Quem eram os personagens da política conquistense no início do século, onde estão e o que esperar do futuro
Quando o século 21 começava, em 1º de janeiro de 2001, os protagonistas da política de Vitória da Conquista eram, por tipo de mandato que exerciam, na Câmara dos Deputados: Coriolano Sales e Yvonilton Gonçalves (Vonca). Na Assembleia Legislativa: sem representação local.
Na Câmara de Vereadores: Ailton Rocha, Alexandre Pereira, Albano Carvalho, Álvaro Pithon, Ebenezer Fagundes, Edivaldo Ferreira, Gilzete Moreira, Hermínio Oliveira, João Alberto Rodrigues, José William Nunes, Lúcia Rocha, Lygia Matos, Miguel Felício, Noeci Salgado, Paulo Brito, Sandro Robério Jardim e Vivi Mendes
Na Prefeitura: Guilherme Menezes, prefeito; Zé Raimundo, vice.
Nos bastidores, articulando em apoio ao governo municipal ou na oposição: o ex-prefeito José Pedral, os ex-deputados Sebastião Castro e Vonca Gonçalves, e o reitor da Uesb, Waldenor Pereira. E havia outros tantos observadores ou apoiadores, sem maior destaque.
Há 20 anos, no segundo mandato do PT, se firmava a mudança ocorrida na política conquistense em 1996, com a derrota da vertente politica que manteve o poder municipal por 24 anos entre a eleição de Jadiel em 1972 e o fim da terceira gestão de José Pedral em 1996 (não se pode chamar de grupo porque Jadiel fazia parte de uma dissidência às decisões de José Pedral e foi eleito em uma das três sublegendas do MDB).
O PT entrou em 1997, com a vitória de Guilherme Menezes sobre Murilo Mármore, que tencionava voltar ao cargo de prefeito, após sua gestão de 1989 a 1992, e Yvonilton Vonca Gonçalves, que representaria a continuidade do pedralismo.

Pode-se dizer que foi uma mudança geracional. Guilherme tinha 53 anos quando substituiu Pedral, com 71 anos. Mas foi, principalmente, uma modificação das formas de fazer política e gestão. Em 2001, o vice de Guilherme era Zé Raimundo Fontes, que viria a tornar-se prefeito no ano seguinte, com 51 anos. O período pedralista, de 20 anos, teve três gestores (se incluir o governo de Jadiel, 24 anos e quatro gestores), o petista dois, em 20 anos.
Ao fim do quarto mandato de Guilherme, o nome proposto pelo partido para a sucessão foi, novamente, Zé Raimundo, que já tinha sido prefeito de 2002 a 2008. Além de fatores nacionais e externos, como o desgaste do PT causado pela iniciante e então popular Operação Lava Jato, entendeu-se que a derrota de Zé Raimundo para o radialista Herzem Gusmão, do MDB, tinha a ver com fadiga política, um cansaço da população com a mesma proposta política e os mesmos nomes em duas décadas.

Herzem tinha 69 anos quando começou a governar em 2017. Aqui, não se pode falar em mudança geracional. O antecessor de Herzem tinha 74 quando saiu do poder. E o adversário dele, Zé Raimundo, 67, apenas dois a menos que o novo prefeito.
Na eleição de 2020, Herzem e Zé Raimundo voltaram a se enfrentar. O primeiro, na busca natural da reeleição, o segundo por opção do partido por não renovar, nem geracional nem politicamente. Pode-se dizer que a escolha de Zé Raimundo tenha sido por falta de alternativas viáveis, além dele e do ex-prefeito Guilherme Menezes, que abriu mão de disputar a indicação. E se o deputado tinha (tem) suas reconhecidas qualidades pessoais, intelectuais e políticas, alternativas na mesma condição eleitoral dele não havia, pois a não opção por renovar ocorreu antes.
