Artigo de Ronnie Peterson: O culto à personalidade como grande opositor à democracia


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador e quase filósofo, e é ativista por uma política verdadeiramente democrática.
Em sua obra, ‘Como Vejo o Mundo, um dos maiores cientistas da humanidade, Albert Einstein, escreveu: “O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”. Alemão de descendência judia, o grande cientista conviveu de perto com a ascensão do nazismo, personificado na figura de Adolf Hitler.
Para além das ideias que movem o mundo, nossas percepções sobre ideologia e modelos de governo e Estado, o culto a personalidades, sob o pretexto de que líderes materializariam as ideias que defendem, é o grande “pecado” do mundo político. Essa figura de líder supremo está acima do bem e do mal, passa a exercer certo fascínio, provocando uma catarse coletiva que valida todas as suas decisões, mesmo que venham de encontro a própria coletividade.
A Alemanha, dos anos anteriores à ascensão do nazismo, era uma democracia, com uma assembleia nacional, com partidos políticos e com uma população entre as de maior escolaridade média no mundo. Neste contexto Hitler foi eleito chanceler, inclusive com apoio de outros partidos. Sobre esta mesma realidade, que levou Einstein ao exílio e a materializar sua percepção na afirmativa que abre este artigo, defendendo um modelo que privilegie a diversidade, tanto combatida pelos nazistas.
O mesmo perigo, de transformar um indivíduo em “salvador da pátria”, com um certo ar de infalibilidade, parece ser a nova tendência da política, não só no Brasil e não só da extrema direita. Tendência essa que provoca uma cisão no modelo de convívio democrático, a tal ponto que até as relações mais intimas, como as familiares, estão ameaçadas.
A afirmação de Einstein é um chamado à defesa da democracia como valor, onde a convivência com os contrários deve ser estimulada. Na democracia, devemos ter apreço ao debate de ideias, à defesa do direito à existência do outro e suas múltiplas formas de crer e de socializar. São justamente estes valores que hoje parecem estar ameaçados pelos cultos populistas a personalidades que, quando desnudadas, na maioria das vezes sequer representam, de fato, os ideias de seus seguidores.
Me alinho à definição de democracia do professor emérito da Universidade de Nova Iorque, Adam Przeworski que, em apertada síntese define democracia como “o regime que governantes deixam o governo quando perdem eleições”. Este viés preconiza a alternância de poder, a diversidade de ideologias e partidos que, em determinado momento, conseguem convencer a maior parte dos eleitores de que seu modelo é o ideal para aquele momento mas, que em um futuro próximo pode ser superado por outro e assim por diante.
No nosso caso, após inúmeras tentativas e golpes consolidados, temos a oportunidade de demonstrar que, finalmente alcançamos uma certa maturidade democrática. Daqui a pouco mais de um ano teremos a oportunidade, novamente, de eleger governantes e legisladores, que vença o debate saudável, propositivo e pacífico e, ao final, haja respeito ao resultado escolhido pela maioria.
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