Ivan Cordeiro ressalta autonomia da Câmara de Vereadores e sinaliza que, como em 2025, em 2026 também não será fácil para a prefeita Sheila Lemos

Ivan Cordeiro ressalta autonomia da Câmara de Vereadores e sinaliza que, como em 2025, em 2026 também não será fácil para a prefeita Sheila Lemos

Não há uma única razão para a mudança de trato político entre a Câmara de Vereadores, na representação do seu presidente, Ivan Cordeiro (PL), e a prefeita Sheila Lemos (União). Mas, que é muito diferente do que já foi isso é.

Principalmente sob a presidência de Hermínio Oliveira (PP) o legislativo atuou à semelhança de uma extensão da Prefeitura. Tudo fluía sem travas e nenhum projeto de lei enviado pela gestora enfrentou qualquer dificuldade para tramitar.

Nos quatro anos do primeiro mandato, Sheila não tinha vice-prefeito e talvez seja esta a explicação para a ilimitada generosidade da direção da Casa: o presidente fazia o papel de vice. Luís Carlos Dudé (União) chegou a assumir o cargo de prefeito em exercício em 2022, por 12 dias. Hermínio só esteve no gabinete da prefeitura como visitante.

Em 2025, não foi igual. Os projetos demoraram mais na gaveta e muitos enfrentaram trâmites desgastantes, a exemplo da mudança na Contribuição da Iluminação Pública, a cobrança de IPTU nos distritos rurais (que acabou rejeitada), a criação da loteria municipal (retirada em razão de decisão do STF, mas fadada à rejeição) e até a autorização para um empréstimo de R$ 400 milhões, aprovada, mas não sem antes passar por muita pressão, a exemplo da indicação de que o dinheiro fosse destinado a obras de macrodrenagem e à construção de uma nova sede para a Câmara Municipal.

Outros embates se deram. A exemplo do que já fizera por conta da Cosip, quando teve que explicar que não era culpada pelos aumentos, também na rumorosa alteração das regras da Zona Azul, a Câmara precisou dizer que não foi do parlamento municipal a ideia da famigerada TPU ou do aumento do valor do estacionamento.

Para 2026 não estão previstos projetos complicados. Os olhos estão voltados para as eleições de outubro e devem começar a chegar os pacotes de bondade à Câmara, como o que autoriza a administração municipal a pagar o reajuste do piso nacional do magistério retroativamente a janeiro, uma antiga briga dos professores e sindicatos, que ralaram a barriga no chão em cada um dos anos da gestão Sheila Lemos para que isso acontecesse – e não somente em junho, após a data-base da categoria, como acontecia.

Entretanto, se essa perspectiva de propostas de fácil aprovação mudar, o recado para a prefeita é de que não será fácil como já foi: no pain, no gain. Traduzindo: ‘sem dor, sem ganho’, expressão popularizada pela atriz e professora de aeróbica Jane Fonda, quando a maioria dos vereadores nem eram nascidos. No caso em debate, significaria, mais ou menos, que os projetos podem ser aprovados, mas haverá sofrimento.

A justificativa para esse razoável ‘endurecimento’ do poder legislativo para com o executivo poderia ser apenas o conceito de independência, ainda que harmônica, de um poder em relação ao outro. Mas, em um discurso elogiado na abertura do segundo período da legislatura, ontem (4), o presidente da Câmara de Vereadores, Ivan Cordeiro, deu senhas para uma compreensão mais clara do processo.

“Esta casa é independente, é a fiscal do povo e continuará sendo o contrapeso necessário para que o interesse público esteja sempre acima de tudo”, afirmou. Contrapeso é o que se acrescenta para equilibrar, contrabalançar o que está fora do peso certo. Colocar contrapeso, deixemos de lado os rodeios, é contestar, não aceitar facilmente, à ótica de quem vê a necessidade de consertar ou rejeitar propostas que não sejam favoráveis à população, como teriam sido a Cosip, o ITPU rural e a Zona Azul.

E disse mais Ivan: “Resguardamos em cada sessão e em cada votação a soberania e a autonomia do poder legislativo”, leu o presidente em uma das três laudas que levou ao púlpito. Ao enfatizar que foi resguardada, por ação do presidente, a autonomia do legislativo a cada votação, ele permite inferir que essa autonomia chegou a ser ameaçada – e como não estava se referindo ao terceiro poder, o judiciário, a mensagem tinha alvo. E essa vigilância, assegura Ivan, vai continuar, mas sempre com o “mais profundo respeito institucional”.

Ivan Cordeiro maneja as frases com a mesma destreza que domina o regimento e controla  o tempo, o ritmo e forma de tramitação dos projetos da gestão municipal. É seu movimento no xadrez da política municipal. Ao encarar a prefeita Sheila, inescrutável em sua postura de esfinge, a guardar suas estratégias em um cofre mental sem senha, Ivan diz claramente que não é só pela autonomia do poder, tampouco pela harmonia cantada em prosa e verso no disfarce retórico da política, é por 2028.

O presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista não declarou publicamente que sua meta é ser candidato a prefeito em 2028, disse apenas que não será mais candidato a vereador, que deseja galgar outros caminhos. Nessa trajetória, uma reeleição para presidência, evento autorizado explicitamente no novo texto da Lei Orgânica e implicitamente na reforma da mesma lei: a reeleição de presidente na mesma legislatura só passou a ser possível por um amplo entendimento liderado por Ivan Cordeiro, para que seja ele o primeiro a conseguir o feito.

É xeque, mas não o mate.

Na outra ponta do tabuleiro, já com dificuldade para obter apoios entre os vereadores para o marido Wagner Alves, pré-candidato a deputado estadual, não faz parte dos sonhos da prefeita ver sair da Câmara de Vereadores um pré-candidato a prefeito com potencial de se cacifar sem depender dos gestos dela e do seu grupo político, alguém a quem ela não possa negar a vaga para concorrer à sua sucessão. Internamente, entre os que transitam na Casa Rosada da Praça Joaquim Correia, ela já vai ter um tabuleiro difícil de movimentar, o que faz com que olhe para o jogo de xadrez com Ivan Cordeiro com olhar acurado, capaz de antecipar os movimentos, na tentativa de dar um xeque-mate rápido.

Apostem suas fichas.

FOTO DESTAQUE: IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA PELO CHAT GPT

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