponto de saturação social atravessa fronteiras e gerações. A Primavera Árabe (2010-2011) mostrou que o acúmulo de autoritarismo, violência policial e corrupção pode derrubar regimes que pareciam inabaláveis. Mais recentemente, em 2025, vimos os protestos no Nepal, onde a “Geração Z” — movida pela insatisfação extrema com o sistema político — ocupou a Suprema Corte e o Parlamento, forçando a renúncia do gabinete ministerial.
No Brasil atual, assistimos à perda da sacralidade das instituições. Episódios recentes de suposto lobby envolvendo ministros de cortes superiores em favor de interesses privados, somados à apreensão de vultosas quantias em espécie na residência de parlamentares, aprofundam a crise de credibilidade. Quando um magistrado julga causas ligadas a interesses pessoais ou um representante do povo é flagrado em atos de improbidade, eles “rasgam” a Constituição de 1988. A revolta latente na sociedade não é contra as instituições em si, mas contra a degradação promovida por aqueles que as ocupam.
O despertar da consciência popular, impulsionado pela rapidez das redes sociais e pela exposição de escândalos na imprensa, atua como o pavio de uma indignação crescente. O país aproxima-se de um ponto de saturação onde a paz social é ameaçada não pela militância, mas pela ausência de justiça equânime.
O Brasil encontra-se em uma encruzilhada histórica. Ou as instituições iniciam um processo rigoroso de autorreforma e punição de seus próprios desvios, ou a história ensina que o povo encontrará meios — dentro ou fora dos ritos tradicionais — de restabelecer o equilíbrio. Como bem alertou Thomas Jefferson: “Quando o governo teme o povo, há liberdade; quando o povo teme o governo, há tirania”. Governos sem sustentação moral são, afinal, castelos de cartas.
Texto revisado pelo autor
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