Luto: Vá pelos jardins, Carlos Murilo. Aqui ficam a história, saudade e gratidão

Luto: Vá pelos jardins, Carlos Murilo. Aqui ficam a história, saudade e gratidão

Exatamente dois minutos depois que enviei uma mensagem de WhatsApp ao celular do meu amigo Murilo Mármore, em busca de alguma notícia que ajudasse a aliviar a angústia sobre seu estado de saúde, recebi o link com o anúncio trágico: ele morreu. Estava na UTI do Hospital Unimed desde terça-feira (16), após sofrer um AVC.

Carlos Murilo Pimentel Mármore tinha 81 anos. Nasceu em Salvador, no dia 16 de julho de 1943, mas mudou-se para Vitória da Conquista na juventude. Advogado e administrador de empresas, ocupou cargos relevantes na cidade como diretor da Companhia Telefônica de Vitória da Conquista, nos anos 1970; procurador-geral na administração Raul Ferraz (1975 a 1982) e presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurc), desde a sua fundação até 1988, quando foi candidato a prefeito e se elegeu, aos 45 anos.

Deixou a Prefeitura no final de 1992. Em 1º de janeiro de 1993 passou o cargo para José Pedral Sampaio e em 1996 voltou a disputar a eleição de prefeito, perdendo para Guilherme Menezes.

Voltou à gestão com a vitória de Herzem Gusmão, com quem tinha um relacionamento de recíprocos elogios e respeito. Foi secretário do Gabinete Civil, procurador-geral e de Desenvolvimento Rural e Agricultura. Com Sheila, manteve-se por um ano no Desenvolvimento Rural, foi assessor especial, coordenador do Procon e voltou a assessor, contribuindo na Secretaria de Governo.

Pessoalmente, construí muitas histórias com Murilo, a quem, com a permissão dele, chamava pelo primeiro nome, Carlos. Vivíamos falando em escrever uma biografia dele. Como gestor, Murilo pagou muito caro pelas obras que Pedral fez antes dele e algumas que deixou para ele.

Naquele tempo, entre 1983 e 1988, os municípios não recebiam nem 10% do que recebem hoje de repasses, dentro do pacto federativo, e para fazer obra ou conseguia dinheiro do Governo Federal a fundo perdido ou tinha que recorrer a empréstimos bancários, como ainda é hoje, com a diferença de que pagar era mais complicado porque as arrecadações eram insuficientes.

De 1985 para 1988, no seu segundo governo, Pedral fez as feiras cobertas das Mamoneiras (hoje Ceasa) e o mercado do bairro Brasil; fez o terminal de ônibus; as escolas Maria Célia Ferraz, Isa Medeiros e Iara Cairo; a biblioteca no Aguão; drenagem e asfalto no Ibirapuera; e até o prédio do Hospital Esaú Matos. Tudo isso teve que ser pago depois. E boa parte da dívida começou a ser quitada na administração de Murilo, que passou a ter dificuldade financeira. Foi quando se criou o vale-salário, de famigerada lembrança, estendido ao terceiro governo de Pedral.

Mas, Murilo conseguiu investir bem na qualidade da educação, na melhora de postos de saúde e na urbanização e paisagismo da cidade, coisa que ele já fazia quando foi presidente da Emurc. Ele dizia que sonhava em transformar Vitória da Conquista na Curitiba do Nordeste. Algumas marcas da gestão dele nessa direção são a Avenida Brasil; a Praça Vítor Brito; a praça do bairro Brasil que leva o nome do pai, Desembargador Mármore Neto, mas ganhou o nome de Praça do Boneco, pela existência do monumento que Murilo fez em homenagem aos imigrantes; o estádio da Zona Oeste, hoje, mais do que nunca, o Murilão, entre outras obras.

Murilo foi o primeiro prefeito do Nordeste a investir dinheiro do próprio Município em saneamento básico, com a construção da rede de esgotos do bairro Brasil. Torcedor do Fluminense, do Rio, aqui, ele deu apoio ao esporte, investindo não apenas nos campos, mas nos times, tendo sido, antes de se eleger prefeito, presidente da Liga dos Desportos Terrestres (LCDT), fortalecendo o futebol local.

