Vereador propõe mudar nome de aeroporto de Conquista. Equipamento teve três nomes propostos e escolha foi do governo do estado

Vereador propõe mudar nome de aeroporto de Conquista. Equipamento teve três nomes propostos e escolha foi do governo do estado

Filho do líder rural e ex-vereador por sete mandatos, Vivi Mendes (1993-2024), ele mesmo já construindo uma carreira longeva no parlamento, estando na sua terceira passagem, o vereador Nelson de Vivi (PSDB) propõe retroceder seis anos e colocar o nome do ex-prefeito José Fernandes Pedral Sampaio, que faria 100 anos nesta sexta-feira (12), no aeroporto de Vitória da Conquista, inaugurado em julho de 2019 e batizado de Glauber Rocha pela vontade do então governador Rui Costa.

Na sessão desta sexta-feira (12), Nelson de Vivi (PSDB) reforçou a importância do legado de Pedral e disse que o político, falecido em 16 de setembro de 2014, foi decisivo na idealização do atual Aeroporto Glauber Rocha. O discurso foi realizado durante a homenagem ao centenário de nascimento do ex-prefeito (1963-1964: 1983-1989; 1993-1996).

Nelson reconheceu a importância de Glauber Rocha como cineasta de prestígio internacional, mas defendeu que o nome do artista seja atribuído a obras da cultura e da arte. “Glauber foi um grande artista, de renome mundial, mas o aeroporto não representa esse universo. É um equipamento de desenvolvimento, de visão urbanística e política, e o nome justo seria o de Pedral Sampaio”, argumentou. “Ele idealizou o aeroporto, fez a planta, visitou o local, junto ao Pé de Galinha, e é graças àquela visão de futuro que hoje temos uma estrutura que alavanca o desenvolvimento da nossa cidade”, afirmou o vereador.

Nelson chegou a dizer que o pai dele levou José Maria Caires, um dos principais atores do movimento pela chegada do aeroporto, para conhecer o local onde a obra seria, antes mesmo de começar a construção, mas há um pequeno equívoco.

O aeroporto que Pedral idealizou não é o mesmo, a começar pelo local. O ex-prefeito previa a construção do equipamento na localidade de Pedra Branca, região do distrito de José Gonçalves, área que se diz muito mais propícia a pousos e decolagens com menor risco de cancelamentos em razão da meteorologia.

Porém, o fato histórico é que foi Pedral o primeiro a falar em mudar o velho aeroporto, com a construção de um bem maior, em uma área onde não ocorresse conflito com o desenvolvimento urbano. O aeroporto iria para perto do distrito de José Gonçalves, em área aberta, descampada, com ótimas condições de vento, pouso e decolagem.

O governo petista que veio depois da última gestão pedralista, teve – para a sorte de Vitória da Conquista -, semelhante ímpeto desenvolvimentista, com projetos para ampliar e modificar a infraestrutura, como forma de garantir atratividade para o município, vislumbrando o salto que se deu a partir de meio dos anos 2000. E o aeroporto foi incluído.

A primeira sugestão oficial de nome para o equipamento que era visto como fundamental para as pretensões de futuro do município, partiu da deputada federal Alice Portugal (PCdoB): Aeroporto José Fernandes Pedral Sampaio, ou José Pedral, apenas. Muita gente gostou da ideia. Um ano depois que Pedral morreu não havia nada em seu nome na cidade, pelo menos em equipamentos públicos. E foi ele quem primeiro pensou em um novo aeroporto, por isso a ideia da homenagem foi bem recebida.

Mas, não foi unânime. Semanas depois, o deputado Valmir Assunção (PT) apresentou um projeto com o nome de Jadiel Matos, outro político muito importante para Vitória da Conquista, considerado um gestor municipal de destacada atuação nas áreas de saúde e educação e para a zona rural, além de um mandato de deputado estadual e um de vereador relevantes. Não há como desconhecer o valor de Jadiel à história de Vitória da Conquista e estabeleceu-se uma corrida pelo nome, um desafio político.

Jadiel foi eleito em 1972 e, apesar da falta de recursos, melhorou muito os bairros, pavimentando, levando energia elétrica e a rede de água. Além disso preocupou-se com os acessos à zona rural, construção de açudes e de escolas e postos de saúde nas localidades mais distantes. Especialmente, Jadiel foi um planejador, que pensava numa Conquista organizada por setores e pronta para receber investimentos que impulsionassem o seu desenvolvimento e ajudassem a melhorar a vida da população.

