Criminalizar a misoginia: a importância de sua equiparação ao racismo – Coluna de Ronnie Peterson

Criminalizar a misoginia: a importância de sua equiparação ao racismo – Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

A sociedade brasileira enfrenta um paradoxo digital e social: ao mesmo tempo que as pautas de igualdade de gênero avançam, uma onda de hostilidade organizada contra as mulheres ganha força nas redes. Nesse cenário, o debate sobre o projeto de lei que tipifica o crime de misoginia — aprovado pelo Senado Federal em março de 2026 — surge não apenas como uma medida jurídica, mas como um mecanismo essencial de sobrevivência e proteção da dignidade humana.

​Para compreender a urgência dessa legislação, é preciso primeiro conceituar o termo. Diferente do machismo que se manifesta na crença de superioridade masculina ou em comportamentos estruturais de controle, a misoginia traduz-se no ódio, na aversão ou no desprezo profundo pelas mulheres. Ela é o combustível ideológico que desumaniza o gênero feminino, transformando o “ser mulher” em alvo de agressão, difamação e exclusão. Quando esse ódio deixa de ser um sentimento isolado e passa a ser propagado sistematicamente, ele se torna uma patologia social que precede o feminicídio.

​O projeto de lei ganha contornos de urgência devido ao crescimento de comunidades online onde se reúnem a “machosfera”. Grupos que se autodenominam red pill e incels (abreviação em inglês para celibatários involuntários) têm instrumentalizado frustrações pessoais para disseminar discursos de ódio.

Os chamados ​red pills utilizam uma metáfora do cinema (do filme Matrix) para alegar que “despertaram” para uma realidade onde os homens são as verdadeiras vítimas de um sistema feminista opressor. Pregam o distanciamento afetivo e a objetificação da mulher como forma de recuperar o poder.

Já os ​incels formam comunidades mais radicais, muitas vezes associadas a fóruns obscuros, onde a rejeição romântica é convertida em agressividade letal e glorificação de crimes contra mulheres.

​A influência desses movimentos sobre a juventude é alarmante. Algoritmos de redes sociais frequentemente entregam esses conteúdos a jovens em fase de formação, que, em busca de pertencimento ou explicações para suas inseguranças, acabam cooptados por uma retórica que substitui a empatia pelo ressentimento. Estima-se que canais dessa natureza no Brasil já somem dezenas de milhões de inscritos, criando uma câmara de eco onde a violência verbal é o primeiro passo para a violência física.

​A necessidade de criminalizar a misoginia está fundamentada em números que envergonham o país. Em 2025, o Brasil registrou o recorde de 1.470 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Relatórios recentes, como o “Elas Vivem”, apontam que a cada 24 horas, ao menos 12 mulheres são vítimas de violência severa.

​Casos recentes ilustram essa brutalidade. A prisão de influenciadores digitais conhecidos como “coaches de masculinidade”, envolvidos em agressões contra suas parceiras, e episódios de violência política de gênero contra parlamentares mostram que o ódio às mulheres não é abstrato. Ele se manifesta em ameaças de morte enviadas por e-mail, em estupros coletivos e em execuções dentro de casa, onde 66% desses crimes ocorrem.

​O projeto de lei aprovado (como o PL 896/2023) busca incluir a misoginia na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), prevendo penas de dois a cinco anos de reclusão. Essa mudança é fundamental por razões explícitas como o da ​visibilidade, ao dar nome ao crime, o Estado reconhece que a motivação do agressor é o ódio ao gênero, permitindo políticas públicas mais direcionadas. Outro fator é a ​punição digital, a lei oferece respaldo para combater a propagação de ódio em plataformas digitais, permitindo a suspensão de perfis que incitem a violência. A criminalização atua como um freio moral, sinalizando para a sociedade que a desumanização da mulher não é “liberdade de expressão”, mas um ilícito penal.

​A criminalização da misoginia não é um ataque aos homens, mas um escudo para as mulheres e um passo decisivo para uma sociedade civilizada. Em um país onde o ódio tem se organizado de forma tão eficiente, o Direito deve ser igualmente ágil para garantir que a internet e as ruas deixem de ser campos de batalha contra o gênero feminino.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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