Opinião | Duas pesquisas para governador, dois vencedores no 1º turno e desconfiança. No meio, o eleitor querendo acreditar


Em menos de 24 horas, o eleitor baiano recebeu duas notícias que apontam resultados opostos para a eleição de governador. Na terça-feira (29), o Instituto Veritá apresentou ACM Neto (União) com 51,1% dos votos válidos, percentual suficiente para vencer no primeiro turno, contra 47,7% de Jerônimo Rodrigues (PT). Nesta quarta-feira (30), a AtlasIntel/A TARDE colocou Jerônimo na mesma condição, com 50,7%, enquanto Neto aparece com 47,5%.
Na pesquisa Veritá, a diferença é de 3,4 pontos percentuais, com margem de erro de 2,5 pontos. Na AtlasIntel, a vantagem numérica é de 3,2 pontos, com margem de erro de dois pontos. Os dois institutos trabalharam com amostras próximas de dois mil entrevistados e realizaram a coleta de dados na última semana de setembro. Consideradas as margens de erro, nenhum dos levantamentos permite assegurar que um dos candidatos tenha ultrapassado a metade dos votos válidos.
Mas as duas pesquisas oferecem às campanhas e seus apoiadores um discurso favorável. Tanto ACM Neto quanto Jerônimo Rodrigues têm uma perspectiva de vitória para chamar de sua. Cada grupo político tem números para comemorar, divulgar nas redes sociais, estimular a militância e convencer os indecisos de que está mais próximo da vitória.
E o eleitor? Em qual acreditar? Ou, diante de resultados que sustentam narrativas opostas, em que acreditar?
Não escondo minhas reservas em relação aos dois institutos. Elas não se devem apenas às divergências entre os levantamentos atuais. Há episódios anteriores já detalhados aqui no BLOG DE GIORLANDO LIMA ajudam a explicar por que recebo esses números com cautela.
A AtlasIntel em 2024
Em 27 de agosto de 2024, publiquei uma matéria com o título ‘AtlasIntel | Desejada e temida, pesquisa sobre a eleição de Conquista deve mostrar quem tem água no pote‘. O levantamento havia sido encomendado pelo jornal A TARDE e tinha divulgação prevista para o dia 2 de setembro, uma segunda-feira. Era aguardado com grande expectativa, sobretudo porque o instituto havia identificado, em 2022, a trajetória de crescimento de Jerônimo Rodrigues na eleição para governador, quando outras empresas ainda apresentavam ACM Neto à frente.
A pesquisa teria sido realizada entre 27 de agosto e 1º de setembro, mas a data anunciada para a divulgação chegou e os números não apareceram. Passou a segunda-feira, veio a terça, terminou a primeira semana de setembro e nada. A espera se prolongou durante toda a campanha e a pesquisa não foi publicada nem mesmo na reta final da eleição de 6 de outubro.
O silêncio provocou questionamentos. Por que um levantamento anunciado antecipadamente e aguardado pelo eleitorado deixou de ser divulgado? Houve algum problema com a coleta ou com o tratamento estatístico dos dados? Os resultados foram considerados inconsistentes? Ou a decisão de não publicá-los teve outra razão? Eram perguntas pertinentes, mas não foram acompanhadas de uma explicação pública que permitisse esclarecer o episódio.
Em 2 de outubro, quatro dias antes da votação, voltei ao assunto. Naquela ocasião, destaquei que o relatório completo da AtlasIntel havia sido entregue à Justiça Eleitoral, mas seus resultados só ficariam disponíveis publicamente após o término das eleições. A situação confirmava que o levantamento tinha sido realizado, mas permanecia sem divulgação por parte do instituto e do jornal que o havia encomendado.
Os números conhecidos posteriormente acrescentaram outro elemento à discussão. A AtlasIntel havia encontrado Sheila Lemos (União) com 49,3% das intenções de voto e Waldenor (PT) com 40,1%, uma diferença de apenas 9,2 pontos percentuais. Lúcia Rocha (MDB) aparecia com 8,2% e Doutor Marcos Adriano (Avante), com 1,7%. Na eleição, realizada pouco mais de um mês depois da coleta, Sheila foi reeleita no primeiro turno com 58,83% dos votos válidos, contra 26,74% de Waldenor. Lúcia recebeu 11,14% e Marcos Adriano, 3,29%.
A diferença entre Sheila e Waldenor chegou a 32,09 pontos percentuais nas urnas, quase 23 pontos acima da distância indicada pelo levantamento. Sheila teve um desempenho 9,53 pontos superior ao registrado na pesquisa, enquanto Waldenor ficou 13,36 pontos abaixo. É necessário considerar que a coleta ocorreu mais de um mês antes da eleição e que o comportamento dos eleitores pode mudar durante a campanha. Essa ressalva, entretanto, não elimina a dimensão da discrepância nem responde por que a pesquisa deixou de ser publicada na data anunciada.
A legislação eleitoral não obriga a publicação de toda pesquisa registrada, o instituto tinha o direito de não divulgar os resultados. A ausência de explicações, contudo, deixa uma questão relevante para quem utiliza esses levantamentos como fonte de informação: quais critérios orientam a decisão de publicar ou não uma pesquisa que já foi realizada e anunciada?
Também seria precipitado concluir que a AtlasIntel deixou de divulgar os números por alguma motivação política, pois não há elementos suficientes para sustentar essa acusação. O que existe é uma sequência de fatos documentados, uma divulgação que não aconteceu, perguntas que ficaram sem resposta e um resultado posteriormente conhecido que apresentou uma distância considerável em relação ao que foi registrado nas urnas.
