Caso do médico acusado de abusar de pacientes em Conquista cai no silêncio



“Vejam o Fantástico agora”.
“Assisti. É lamentável tudo isso”.
Estas são duas das últimas postagens, feitas há duas semanas, na conta Diga Não (@diganaovdc), do Instagram, criada por mulheres que se dizem vítimas de abuso sexual por parte de um ginecologista com atuação em Vitória da Conquista. No diálogo acima, um internauta sugere que seja vista a matéria exibida pelo Fantástico, no dia 14 de julho, em que o prefeito afastado de Uruburetama (CE) e médico ginecologista, José Hilson de Paiva, é mostrado abusando de suas pacientes durante consultas ginecológicas.
Quatro semanas antes uma seguidora perguntava: “Resolveu alguma coisa? Sumiram tudo”. A administradora do perfil respondeu: “Sumimos não. A justiça é um pouco lenta mesmo. Mas estamos aqui”.
Quando o perfil apareceu foi como uma bomba. Criado para denunciar o médico Orcione Ferreira Guimarães Junior, 40 anos, que tem clínica no bairro Brasil em Vitória da Conquista, trouxe vários depoimentos de mulheres e logo as acusações de abuso sexual feitas contra ele tomaram as redes sociais e a imprensa, chegando a ser notícia em veículos da mídia nacional e internacional. O perfil Diga Não chegou a ter mais de oito mil seguidores, hoje tem 7.316. A primeira postagem foi 10 de maio e última 26 do mesmo mês.
Do outro lado, o médico acusado também criou um perfil no Instagram, onde passou a postar depoimentos de mulheres elogiando a sua conduta profissional e pessoal. O número de seguidores do Diga Sim (@digasimaverdade) é bem menor que o Diga Não e hoje está com 940 seguidores.
Assim como o perfil que publicou diversos relatos das cerca de 27 mulheres que dizem ter sido molestadas sexualmente pelo médico, durante consultas ou exames, o Diga Sim teve uma redução no ritmos de postagens, A primeira foi no dia 15 de maio e a última no dia 14 de junho. Os últimos comentários aconteceram há cinco e seis semanas. Na mais nova, uma seguidora diz: “tbm sou paciente dele exlente profissional”. Uma semana antes outra afirma: “Verdade um homem que respeita suas pacientes”.
E é isso o que andamento do processo deve mostrar, se o Dr. Orcione Guimarães é um excelente profissional que respeita as suas pacientes ou se é verdade que abusou de mulheres que confiaram em sua promessa de um atendimento ético, sob confiança.
Leitores do BLOG têm enviado mensagens perguntando por que a imprensa parou de falar no assunto. Pessoas que acompanharam o caso desde que foi noticiado pela primeira vez aqui, querem saber qual o seu andamento. Está na polícia? Está no Ministério Público? Está na Justiça?
Para tentar responder procuramos a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (DEAM), Decimaria Cardoso Gonçalves, sem êxito. Fomos à delegacia e fomos informados que ela acabara de sair para uma diligência. A assessoria da delegada disse que ela não falou sobre o assunto com nenhum veículo de imprensa. Mesmo assim, com muita educação, solicitaram os contatos do BLOG e disseram que fariam contato logo que falassem com a delegada e tivessem dela uma resposta a nosso pedido de audiência. Isso foi no dia 17 de julho. Posteriormente, ligamos para os números que temos da delegada e enviamos mensagens de WhatsApp, mas ela não atendeu a ne nhuma das nossas tentativas.
Na manhã de hoje o BLOG procurou a delegada Decimaria Cardoso e as defesas das denunciantes e do médico, com o mesmo objetivo: obter informações que possam ser repassadas aos leitores. Sem sucesso com a autoridade policial, conseguimos respostas de Andressa Gusmão, advogada de 17 das mulheres que afirmam serem vítimas do ginecologista, e de Palova Amisses, advogada do acusado, que informou sua vinda a Vitória da Conquista amanhã (31), em razão de um evento específico relacionado ao caso, após o que falará com o BLOG.
Já Andressa Gusmão informou que estava agendando naquele momento uma reunião com a delegada para tomar conhecimento das próximas etapas do inquérito. Sobre o silêncio acerca do caso, depois da grande repercussão que teve, ela disse que “não podemos, de fato, deixar os crimes serem esquecidos e o autor ficar impune”. Segundo Andressa, “vemos um grande silêncio sobre o assunto e, aparentemente, o acusado tem divulgado entre suas pacientes uma fala que leva a crer que teria sido considerado inocente das acusações, embora saibamos que o processo penal sequer foi instaurado ainda”.
A advogada das mulheres não soube dizer se Orcione Júnior já foi ouvido pela delegada Decimaria Gonçalves. “É isso que queremos atualizar com a delegada. Ainda não tivemos conhecimento de que ele tenha sido ouvido ou chamado para ser ouvido”. Sobre a demora no andamento do processo, a advogada disse que as etapas são longas.
“A vítima comparece na Deam, registra a ocorrência (queixa) e presta o depoimento detalhado dos fatos. As que possuem comprovantes referente à consulta ou exame, apresentam cópia. Caso tenha testemunhas (que acompanharam até o local de atendimento, ou entraram na consulta ou que foram informadas do que aconteceu – presenciando ou não) estas são ouvidas também na delegacia”, explicou Andressa.
Durante o depoimento, de acordo com a advogada, “a vítima informa que deseja representar criminalmente contra o suposto autor do fato e partir daí a DEAM realiza os demais procedimentos (como a oitiva do acusado), conclui o procedimento, é feito o relatório pela Autoridade Policial e indiciado o acusado (ou não, de acordo o entendimento da Autoridade) e enviado para o MP, que é quem formula a Denúncia (petição ao juiz) dando início ao processo penal. Isso caso a caso. Provavelmente individualmente. Por isso a ‘demora’ no procedimento”.
Andressa Gusmão explicou que as 17 mulheres que ela acompanha, junto com outra advogada, Betânia Nolasco, já foram todas ouvidas e levaram os documentos que possuíam. “A maioria também já levou suas testemunhas que prestaram depoimento também. Creio que somente uma ou duas estavam agendando a oitiva das testemunhas”.
O BLOG voltará a procurar a delegada Decimaria Gonçalves para tentar saber o que for possível sobre o caso, compreendendo que o trabalho dela e da equipe da DEAM é muito criteriosa e pede grande prudência, e as duas advogadas.


