A Olívia Flores não tem coronavírus. Uma crônica da pandemia em Conquista
Tenho andado na Avenida Olívia Flores, de máscara, respeito à distância da pessoa da frente (quem vem de trás sempre me ultrapassa) e insistente uso de álcool gel a cada lembrança da época em que estamos. As caminhadas têm o argumento da saúde, o convite compulsório da namorada e da filha, são uma questão de escolha técnica.
Com o início da vacinação, ainda que em slow motion, fui verificar quando poderá ser a minha vez de receber as tão esperadas doses do imunizante e vi que vai demorar muito. Correndo tudo bem, as russas chegando, pode ser em julho.
Prestei bem atenção nas fases da vacinação e nos respectivos grupos prioritários e vi que obesos estão incluídos, obesos graves. Fazem parte dos grupos prioritários da segunda fase, de acordo com o Plano Municipal de Vacinação. A obesidade que se enquadra aí é a de grau III, cujo Índice de Massa Corporal (IMC) é maior do que 40,0 Kg/m2.
Eu peso 112 quilos e tenho 1,74 m, o cálculo é o peso dividido pela altura ao quadrado: 112 : 1,742 = 36,99! Ops! Quase dentro e muito fora. Teria que fazer uma escolha técnica, tipo: comer ambrosia do Supermercado Santo Antônio todo dia; intensificar o périplo Paulinho Bar, Cai 1 e Goró, deixando lá uma boa quantidade de garrafas cervejas vazias; aumentar o consumo de pizzas da Pietri e de sandubas do La Pança, ufa!, para chegar logo no IMC de 41 e ser vacinado antes do São João, ou tentar perder uns cinco quilos e cair para o grau II, e daí em trajetória reta e firme para um aceitável sobrepeso. Espero alcançar essa condição antes que o coronavírus me alcance.
Peço perdão a Naldo, Paulinho e Fabinho, ao La Pança e a Geo e Peu, mas optei por correr do grupo prioritário. Com o auxílio luxuoso da calçada da Avenida Olívia Flores.
As caminhadas têm ajudado a perder peso, a aliviar eventual estresse do dia e me divertir ainda mais com as companhias de Dulcy, Alice, minha filha, e João, filho de Dulcy e meu amigo.
Mas, não consegui toda a paz que queria e isso por causa de um a espécie de TOC adquirido recentemente: contar quem usa e quem não usa máscara por causa da ameaça da Covid-19. Ao andar na Olívia Flores no início da noite, me vem a pergunta: quem em Vitória da Conquista tem medo da Covid-19? E respondo, não é pouca gente. Tomando a minha contagem por base, porém, não diria que é a maioria. Em dois dias, contei quem passava com o acessório recomendado pelas autoridades e cientistas no rosto e quem não o usava.
Goleada para a turma do “estou tranquilo, em Vitória da Conquista o novo coronavírus está controlado pela Prefeitura”. No primeiro dia vi 79 pessoas usando máscara e 93 sem ela. No segundo dia (quarta-feira, 3), 84 sem e 101 com. Considere uma boa margem de erro, mas considere que todos deveriam estar usando máscara. Não incluí quem passava pelo asfalto e como eu estava andando e conversando com meu pessoal, perdi algumas passagens. Mas, a verdade é que qualquer um que ande pela Olívia vê que a maioria – jovens, em especial -, mesmo andando em dupla, trio ou pequenos grupos, não usa máscara.
Destaco um pessoal que vai de máscara e volta com ela na mão, no bolso ou protegendo o cangote. E pergunto aos cadarços do meu tênis novo: qual momento eles consideram que a máscara é importante e quando deixa de ser?
Logo no começo da pandemia, a promotora de Justiça Guiomar Miranda chegou a propor que a Prefeitura fechasse a avenida. Ela também entrou com uma ação na Justiça para barrar a reabertura do comércio, bares, etc., mas a juíza negou o pedido de liminar, até hoje não deu decisão definitiva, e a promotora, que lutou muito para que Vitória da Conquista não chegasse a 278 óbitos e 17.967 casos, vê os números subindo…
Não sei como é em outras áreas usadas para caminhadas e corridas (há uns 15 anos eu diria cooper), a exemplo do entorno da Lagoa das Bateias, mas penso que não é muito diferente. A população está tranquilizada com o discurso oficial do “Yes, we have UTI”, acredita que um remedinho aqui, um comprimido efervescente de zinco ali, é o bastante e mesmo que não seja tem UTI disponível ainda. Talvez não entendam que dos 48 óbitos de conquistenses este ano 45 foram em UTIs da cidade.
Ao que parece, na Avenida Olívia Flores, na sua parte nova e linda e na parte velha cada dia ficando mais feia, não tem coronavírus. Ou quem anda lá sem máscara se acha imune. Ivermectina? Cloroquina? Detergente de cozinha diluído em água?
O coronavírus da avenida deve ser apenas aquela escultura de mau gosto imposta pela Prefeitura ao nosso olhar já tão complacente. E é um coronavírus vacinado. Talvez isso explique a estranha tranquilidade dos atletas antimáscara.
Mas, um vereador quer tirar o “covidão” da Olívia Flores. Aí é que a avenida vai ficar livre do vírus e ninguém vai se assustar mais.


