Uma sociedade que disputa crédito pela manutenção de um voo da Azul não consegue a duplicação da BR
Há cerca de 117 anos brasileiros e norte-americanos discutem quem foi o inventor do avião, se o nosso Santos Dumont ou os irmãos Wilbur e Orville Wright. Sabe-se que o brasileiro voou sobre o Campo de Bagatelle, em Paris, no dia 23 de outubro de 1906, com o 14-Bis, apelido do Oiseau de Proie (ave de rapina, em francês). Alberto Santos Dumont (20 de julho de 1873 – 23 de julho de 1932), nasceu em Minas Gerais, na cidade de Palmyra, que a partir de 1932 passou a se chamar Santos Dumont, em homenagem ao filho célebre.

Wilbur Wright (16 de abril de 1867 – 30 de maio de 1912) nasceu em Millville, estado de Indiana, e Orville (19 de agosto de 1871 – 30 de janeiro de 1948) em Dayton, Ohio, ambos nos Estados Unidos. Eles fizeram seu primeiro voo com o aeroplano Flyer, em 17 de dezembro de 1903, em uma área nas proximidades da cidade de Kitty Hawk, na Carolina do Norte. A principal diferença entre o voo feito pelos dois irmãos, com Orville pilotando, e o de Santos Dumont e seu 14 Bis, foi que o brasileiro decolou com o impulso apenas do motor, enquanto os americanos se utilizaram de uma catapulta.
Há seis anos, em um encontro em São Paulo, Amanda Wright Lane, sobrinha-bisneta dos irmãos Wright, e Mário Villares, sobrinho-neto de Santos Dumont, “fizeram as pazes”. Reconheceram que tanto Dumont como os Wright tiveram méritos, tendo, cada um a seu tempo, criado seus aviões e voado, de fato, antes que todos.
E graças a eles, chegamos à Azul, criada pelo brasilo-americano David Neeleman, também fundador da JetBlue Airways e Morris Air, nos Estados Unidos, e da WestJet, no Canadá. Nascido em São Paulo, filho de pai americano e mãe brasileira, Neeleman unifica Brasil e Estados Unidos na busca da conquista pelo céu azul.
Poesia e história à parte, a Azul vem sendo destaque na mídia conquistense desde o início de agosto, quando a empresa anunciou a suspensão do voo direto de Vitória da Conquista a Salvador a partir do dia 29 de outubro, alegando necessidade de ajustes em razão da demanda.
Na semana passada, a assessoria do governador Jerônimo Rodrigues informou que, como resultado de uma reunião dele com o ministro Sílvio Costa Filho, do Ministério dos Portos e Aeroportos (MPA), e John Rodgerson, presidente da Azul Linhas Aéreas, ocorrida em Brasília, a empresa aérea assegurou não apenas a manutenção do voo Conquista a Salvador, mas as rotas diretas da capital com Porto Seguro e Ilhéus. Parabéns ao governador.
Jerônimo fez o que lhe cabia. Diante das manifestações de representantes dos três municípios, ele, na condição de governador, foi a Brasília reforçar a reivindicação, que, no caso de Vitória da Conquista, já havia sido feita por movimentos locais, por deputados, vereadores e pela prefeita Sheila Lemos.
Em Brasília, a gestora conquistense levou o pleito da cidade ao ministro do Turismo, Celso Sabino, pediu o apoio de deputados e já estava se preparando para contatos no MPA esta semana, quando acontece na capital federal novo movimento de prefeitos e prefeitas por mais recursos do FPM.

Assunto do voo direto – provavelmente – resolvido, eis que, para não variar, começa a disputa de DNA, com o apoio de setores da mídia, interessados em catapultar uns e soterrar outros. Não mais que a isso se reduz a questão. Muito parecido com a celeuma do novo aeroporto, quando até a biruta teve disputa de paternidade.
Mais uma vez, se vê que as grandes questões locais não produzem unidade de ação, já que união é uma prática impossível, em se falando de política, especialmente. Cartel dos combustíveis, viadutos no anel viário, crise no Hospital de Base, atraso na construção da barragem, plano diretor urbano, universidade federal, duplicação da BR 116… Os atores se esforçam, mas as pautas não são uníssonas, têm lado, grupos, caminhadas paralelas, mas não simultâneas. A individualização ou partidarização de cada uma das demandas, dos pleitos coletivos não lhes dá força, talvez por isso derrapem prolongadamente sem resposta concreta.
Se a a manutenção de uma rota por uma companhia aérea gera disputa política, imagine a duplicação de uma rodovia, que exige força concentrada, sem dispersão, algo que parece improvável em Vitória da Conquista.


