Pedral, o rochedo da política: “Eu não tenho coração de concreto”. Maior construtor de Vitória da Conquista faria 100 anos neste 12 de setembro

Pedral, o rochedo da política: “Eu não tenho coração de concreto”. Maior construtor de Vitória da Conquista faria 100 anos neste 12 de setembro

ARTIGO ESCRITO EM 16 DE SETEMBRO DE 2014, DATA EM QUE JOSÉ PEDRAL FERNANDES SAMPAIO MORREU, EM VITÓRIA DA CONQUISTA

Paro o que estou fazendo para lembrar de J. Pedral*. E lembro a partir de uma conversa que tivemos em sua casa, na praça Sá Barreto. Eu fazia uma das muitas entrevistas que fiz com ele sobre a política de Vitória da Conquista, o passado e o futuro. A certa altura, falávamos do pedralismo, a denominação para o movimento surgido a partir de sua primeira eleição, em 1962, e que ganhou força justamente com a sua cassação pelo regime militar instaurado em 1964. Eu disse a Pedral que muita gente o tinha como um mito, ao que ele, firme, mas não bruto, respondeu: “Mito não, os mitos podem ser desfeitos, eu não almejo ser uma lenda”.

Mito ou não, Pedral sai da vida para consolidar a sua história. Foi o maior prefeito que Vitória da Conquista já teve, considerando o tempo e as condições em que fez o seu melhor mandato, de 1983 a 1989. Pedral também sai da vida e entra para a história como a maior liderança política de Conquista. Não teve quatro mandatos como Guilherme Menezes, mas estruturou a cidade de tal forma que o PT, com Guilherme e José Raimundo Fontes, que se seguiram a ele, teve que consertar pouca coisa, ao contrário, pôde ampliar, complementar e dar seguimento. E olhe que Pedral fez tudo isso num tempo em que não havia a parceria do governo federal com as prefeituras.

Não havia a municipalização da Saúde, nem o SUS ou o Fundeb financiando quase a totalidade dos gastos com educação e saúde. Cada centavo era disputado em Brasília. Para construir, as prefeituras tomavam dinheiro emprestado em condições desvantajosas, que não se comparam com as de hoje. Os municípios viviam à mercê dos governos estaduais – e Vitória da Conquista ainda mais. Quase nada chegava. Era pura retaliação, uma perseguição que durou anos contra uma cidade que era guerreira, conhecida como a trincheira das oposições na Bahia, tendo à frente exatamente o líder que os poderosos da política estadual (e até nacional) tentaram calar com o assalto contra o seu mandato em 1964.

Não há para onde se olhe em Vitória da Conquista e não se veja a obra de J. Pedral. Infelizmente, por ação de uma propaganda maciça dos seus adversários de 1996, muito da juventude de nossa cidade – que tinha, naquele ano em que o candidato dele foi derrotado pelo PT, não mais que 9, 10 anos de idade – acha que Pedral só fez aquele viaduto incompleto da Régis Pacheco ou que entregou Conquista em estado de calamidade ao PT. Não foi bem assim.

Como eu disse, não há para onde se olhe para não enxergar sinais daquele operoso governo comandado por Pedral de 1983 a 1989 e mesmo do curto de 1963 a 1964 ou do contestado, que se encerrou em 1996. Mas ele pagou caro e nunca mais obteve um mandato eleitoral porque em seu último governo faltou dinheiro, o salário dos servidores atrasou e, no final, o lixo se acumulou nas ruas. Ou porque a Câmara, flagrada em corrupção, marcou aquele tempo com reflexos na história de um homem que até seus maiores adversários reconhecem: morreu com a dignidade dos que não roubam.

J. Pedral, insisto em tratá-lo assim, porque foi assim que ele construiu sua história de coragem, realizações e amor a Conquista. Quando os marqueteiros de Salvador inventaram a marca de Pedral Sampaio, ele começou a perder. Perdeu a eleição para deputado federal em 1990 e só voltou a ser prefeito de Conquista em 1992 porque o povo reconheceu nele o J. Pedral de 1958, 1962 e 1982. O J. Pedral que representava a coragem do conquistense e que foi afastado da Prefeitura pelos trogloditas da ditadura com o apoio de alguns borra botas da sociedade e da política local.

Mas aí, Pedral colocou uma sombra em seu caminho. Fez um acordo com ACM. Acreditou que ele ajudaria Conquista e salvaria o seu governo do vexame que foi. A mim, um ano depois, Pedral disse, mesmo depois de aderir ao carlismo: “Eu ainda sou marxista”. A frase foi manchete de capa de uma das edições do jornal Hoje, de Paulo Nunes. Antes, em entrevista que o então prefeito me concedeu para a Folha de Conquista, Pedral havia afirmado que se mantinha socialista, a despeito do surpreendente acordo feito com ACM. Mas, dizer isso não o ajudou a recuperar seus ex-aliados da esquerda. E eles trabalharam para acabar com o mito.

