Editorial | Sobre priorizar a manutenção do maior monumento conquistense, que está de casa nova, roupa nova, mas há 45 anos sem um banho


Do alto da Serra do Periperi, como se olhasse, dia e noite, para o acordar e o dormir da cidade, a estátua do Cristo Crucificado, se pudesse pensar, certamente estaria tentando compreender porque a população de Vitória da Conquista tem preocupações sazonais, deixando para trás demandas e aspirações de um dia, para substituí-las por outras reivindicações, nem sempre mais importantes, úteis ou coletivas.
Veja-se o caso dela própria, até bem pouco tempo a maior estátua de Cristo Crucificado do mundo: erguida no ponto mais alto da cidade há 45 anos, espera por uma manutenção restauradora, que possa evitar que, além do seu semblante sofrido, o desprezo com que é tratada também se torne uma marca que a represente.
Descascado, sujo, manchado e, quem sabe, correndo algum tipo de risco estrutural, a situação do Cristo do Periperi é como a de uma casa que acaba de ganhar uma reforma para ficar mais bonita e receber bem as visitas, sem que seu principal morador, no entanto, receba cuidados – que até podem pensar que ele não merece, mas não se pode negar que carece.
O sonho da revitalização (manutenção) da estátua do Cristo está em uma longa lista das demandas esquecidas de Vitória da Conquista. Nem o arcebispo conseguiu. Um dos líderes do movimento ‘Todos Pelo Cristo’ (que não avançou), Dom Josafá foi transferido para Aracaju, Sergipe, antes que uma demão de tinta tivesse sido dada, nem que fosse só nas unhas da estátua, criada com tanto esmero por Mário Cravo Júnior (1923-2018) e trazida com tanto sacrifício por Raul Ferraz (1935-2025), para dar seguimento a um sonho de José Pedral (1925-2014) e de Vitória da Conquista.
Segundo o autor da obra, graças à técnica empregada, a estátua pode durar 500 anos, mas precisará de manutenção, o que ainda não ocorreu desde que foi instalada.
O local onde está erguido o Cristo Crucificado de Vitória da Conquista, porém recebeu melhorias e embelezamentos feios pelo governo municipal, em um projeto de requalificação orçado em R$ 3,3 milhões em recursos do Ministério do Turismo. A obra começou em 2022 e fez importantes modificações no espaço, com dois mirantes, novo piso, paisagismo, iluminação em LED, calçadas acessíveis, bancos de concreto e até um palco elevado, tornando-o mais atraente para turistas e ainda mais ‘instagramável’ o cenário já favorecido por ter a cidade estendida logo abaixo e o pôr do sol mais belo da Bahia.
Mas, o ator principal, que no dia 23 de dezembro do ano passado ganhou uma iluminação cênica que o torna visível à noite, com luzes coloridas que se alternam, como se fossem trajes para a festa, permanece até hoje sem um banho, como se a intenção fosse robustecer ainda mais a sua imagem de sofrimento.
Do alto da cruz, de onde, com suas feições de dor, o Cristo nordestino espera sua vez de receber cuidados. Já se fala na necessidade de uma restauração há muito tempo e não cabe, definitivamente, a desculpa de que não há dinheiro para isso, há uma lista enorme de gastos maiores em objetos de importância e simbologia menores.

(A PARTIR DE MATÉRIA ORIGINALMENTE PUBLICADA EM DEZEMBRO DE 2024)


