O consumismo e sua nefasta influência sobre o comportamento humano. Coluna de Ronnie Peterson


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática.
Há poucos dias, os veículos de imprensa noticiaram operação no centro de Conquista para apreensão de produtos falsificados em loja muito popular, principalmente entre jovens mais pobres. O desejo de consumir determinadas marcas, um elemento estratégico do capitalismo contemporâneo, com o advento de redes sociais e seus influenciadores, ganhou uma proporção nunca antes vista.
Na “sociedade de consumo”, ser alguém é ser consumidor. A felicidade é atrelada à satisfação imediata de desejos, gerando uma constante insatisfação e ansiedade, já que os bens adquiridos perdem rapidamente o atrativo e são repostos.
O consumo é a “magia do efêmero”, mas também uma “doença da sociedade contemporânea”, destaca o psicólogo James Hilman. Não basta ter um celular, é necessário ser aquele da maçã, para que se complete a satisfação, o desejo quase incontrolável que se transmuta em um verdadeiro sonho de vida, possuir determinado bem.
A pressão para consumir no mesmo nível da classe dominante leva ao endividamento excessivo e problemas financeiros para indivíduos e famílias. Uma pesquisa do SPC Brasil aponta que apenas 21,8% dos brasileiros são considerados consumidores conscientes, refletindo a dificuldade em resistir ao apelo da compra por impulso.
O consumo de marcas de grande apelo, quase sempre de alto valor, leva as pessoas de menor poder aquisitivo ao endividamento, na maioria das vezes desnecessário. Parte do mecanismo que mantém o consumismo é a chamada obsolescência programada, onde produtos são projetados para se tornarem obsoletos rapidamente, o que acelera o ciclo de compra e descarte, penalizando financeiramente o consumidor e gerando frustração.
A vida de luxo e ostentação de influencers da internet, quase sempre atrelada às marcas que os patrocinam, alimentam o desejo de consumo. Para as pessoas das classes populares, a saída é o endividamento ou a aquisição de produtos falsificados, como aqueles vendidos em lojas populares e, por vezes, alvos de fiscalização como já citamos no início deste artigo.
O consumismo, como motor do capitalismo moderno, transforma desejos em frustrações e sonhos em pesadelos. É urgente, portanto, uma mudança de paradigma. Autores como Gilles Lipovetsky propõem que é preciso “reinventar a felicidade” para que o consumo não “esmague a multiplicidade dos horizontes da vida”. Neste mesmo sentido, uma educação para além de conteúdos programáticos é necessária para que, de alguma forma, alcancemos uma maior consciência coletiva sobre questões fundamentais, como a própria noção de felicidade. Todavia, cada vez menos se valorizam disciplinas que exercitem o livre pensar e a reflexão sobre nossa própria existência.
É fundamental, para pensarmos uma sociedade mais justa e que não encerre as gerações futuras em práticas nocivas, que nos voltemos à crítica deste sistema. É questão de sobrevivência de nossa sociedade revermos nosso modo de vida, valorizando a busca por uma existência mais humanamente equilibrada e empática.
Texto revisado pelo autor.
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