O caso Veritá
A experiência com o Instituto Veritá é mais antiga. Em 25 de outubro de 2016, a cinco dias do segundo turno da eleição para prefeito de Vitória da Conquista, estava prevista a divulgação de uma pesquisa sobre a disputa entre Herzem Gusmão (MDB) e Zé Raimundo (PT). Havia grande expectativa porque, uma semana antes, o Instituto Painel Brasil havia apresentado Herzem com 55,5% das intenções de voto, contra 29,5% de Zé Raimundo, uma diferença de 26 pontos percentuais que provocara questionamentos entre os apoiadores do petista.
Para frustração de quem esperava que a pesquisa Veritá desse uma luz ao cenário, ela não apareceu. Não houve divulgação dos números nem uma explicação pública que esclarecesse o episódio. Diferentemente do que ocorreria com a AtlasIntel em 2024, o relatório completo não foi entregue ao TSE, o que sequer permitiu confirmar que o levantamento anunciado havia sido efetivamente concluído.
Em 2024, quando o Veritá voltou a anunciar uma pesquisa em Vitória da Conquista, retomei aquele episódio. A ausência de divulgação em 2016 não significava que o instituto deixaria de cumprir o novo anúncio, mas era um antecedente que merecia ser lembrado. O levantamento anunciado para o dia da votação também provocou discussões sobre a influência que pesquisas divulgadas no último momento podem exercer sobre os eleitores. No fim, se o levantamento foi concluído foi apresentado a uns poucos, porque não houve divulgação pública. Sequer apareceu no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle)] depois da eleição.
Em agosto deste ano, o Veritá apresentou ACM Neto com 56,1% das intenções de voto, contra 35,8% de Jerônimo, uma diferença de 20,3 pontos percentuais. Praticamente no mesmo período, a Data Trends encontrou uma vantagem de apenas dois pontos para o ex-prefeito de Salvador, enquanto o Opnus colocou o governador três pontos à frente. Em setembro, os dois principais candidatos apareceram tecnicamente empatados na primeira pesquisa AtlasIntel/A TARDE, divulgada no dia 3.
São situações que provocam questionamentos, mas seria irresponsável transformar minha experiência, minhas observações ou minhas suspeitas em uma sentença contra qualquer um dos institutos. Divergências entre levantamentos podem resultar de diferenças metodológicas, da composição das amostras, do período de coleta e dos procedimentos utilizados no tratamento estatístico dos dados.
O fato de a AtlasIntel ter identificado a trajetória de crescimento de Jerônimo na eleição de 2022 também merece ser considerado. Seu desempenho naquela disputa, entretanto, não é garantia de acerto em 2026, da mesma forma que os questionamentos dirigidos à Veritá não autorizam descartar automaticamente os resultados que apresenta.
O problema é que, quando pesquisas passam a despertar desconfiança, perdem parte daquilo que deveria constituir seu maior patrimônio: a credibilidade. E quem paga por isso é o eleitor, que procura informações para compreender o ambiente político e acaba recebendo números que alimentam expectativas muito diferentes.
O eleitor no meio
O eleitor brasileiro gosta de acreditar em pesquisas. Além da curiosidade que despertam, elas mobilizam conversas e oferecem uma referência para quem acompanha a disputa. Também podem influenciar comportamentos. Há quem se anime ao descobrir que seu candidato está na frente, quem fique desestimulado ao vê-lo atrás e quem considere a posição dos concorrentes antes de definir o voto. Não se trata de um efeito automático nem igual para todas as pessoas, mas é um componente conhecido da comunicação política.
As campanhas sabem disso e exploram os resultados em benefício próprio. Os números são selecionados, transformados em manchetes, reproduzidos em vídeos e distribuídos nos grupos de WhatsApp. Quando um levantamento favorece determinado candidato, recebe ampla divulgação de seus apoiadores. Quando contraria suas expectativas, passa a ser questionado ou simplesmente ignorado. A pesquisa, que deveria ajudar a compreender a disputa, acaba utilizada principalmente como instrumento de marketing eleitoral.
Na matéria que publiquei sobre a primeira AtlasIntel/A TARDE de setembro, mostrei como as campanhas de Jerônimo e ACM Neto conseguiram extrair notícias favoráveis de um mesmo levantamento. Agora, com dois institutos apresentando candidatos diferentes na liderança, nem sequer é necessário selecionar recortes de uma única pesquisa. Cada lado dispõe de um levantamento inteiro para sustentar sua narrativa.
Isso não significa que as pesquisas sejam inúteis ou que os institutos trabalhem necessariamente para atender a interesses eleitorais. A pesquisa de opinião é uma atividade técnica que pode produzir informações relevantes, identificar mudanças no comportamento do eleitorado e revelar aspectos que não aparecem nas manifestações públicas das campanhas. O que merece questionamento é a transformação de estimativas estatísticas em certezas políticas, especialmente quando os resultados estão tão próximos do limite que separa uma eleição decidida no primeiro turno de outra que exige uma segunda votação.
Neste momento, a informação comum aos dois levantamentos é que ACM Neto e Jerônimo aparecem muito próximos, com uma diferença numérica que não permite afirmar com segurança qual deles está efetivamente à frente. O restante é objeto de interpretações, expectativas, especulações e interesses políticos.
Faltam quatro dias para a eleição, com os apoiadores de ACM Neto comemorando os 51,1% da Veritá e os de Jerônimo os 50,7% da AtlasIntel. Os dois percentuais permitem construir manchetes sobre uma possível vitória no primeiro turno, mas nenhum constitui uma garantia estatística de que isso acontecerá.
O eleitor, que merece encontrar nas pesquisas uma referência confiável, fica diante de dois retratos diferentes da mesma disputa. Quer acreditar nos números, mas, antes de decidir o que eles significam, precisa enfrentar uma dúvida que não deveria ser tão difícil de responder: em qual pesquisa confiar?