No campo dos adversários petistas, liderado por Herzem, o tema renovação estava em um tempo razoavelmente distante, o ano eleitoral de 2024. Havia a previsão de uma oxigenada em 2022, com a eleição de deputados. Para Herzem, estavam mais ou menos desenhadas duas opções, além de ficar na Prefeitura até o fim do mandato: ser deputado federal ou compor a chapa de ACM Neto na condição de vice. Ocorresse uma das duas últimas hipóteses, estaria aberta a temporada de definição dos nomes pretendentes à sucessão do prefeito. Se não, todos teriam que esperar 2024. Herzem não gostava de antecipar conversas sobre eleição.
Lamentavelmente, a história teve que ser escrita de outro modo, e antecipadamente, com o falecimento do ex-prefeito, em 18 de março, que embora tenha sido empossado por meio virtual, não pôde exercer nenhum dia do novo mandato, obtido por 97.364 votos.
No lugar de Herzem Gusmão, à frente da gestão municipal ficou a administradora e empresária Sheila Lemos, 48 anos.
A assunção de Sheila tem vários componentes inéditos que pedem uma reflexão, além da faixa etária, e um deles, muito especial, é de que se trata de uma mulher. Em 180 anos de emancipação política, desde 9 de novembro de 1840, quando foi instalado o município, Vitória da Conquista teve apenas homens como dirigentes: 38.
Antes de Sheila, algumas mulheres tiveram forte influência na política local em meados do século, como Olívia Flores e Tina Gusmão, mas apenas duas chegaram mais perto da principal posição política do município: a ex-deputada Margarida Oliveira, que foi eleita vice de Pedral em 1992, mas nem tomou posse, preferindo continuar na Assembleia Legislativa, e a mãe de Sheila, Irma Lemos, vice-prefeita na gestão anterior e que assumiu, interinamente, o cargo em substituição a Herzem, por duas vezes, tendo encerrado o mandato dos dois, quando ele já estava internado com Covid-19.
Em 1º de janeiro, quando foi empossada e assumiu, também interinamente, como a mãe, que lhe transmitiu o cargo, a maior esperança de Sheila, como da grande maioria dos conquistenses, era de que o retorno de Herzem acontecesse o mais breve possível. E tudo prosseguiria, sem sobressaltos, até abril de 2022. Havia uma expectativa de que, naquele momento, o ex-prefeito fosse chamado para uma missão estadual, como candidato a vice-governador na chapa de ACM Neto – o que o próprio Neto chegou a admitir -, ou, ainda, candidatar-se a deputado federal e projetar-se nacionalmente, depois de dois mandatos que acreditava seriam exitosos.
Sheila já deixou claro que vai respeitar e manter o legado de Herzem. Assim, o governo e o processo político que ela conduzirá pelos próximos quatro anos não encerram um ciclo. A mudança que se presencia agora, no entanto, pode se revestir da renovação que não ocorre desde 1972 e depois 1996. A começar pela presença de uma mulher prefeita.
Na eleição do ano passado, havia três candidaturas femininas a vice (Ariana Mota, com David Salomão) Luciana Oliveira (com Zé Raimundo) e a própria Sheila, e uma candidatura a prefeita, Maris Stella Novaes (além dela, apenas outra mulher já havia disputado o cargo, Margarida Oliveira, em 1982).
Uma prefeita pode abrir novos caminhos para o eleitorado e líderes femininas, como pode não acontecer nada. A parte que cabe a Sheila é, mais que representar um gênero, demonstrar que uma mulher pode ter a mesma – ou maior – competência que um homem para administrar um município como Vitória da Conquista. E isso ela já deu sinais de que é capaz nos cerca de 100 dias à frente do governo – onde ainda predominam homens.
Uma leitura pode ser tirada de sua posição histórica: abre-se caminho para uma mudança geracional na política conquistense. Infelizmente, em grande parte em razão da tragédia.
O fato é que a geração que estava no comando da política no começo do século não tem o mesmo protagonismo. Na Câmara de Vereadores permanecem Lúcia Rocha, em uma incrível sucessão de oito mandatos que começaram em 1992; Hermínio, seis mandatos, e Edjaime Rosa, o Bibia, com cinco. Porém, nenhum dos três pôde, ainda, galgar outras posições de destaque e, apesar da importância do cargo, não protagonizam.

