A primavera nasceu este ano com uma flor a menos

A primavera nasceu este ano com uma flor a menos

Na quinta-feira, 21, eu estava escrevendo sobre a importância do mês de setembro na minha vida profissional. Há 45 anos, eu fazia uma escolha e entrava pela primeira vez na redação de um jornal. E há 39 anos, a partir de outra escolha da maior significação, cheguei para trabalhar em Vitória da Conquista.

Mas, no final da tarde daquela quinta triste, setembro veio me marcar como dor. Recebi a notícia de que a minha irmã mais nova entre as mulheres, a penúltima a nascer entre os filhos de Seu José e Dona Antônia, sofrera um infarto. Menos de uma hora depois, a notícia da tragédia.

A minha irmã completaria 52 anos no dia 16 de novembro. Foi a primeira pessoa no mundo a dizer que me amava. Desde a sua voz de criança até a voz quase rouca com o jeito cantado que ela foi aprender entre Juazeiro, para onde se mudou com o marido Jackson ainda na primeira metade da vida, e Petrolina, onde morava quando completou seu ciclo na Terra.

Todo mundo a chamava de Gessi nos últimos anos. Até minha mãe. Nunca deixei de vê-la e chamá-la de Tinha, um apelido que não é derivado do nome próprio, como muita gente. Ela era Gessineide no registro de nascimento, o sexto G entre os filhos, devido a uma inspiração nunca explicada dos meus pais. O nome Tinha tampouco sei como nasceu.

Tinha com minha vó Santinha e os irmãos Ném e Fio (Jacobina, julho de 1981)

Já perdi outros entes amados e senti essa mesma dor profunda. Meu pai, que nos avisou que morreria, ao convocar a todos os irmãos quando foi internado. Minha avó, mãe de meu pai. Essa que está na foto com Tinha. Minha vó também morreu em setembro. Era 1986 e eu já morava aqui. Eu e minha vó éramos muito ligados enquanto eu viva em Jacobina, onde nasci, e eu quis ir para o seu sepultamento.

O ex-prefeito Hélio Ribeiro, um grande amigo que também já se foi (final de agosto deste ano), liberou um carro. Mas, a viagem foi interrompida por um acidente. Perto de Poções, em um ponto que hoje não tenho sequer ideia de onde seja, uma carreta bateu no fundo da D10 de cabine dupla, fazendo o nosso carro capotar várias vezes até parar no fundo de um vale. O carro deu perda total, mas eu, a minha ex-mulher, o motorista e meu filho que estava na barriga da mãe havia cerca de quatro meses, conseguimos nos salvar sem maiores consequências, fora um prolongado trauma psicológico, uma fratura exposta em meu braço direito e alguns machucados e cortes.

Foi com essa memória que tomei a estrada para Petrolina na quinta-feira à noite. Minha amada Dulcy foi comigo, além de meu irmão Genival, para uma jornada de quase 13 horas de viagem rumo ao que seria a despedida de um ser amoroso, suave e bom, uma menina linda. Deus, minha vó, meu pai, os anjos em que minha irmã acreditava, fizeram a lua crescente ter brilho de lua cheia. As nuvens estavam claras e a estrada parecia iluminada. Só carros sem pressa, nenhuma ameaça.

Toquei os dedos finos dela, sob o tecido que a cobria no caixão, beijei o seu rosto e esperei que seus lábios se abrissem e eu pudesse ouvi-la dizer, mais uma vez, “Eu te amo, Nando”. Fiquei ali ouvindo seu silêncio repetindo adeus, adeus, adeus, até que eu entendesse que ela estava a me dizer aonde estava indo. E eu não tinha como duvidar.

E foi assim que a primavera nasceu este ano sem uma flor. Ela foi para Deus e está enfeitando o jardim do céu.

Aqui, ficam corações moídos de dor. O tempo mitigará o sofrimento e podem até se esvair as lembranças, mas na sequência da vida daqueles que foram amados por Tinha o seu legado não se apagará, porque o amor doado não morre. Pode virar silêncio, mas jamais virará esquecimento.

Se estão certos os que me falam do que acontece depois da morte, minha irmã está na paz.

Eu agradeço a ela por me ensinar tanto, até quando não está mais por perto.

Eu também te amo, Tinha. E queria te dizer que você foi linda para o céu.

Seres humanos são imperfeitos e, na vida, quem ama também atravessa sob nuvens de sombra, mas o amor não sucumbe. E nós nunca largamos a mão um do outro

P.S.: Meu abraço, meu beijo, meu amor para Jackson, Minie e Amandinha, esposo e filhas amados, unidos como uma só carne, um só sangue e uma só alma. Eu sei quanto amor os une à minha irmã, eu sei como vocês a fizeram feliz. Por ela, meu coração estará sempre ligado a vocês.

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