Já era carnaval, cidade… Quando Conquista vai acordar? Coluna de Ronnie Peterson

Já era carnaval, cidade… Quando Conquista vai acordar? Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

Enquanto o Brasil mergulha no frenesi rítmico de fevereiro, Vitória da Conquista experimenta um fenômeno distinto: o silêncio. Na contramão de capitais e cidades do interior que promovem uma retomada vigorosa do Carnaval de rua, a “Joia do Sertão” parece ter guardado o seu confete na gaveta do esquecimento. O que outrora foi uma celebração vibrante de identidade cultural, hoje é um deserto de fomento, reflexo de décadas de escolhas políticas e mercadológicas que asfixiaram a folia popular.

​É preciso exercitar a memória para recordar que Conquista já teve um Carnaval com “C” maiúsculo. O asfalto da cidade já sentiu o peso das baterias de escolas de samba locais e o balanço ancestral dos afoxés e blocos afro. Eram tempos em que a festa acontecia de forma orgânica, ocupando o centro e os bairros, unindo a cidade em torno de uma tradição que, embora modesta perto da capital, possuía alma própria e autenticidade sertaneja.

​A grande virada ocorreu quando o espírito carnavalesco foi canalizado para o modelo de micareta (o Carnaval fora de época). Tendo Pedro Alexandre Massinha como um dos principais idealizadores e fomentadores, a Miconquista não apenas projetou a cidade nacionalmente, como se tornou um dos maiores eventos do gênero no país. A festa ganhou profissionalismo, grandes trios elétricos e atrações de peso.

​Contudo, esse sucesso teve um preço simbólico alto. A lógica do entretenimento privado e do abadá começou a sobrepujar a tradição do Carnaval de rua gratuito e espontâneo. A projeção nacional trouxe divisas, mas a cultura popular local, aquela que não precisava de cordas para existir, começou a perder espaço no calendário oficial e no coração dos investimentos públicos.

​O desaparecimento do Carnaval em Vitória da Conquista não foi um acidente, mas um processo de drenagem de recursos e desinteresse político. Ao longo dos anos, a Prefeitura Municipal (sob diferentes gestões) foi reduzindo o apoio às agremiações tradicionais.

Sem editais, sem infraestrutura e sem o olhar atento do poder público, as escolas de samba e os blocos afro foram definhando até a extinção total.

O que se viu foi uma transferência de responsabilidade: a festa, que deveria ser um direito cultural garantido pelo Estado, passou a ser vista apenas como um negócio privado.

Quando o modelo de micareta entrou em declínio comercial anos atrás, a cidade descobriu que não havia sobrado nada por baixo das cordas. A prefeitura, ao invés de resgatar o Carnaval popular, optou pela asfixia definitiva, deixando a população órfã de uma das datas mais importantes do calendário brasileiro.

​Recentemente, um movimento cultural de resistência tentou devolver a alegria às ruas. Inspirados pelo fenômeno dos bloquinhos que revitalizaram cidades como São Paulo e Belo Horizonte, grupos de conquistenses tentaram retomar o Carnaval tradicional, com marchinhas, fantasias e ocupação do espaço público.

​Surpreendentemente (ou nem tanto), em vez de incentivo, esses foliões encontraram barreiras. A municipalidade, em diversos momentos, desestimulou e chegou a proibir desfiles em vias públicas sob argumentos burocráticos e de ordenamento que ignoram a função social da rua.

Enquanto o resto do país entende que a ocupação cultural das vias públicas é um sinal de vitalidade urbana, em Vitória da Conquista o Carnaval parece ser tratado como uma desordem a ser contida, e não como um patrimônio a ser celebrado.

​A ausência de Carnaval em Vitória da Conquista é um sintoma de uma cidade que parou de olhar para a sua própria identidade popular. O silêncio deste ano não é apenas a falta de música; é o eco de uma tradição perdida entre a privatização do lazer e o abandono estatal, que pouca ou nenhuma atenção vem dando ao setor cultural.

Retomar o Carnaval não é apenas fazer festa, é devolver à cidade o direito de ocupar suas ruas com a liberdade e a alegria que o povo conquistense merece ter de volta.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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FOTO DESTAQUE: CARNAVAL DE 1985, NA AVENIDA BARTOLOMEU DE GUSMÃO

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