Como Pedral, ele esteve na luta contra a ditadura, ambos foram perseguidos por ela. Pedral demitido sumariamente do DNER (antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) e Jadiel da Santa Casa de Misericórdia. Depois se separaram, com a eleição de Jadiel. O rompimento político se confirmou quatro anos depois, quando Jadiel queria Sebastião Castro como candidato e Pedral queria Raul Ferraz, tendo vencido a disputa interna no MDB. Nunca mais se reaproximaram. Naquele momento, mortos os dois, de alguma forma queriam que eles “brigassem” de novo.

Antes da escolha do nome pelo governador Rui Costa, o BLOG entrevistou o então prefeito Guilherme Menezes e ele foi taxativo: o nome de aeroporto deveria ser Glauber Rocha, que, segundo ele, é o que mais projeta Conquista no País e fora dele.

Mais tarde, li em um blog que o advogado e historiador Ruy Medeiros, ele próprio um símbolo de Conquista, opinou que não deveria ser dado nome de pessoas ao equipamento. Preferia Aeroporto Nove de Novembro (data da emancipação política de Vitória da Conquista), ou Aeroporto de Conquista ou de Vitória da Conquista. Por fim, instado pelo blogueiro, disse que também aceitava o nome de Jadiel para o aeroporto. Sobre o de Pedral nada disse. Julgo que não lhe foi perguntado.

Além das propostas de Alice Portugal, apresentada em 2015, e de Valmir Assunção, no mesmo ano, tramitaram na Câmara dos Deputados outros dois projetos de lei propondo nominações diferentes para o aeroporto. Um de autoria de Jorge Solla, apresentado em 2016, com o nome de Glauber Rocha, e o último de Paulo Azi (Uniao), também com o nome de José Fernandes Pedral Sampaio, de 2017.

Os projetos foram apensados e o relator, Deputado Tito (Avante), da Comissão de Viação e Transporte da Câmara, decidiu rejeitar todos, considerando que o governo federal delegara a exploração do novo aeroporto ao governo estadual, que ficou responsável pelas obras e pela gestão do equipamento, outorgada depois à iniciativa privada.

Para o relator, a União não deveria utilizar o seu direito de denominar o complexo aeroportuário de Vitória da Conquista, uma vez que a sua gestão tinha sido transferida para o Estado da Bahia. “Nesse caso, ao se desobrigar da exploração do aeroporto, a União deveria também abrir mão da prerrogativa de lhe dar o respectivo nome supletivo”, observou Tito.

Como reforço de argumento para a rejeição, o deputado baiano do Avante, nascido em Santa Maria da Vitória, destacou que em 21 de dezembro de 2017 foi publicada a lei estadual nº 13.812/17, dado nome de Aeroporto de Vitória da Conquista – Glauber de Andrade Rocha ao novo aeroporto, denominação aceita pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que alterou a inscrição do novo aeroporto no cadastro de aeródromos brasileiros, incluindo o nome de “Glauber de Andrade Rocha” em sua denominação.

O relatório concluiu que “não obstante a relevante biografia dos pretensos homenageados, em razão de a gestão do aeroporto de Vitória da Conquista ter sido delegada ao governo do estado da Bahia e no intuito de evitar transtornos de ordem prática e institucional, optamos por considerar a homenagem aprovada pela Assembleia Legislativa da Bahia e renunciar ao direito conferido à União de dar nome ao referido aeroporto”.

Não dá mais para mudar.

A lembrança é o longo processo de tentativa para que o aeroporto de Salvador volte a se chamar Dois de Julho, homenagem ao dia da Independência da Bahia, um desejo, inclusive de gestão petista nesses 19 anos. O nome era Aeroporto de Santo Amaro do Ipitanga, quando foi criado em 1925. Em 20 de dezembro de 1955, lei federal mudou para Aeroporto Internacional Dois de Julho e assim ficou por 33 anos, até 16 de junho de 1998, quando mudou de novo para homenagear o ex-deputado Luís Eduardo Magalhães, filho de ACM e tio de ACM Neto. E assim ficou.

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