Entretanto, ninguém tentou mais isso do que o próprio Antônio Carlos Magalhães, que acabaria por manter a política de pão e água com Conquista e, mais tarde, antes mesmo de o governo de Pedral terminar, já o traíra pelo menos duas vezes, incluindo o racha no pedralismo, ao apoiar Murilo Mármore e forçar Pedral a lançar Vonca, em 1996. Conquista disse não aos dois, optando por Guilherme, ele mesmo passado pelo governo pedralista de 1983 a 1989.

Mas o mito não morreu. Fez-se lenda. Lendário, esse J. Pedral. Só não conseguiu, como me havia me dito no dia 13 de setembro de 2010, chegar aos 100 anos. Conquista o perdeu antes, mas sabe que ele não durará apenas um ou dois séculos. Está para sempre na história do município. E da Bahia.

Para terminar, revisando uma das entrevistas que fiz com ele, achei um trecho que reproduzo aqui, para falar do doce sentimento que Pedral, um rochedo de firmeza e decisão, tinha pela terra onde nasceu e que o fez a figura política e histórica que será por muitos anos.

Em uma parte da entrevista, feita no começo de 1989, eu perguntei como ele via as críticas ao fato de ter mandado construir uma biblioteca em uma área de charco, que era ali na Conquistinha, muito diferente do que é hoje. A biblioteca veio com um pacote de obras que Pedral trouxe à cidade, algumas delas inauguradas por Murilo Mármore, que o sucedeu eleito com a força dele, em 1988.

Além da biblioteca, Pedral trouxe três escolas, então nominadas como Iara Cairo, Maria Célia Ferraz e Iza Medeiros e o hospital Esaú Matos, entre outros equipamentos construídos com estrutura de argamassa armada, projetados pelo famoso arquiteto carioca João Filgueiras Lima, o “Lelé”, na Fábrica de Cidades, mantida pela Prefeitura de Salvador, quando Mário Kertész era prefeito da capital.

Vamos ao que me disse Pedral naquele bate-papo, há 25 anos.

Mas, no dia em que se drenar isso aí – e temos tal projeto, esse projeto que se chama Aguão -, ali será uma área verde muito grande e a biblioteca ficará dentro de um bosque, com vegetação linda. E será uma biblioteca que irá atender várias escolas. O projeto dessa biblioteca é modular e muito amplo, pois foi projetado para crescer sem precisar criar apêndices.

Eu sou uma pessoa sensível e emotiva, mas no exercício do poder, às vezes, temos que ser durões e tomar decisão. Quem tem um mandato, um comando, tem que decidir a favor ou contra, não pode ser morno. Você decide a favor ou contra, pode até decidir errado, mas tem que decidir. Eu não tenho coração de concreto, eu gosto de cultura, aprecio.

Não pensei que a biblioteca fosse ficar localizada tão mal. Era para se fazer um canal ali, onde passa o Rio Verruga, que nasce no Cruzeiro, no Poço Escuro e desemboca em Itambé. Esse rio já foi muito grande. No tempo do meu avô se pescava nesse rio, aqui na praça 9 de Novembro, onde hoje o rio é canalizado, mas se pescava ali, pois era um açude onde hoje é a Praça Bartolomeu de Gusmão. Em 64, eu destruí, pois a região tinha muito esquistossomose por causa do açude. Era uma epidemia, esse açude era no antigo Aguão, nas imediações de onde hoje fica a biblioteca.

Essa área era para ser um parque, não se concretizou o projeto, mas é para ser um parque. Isso foi em 1964 e está assim até hoje. Ninguém fez mais nada. Já foi feito canal no bairro Jurema e também vai chegar a hora de fazer esse canal e ali será um parque, parecido com o da Praça da República, em São Paulo. Essa biblioteca estará dentro de um parque no dia que fizer esse trabalho.

Será uma coisa linda, com pássaros cantando, aí vai ser bom, tudo arborizado no futuro. Isso tudo está pronto no projeto, basta apenas tomar posse. Essa moçada de hoje não conhece muito da cidade no passado, é preciso registrar essa memória, sim.”

O coração, que não era de concreto, parou. Descanse em paz, José Fernandes Pedral Sampaio.

Pedral no gabinete para uma entrevista (eu, João Melo e Wellington Gusmão)1986

* Eu não estava em Vitória da Conquista quando Pedral morreu. Trabalhava em uma campanha de governador no Amapá.

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