Sempre que o via, eu me lembrava de agradecer por dois momentos em que ele demonstrou grandeza comigo. Um foi na pré-campanha de 1988. Eu era assessor no governo de Pedral e ajudava na comunicação da campanha dele. Criamos uma arte para camisa, com dois dedos em ‘vês’, fazendo o sinal da vitória e compondo a frase “Viva Murilo!”. Imprimimos algumas centenas e distribuímos, mas não era a hora.

Em reunião com dezenas de pessoas, Murilo explicou para quem pedia a camisa que havia sido uma precipitação bem intencionada de um companheiro, mas que a propaganda não podia sair ainda. Em momento algum disse o nome de quem tinha dado o passo maior que as pernas, para me preservar. Eu já havia usado a minha, e fez apenas a observação na reunião, sem.nenhuma repreensão além daquilo, perdoou e até agradeceu pela ideia.

Eu acabei não trabalhando na campanha de Murilo, por uma mistura de calundu com destino, fiz a de Sebastião Castro. Dois anos depois, eu era Chefe de Reportagem na TV Sudoeste recém-inaugurada e um dia Cláudio Cordeiro, que era um dos braços de Murilo na Prefeitura, ligou para minha casa e disse que o prefeito queria falar comigo. Estranhei porque o cara contra quem fiz a campanha me chamava no gabinete.

Murilo me chamou para me oferecer trabalho. Ele queria que eu preparasse um projeto para a comemoração do sesquicentenário (150 anos) da cidade, incluindo a micareta daquela ano. Topei. Disse a ele que, ali, conquistou em definitivo a minha consideração. Porém, enquanto eu elaborava o projeto um “consultor” do governo chamado Gorgônio quis prestar serviço extraordinário a Murilo indo dia sim dia não, ao então diretor da TV pedir que me demitisse, como se falasse em nome da gestão, que estaria contrariada com a cobertura jornalística.

Procurei o prefeito e, na presença de Cláudio, devolvi a missão. Achei contraditório a Prefeitura me contratar e um assessor querer me demitir de outro lugar. Murilo não aceitou, reiterou as razões pelas quais me chamara, mas preferi sair. E, apesar de outros momentos em que, politicamente, estivemos em campos opostos, a mim ele sempre dedicou respeito e teve o meu.

A última vez que tivemos contato pessoalmente foi na inauguração no lançamento da obra de melhoria na reforma da feira do bairro Brasil, em junho do ano passado, na Prefeitura da Zona Oeste. E à distância, no dia do meu aniversário ele respondeu ao envio do link da crônica que escreveu acerca dos sentimentos da data: “Parabéns, Amigo, pelo aniversário e pela respectiva crônica!”. De volta, agradeci: “Obrigado, meu amigo. Me honra enormemente sua leitura”. E ele finalizou: “Não te faço favor. Apenas aprecio e louvo o seu talento. Abraço”.

Ele era constante em responder às mensagens com os links. Com seus comentários se enfileirava no time dos que me dão a motivação que sustenta a existência deste BLOG.

O BLOG perdeu um leitor e a cidade perdeu um conquistense apaixonado. Todo mundo tem momentos quando lapida diamantes e momentos em que os perde. Murilo não seria diferente, é da humanidade, que ele tinha impregnada em seus gestos. Seus últimos anos foram de incontido amor pela cidade, de irrepreensível cavalheirismo com todos e uma humildade sem tamanho como político. Por isso, talvez, não tenha sido devidamente aproveitado em sua experiência e desvelo por Conquista.

Que o seu caminho até o depois de tudo seja de flores, como os jardins que Carlos Murilo fez em Conquista .

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” (John Donne, Meditações VII).

Um comentário em “Luto: Vá pelos jardins, Carlos Murilo. Aqui ficam a história, saudade e gratidão

  1. Caro Giorlando, senti-me transportada àqueles tempos por meio dessa sua bela história, me emocionei bastante com tantas lembranças de acontecimentos, muitas dos quais presenciei. Tive a honra de trabalhar com esta pessoa exemplar, de quem me tornei amiga e admiradora. Saudades eternas Dr. Murilo. Expresso aqui meus sentimentos à família, que o Senhor a ampare e dê forças para suportar este momento de tamanha dor!!!

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