Duas crônicas do café em Conquista. Por Afonso Silvestre



Afonso Silvestre é historiador, escritor e tradutor. Pesquisador de comunidades tradicionais, autor dos documentários As Cores da Sagrada Família (2024), sobre o branqueamento da pele dos santos, e Memórias do Teatro em Conquista Entre 1910 e 1920 (2025), sobre o teatro enquanto primeira manifestação artística em Conquista. Foi coordenador e responsável pela modernização e regulação do Arquivo Público Municipal (2012–2016) e Conselheiro de Cultura (2019–2021).
I. COMO IGNORAR A IGNORÂNCIA
A greve dos catadores de café de 1980 alterou de forma decisiva as relações de trabalho no Planalto da Conquista. Até então, os trabalhadores da cata viviam sem proteção legal, submetidos à instabilidade típica da agricultura sob a ditadura. A paralisação rompeu esse quadro e ampliou a consciência sobre direitos, com apoio de religiosos, intelectuais e militantes ligados às Comunidades Eclesiais de Base, Comissão Pastoral da Terra e associações de trabalhadores rurais.
INSPIRAÇÃO PARA A GREVE
No quilombo do Furadinho, comunidade então com maior número de casas de farinha, mulheres que trabalhavam nos locais, organizaram, em segredo tão bem guardado que sequer maridos souberam, silenciosamente um protesto. No dia combinado, foram aos postos, mas não rasparam mandioca. Com a goma se perdendo ao sol, os patrões cederam. O episódio chegou às CEB’s por Noeci Salgado (1950-2024) e, a partir dali, articulou-se a greve do café. Durante 11 dias, cerca de 20 mil trabalhadores reivindicaram e conquistaram melhores salários e benefícios, jornada limitada, 13º, férias e o direito de que as crianças trabalhassem apenas meio turno para poderem estudar.
OCUPAÇÃO DA CIDADE
Produtores também enfrentavam crise. O governo militar descumpriu contratos, reteve recursos, desmontou assistência técnica. A extinção do Instituto Brasileiro do Café, em 1990, agravou a concentração fundiária e expulsou pequenos agricultores. Migraram para a cidade, ocuparam a Serra sem qualquer planejamento, ampliando a precariedade e ausência de serviços públicos que pudessem alcançar aquela nova massa populacional.
ESTRANHO FENÔMENO
Entre trabalhadores, a greve consolidou avanços. Entre parte dos produtores, não. Alguns se adaptaram ao pós Constituição de 1988 e modernizaram suas relações; outros permaneceram presos a um passado idealizado. Nesse grupo, repete-se o argumento comum de que “o Bolsa Família afastou os catadores do trabalho”. A afirmação não se sustenta. Ocorre que os trabalhadores apenas rejeitam receber R$ 50 diários na região quando podem ganhar R$ 500 em outros estados.
Persistem discursos que preservam antigas hostilidades e mitos. Enquanto catadores precisam viajar longe para encontrar remuneração justa e respeito, no Planalto da Conquista, parte do setor produtivo continua girando em torno de um passado que já não explica o presente nem suas escolhas. Na época da greve, era preciso lutar e conquistar seu próprio lugar. Nas circunstâncias atuais, existe mais liberdade aos que têm coragem, não de enfrentar, mas de ignorar a ignorância. Assim, os trabalhadores do café do Planalto da Conquista precisam viajar longe das suas casas para serem respeitados em seu trabalho. Nos cafezais distantes encontram dignidade no próprio retorno à lida, num mundo que tantas vezes insiste em lhes negar o sentido. Aqui, o conservadorismo de maioria corre em círculos buscando proteger-se num passado distante, obsoleto, antiquado.
II. MILHARES DE MUDAS, APENAS MAIS UM GOLPE
Iniciava-se a última década do século XX. Alguns milhares de mudas de macadâmia, a noz australiana com fama de dar dinheiro, apresentadas a cafeicultores desesperados como última tábua de salvação. O emissário do milagre era capixaba, fala sedutora, roupa impecável. Foi recebido com a habitual generosidade conquistense. Espaço na mídia, comida farta, gordos pró labores, hospedagem. A crença de que ali vinha um enviado do Espírito Santo.
A narrativa oficial era simples: se o café cambaleava, a macadâmia ergueria novamente a economia local. Bastava comprar as mudas. E muitos compraram, como Falstaff, o playboy mais humilhado do teatro inglês. Para quem não conhece, recomendo a leitura de As Alegres Comadres de Windsor, de W. Shakespeare.
Nada disso teria graça se não houvesse antes a moldura perfeita, que são décadas de decisões desastradas, calotes técnicos, promessas de assistência que jamais chegaram e um histórico de “soluções definitivas” que só aprofundaram a crise. Coisas da Ditadura Militar. A cafeicultura local era, naquele momento, terra fértil para visionários de ocasião. E conquistense, por generoso, costuma ser ótima plateia.
Neste contexto, surgiu o herói com os milhares de mudas de macadâmia, apresentando-se como pesquisador de um laboratório de famosa empresa de celulose. Foi organizada para ele no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima toda a estrutura que precisou para vender as mudas e explicar como aquela noz iria salvar a economia conquistense. Em seguida o homem se foi, com o suado dinheiro do produtor rural conquistense no bolso, e desapareceu. Dias depois foi visto no Fantástico como o homem que havia roubado milhares de mudas numa empresa de celulose no Espírito Santo e estava foragido.
Texto revisado pelo autor.
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