Com a aposentadoria de Guilherme Menezes e a provável retirada de Zé Raimundo da lista de candidatos a prefeito para 2024, o principal partido de oposição ao governo municipal deve buscar uma renovação do seu time de prefeituráveis, embora ainda caiba a possibilidade do deputado federal Waldenor Pereira reivindicar a candidatura.
Hoje, o partido tem cinco nomes em projeção, além dos dois deputados: a vereadora Márcia Viviane (45 anos), os vereadores Valdemir Oliveira (54 anos), Fernando Jacaré (52 anos) e Alexandre Xandó (31 anos), e o presidente do diretório municipal, Isaac Bomfim (33 anos). Todos eles, principalmente Viviane e os dois mais jovens, se enquadram no que o senador Jaques Wagner denominou de renovação geracional.
No campo onde está Sheila Lemos, a renovação, antecipada por força do destino, seria ela mesma. Renovação geracional e de gênero, mas parte da manutenção de um projeto iniciado em 2016. Há mais nomes na composição política do grupo que vinha sendo liderado por Herzem Gusmão, que representariam opções de renovação geracional, e, sem dúvida, muitos querem uma oportunidade.
O que vai determinar as chances de cada um será o desempenho político e administrativo da primeira mulher prefeita de Vitória da Conquista, cuja jornada enfrentará as dificuldades inerentes à função (demandas gigantescas, falta de dinheiro, pressão política, etc.) e ainda o preconceito, hoje já muito claro.
ONDE ANDAM OS PERSONAGENS DE 2001
Vereadores: Ailton Rocha, Alexandre Pereira, Albano Carvalho, Ebenezer Fagundes, Edivaldo Ferreira, Gilzete Moreira, João Alberto Rodrigues, José William Nunes, Lygia Matos, Miguel Felício, Noeci Salgado, Paulo Brito, Sandro Robério Jardim e Vivi Mendes não mais concorreram a eleições
Lúcia Rocha e Hermínio Oliveira, foram eleitos mais uma vez em 2020, já Álvaro Pithon não conseguiu. Irma Lemos era a vice-prefeita até 31 de dezembro.
Deputados: Coriolano Sales, renunciou ao mandato de deputado federal em 2006, tentou duas vezes chegar à Prefeitura. Faleceu em maio de 2018; Yvonilton Gonçalves (Vonca), foi candidato a prefeito em 2000, a deputado federal em 2002 e a estadual em 2006, as três vezes sem sucesso. Atua politicamente no extremo-sul da Bahia.
Prefeito: Guilherme seria eleito deputado federal em 2002 e 2006, voltou à Prefeitura em 2009 e, reeleito, ficou até 2012. Hoje desempenha função no governo estadual.
Vice-prefeito: Zé Raimundo assumiu o cargo de prefeito em abril de 2002, com o afastamento de Guilherme Menezes para concorrer ao mandato de deputado. Reelegeu-se em 2004. Foi eleito deputado estadual em 2010 e reeleito duas vezes.
Outros líderes: José Pedral foi candidato a deputado estadual, em 2002, sem êxito. Apoiou Herzem Gusmão nas duas primeiras eleições para prefeito, faleceu em 2018; Sebastião Castro, que foi candidato a prefeito três vezes (1976, 1982 e 1988) e deputado estadual duas vezes, não disputou eleições neste século. Apoiou Herzem em três eleições de prefeito, incluindo a vitoriosa em 2016, faleceu em 2019; Clóvis Assis, falecido ontem (3), não se candidatou depois da última tentativa à Câmara dos Deputados, em 1998; Margarida Oliveira: não se candidatou a mais nada neste século. Chegou a ser candidata a vereadora em 2000. É aposentada; Waldenor Pereira, elegeu-se deputado estadual em dobradinha com Guilherme em 2002 e hoje está no terceiro mandato de deputado federal



