O ‘vale-tudo’ eleitoral: quando a baixaria e os ataques pessoais substituem o debate de propostas – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças
À medida que o calendário político avança rumo às urnas, os sinais emitidos pelas lideranças partidárias desenham um cenário preocupante para a democracia brasileira. Em vez de um terreno fértil para a discussão de projetos nacionais, o que se avizinha é mais um ciclo eleitoral dominado pela polarização histriônica, pela retórica rasa e pelo “vale-tudo” político. O debate qualificado sobre soluções estruturais para o país vem sendo sistematicamente atropelado por estratégias de campanha desenhadas não para convencer pelo projeto, mas para destruir a imagem do adversário a qualquer custo.
O sintoma mais emblemático dessa degradação do ecossistema político ocorreu recentemente durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), realizada em São Paulo. O evento, que tinha por objetivo regimental e formal a oficialização do senador Flávio Bolsonaro como candidato da sigla à Presidência da República, acabou transformado em uma arena de acusações e hostilidades gratuitas. A apresentação de diretrizes claras para a economia, a educação ou a segurança pública ficou em segundo plano, sufocada pelo tom agressivo que direcionou o foco quase exclusivo dos discursos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ápice dessa desqualificação política ultrapassou, inclusive, as fronteiras nacionais. A participação do presidente da Argentina, Javier Milei, no palanque oposicionista marcou um episódio atípico e grave de atropelo ao decoro diplomático. Em vez de manter a sobriedade que se exige de um chefe de Estado estrangeiro em visitas ao exterior, Milei envolveu-se diretamente na disputa doméstica brasileira, desferindo xingamentos pesados e ofensas diretas a Lula. A internacionalização do achincalhe partidário, além de provocar desdobramentos diplomáticos e ruídos institucionais indesejados entre duas nações historicamente parceiras, evidenciou a disposição das campanhas em ignorar os limites da liturgia política em nome da lacração eleitoral.
Essa postura reflete uma lógica perversa que tomou conta das arenas eleitorais contemporâneas: a substituição do plano de governo pela guerrilha de comunicação. No ambiente das redes sociais e do consumo rápido de informação, o insulto e a provocação geram mais engajamento e visibilidade imediata do que propostas complexas sobre produtividade, reforma tributária ou transição energética. O resultado é o nivelamento das campanhas por baixo, em que a vitória é buscada pela desqualificação moral do outro, e não pelo mérito das próprias ideias.
A escassez de debate técnico cobra um preço altíssimo da sociedade. Quando a disputa se resume a quem agride mais ou quem articula o xingamento mais ruidoso, o eleitor é desprovido dos elementos fundamentais para exercer um voto consciente e crítico. Ficam de fora do palanque as respostas para o endividamento das famílias, o sucateamento dos serviços públicos e a urgência do crescimento sustentável.
Se o tom das convenções partidárias servir como indicador da temperatura que virá, o clima da campanha eleitoral promete ser de fervura alta, agressões ad hominem e profunda indigência programática. Cabe à sociedade civil, à imprensa e, sobretudo, ao eleitorado reagir a essa dinâmica degradante. Cobrar compostura, exigir planos concretos e rejeitar o vale-tudo é a única forma de evitar que a escolha do destino de uma nação seja reduzida a um espetáculo de ofensas sem substância.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
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