Memória política | Tião saiu na frente contra Murilo e o pedralismo e não quis fazer pesquisa, até precisar de uma e dar um jeitinho. Mas não deu certo


Desde 1984, quando cheguei a Vitória da Conquista, acumulo memórias da política local. Por falta de vocabulário e um certo temor de ferir suscetibilidades, mantenho a maior parte guardada. Já contei algumas delas, quase sempre em forma de homenagem ou como dado de alguma reportagem ou artigo.
Talvez já seja tempo de ir contando os casos, os mais emblemáticos ou humorados, enquanto ainda há testemunhas vivas e não pareça um exploração descabida e ficcional de possíveis, mas não prováveis, histórias envolvendo nossos importantes personagens históricos.
Em 1988, eu e Joaquim Oliveira, diretor de arte, com a solidária e produtiva parceria de George Bittencourt Rebouças, da Grafiset, cuidávamos da campanha de Tião, como era conhecido da população o médico Sebastião Rodrigues Castro, um dos fundadores do Hospital Samur.
Era a terceira vez que Tião disputava a eleição de prefeito de Vitória da Conquista. Na primeira, em 1976, foi o nome da sublegenda do MDB e ficou atrás de Raul Ferraz, eleito. Em 1982, novamente na sublegenda, perdeu para José Pedral. Naquele 1988 começou bem à frente dos demais candidatos, Murilo Mármore, do grupo pedralista, e Valter Pires, do PT pré-Guilherme Menezes.
A campanha andava bem, apesar da força da máquina comandada por Pedral a partir da Secretaria de Estado dos Transportes e Comunicações, para onde foi nomeado pelo governador Waldir Pires, após ter coordenado com sucesso sua campanha eleitoral.
O grupo pedralista esbanjava recursos, com shows de artistas nacionais, como a dupla de sucesso emergente Leandro e Leonardo, bingos com prêmios que incluíam carros, enquanto Tião, que havia sido o deputado estadual mais votado em Conquista em 1986, contava com apoio popular e de políticos como o deputado federal Elquisson Soares; o ex-prefeito Jadiel Matos; o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola; e o cantor Gilberto Gil, que viria a ser o vereador mais voltado de Salvador naquele ano, todos do mesmo PDT de Tião, à época, que vieram a comícios na cidade.


Pouca gente acreditava que Sebastião Castro poderia perder aquela eleição. No começo falavam em mais de 50% nas pesquisas. E mais tarde foi mencionado que, pouco menos de uma semana da eleição, o Ibope dava Tião com 14 pontos percentuais acima de Murilo. Eu mesmo não vi nenhuma pesquisa, mas acreditava.
Acreditava me preocupando. Eu passei quatro anos no governo de José Pedral, ouvindo-o praticamente todos os dias, inclusive sobre Tião. Por isso, havia um temor sussurrando para mim que deveríamos tomar cuidado.
Pedral e seu time de políticos experientes e estrategistas começaram a campanha jogando o povo contra o apoio de Margarida Oliveira a Tião. Naquele tempo, havia em Vitória da Conquista um sentimento muito forte de anticarlismo, contra o grupo político hegemônico no poder na Bahia, liderado por Antônio Carlos Magalhães, ex-governador do estado já por duas vezes e então ministro no governo José Sarney.
Desde a vitória de Jadiel Matos pelo mesmo MDB de Pedral – e que era o partido de Tião -, em 1972, a cidade passou a ser conhecida como trincheira da oposição. J.Pedral, como era conhecido o maior líder político conquistense, prefeito cassado pela ditadura militar em 1964 – assim como Chico Pinto, de Feira de Santana, e Virgildásio de Senna, de Salvador -, ainda era um ícone da esquerda baiana.
Margarida representava em Vitória da Conquista o seu oposto, tendo sucedido em importância no carlismo a líderes como Nilton Gonçalves e Orlando Leite. Os pedralistas venderam a ideia de que a união de Tião com ela (que seria a candidata a vice-prefeita na chapa de Pedral, em 1992, com ACM e tudo), era uma traição do pedetista, uma mudança da independência à submissão. E Margarida era vaiada em quase todos os comícios, até que parou de falar.
Eu tinha 26 anos, mas aquela era a minha terceira campanha profissional. Não poderia me achar experiente, mas tinha o faro.
Pedral tinha muito mais que eu, obviamente, e quando sentiu que estava chegando a hora de decidir a parada, já que os números de intenção de votos a Murilo Mármore que conhecia ainda apontavam para a vitória do adversário, ele encontrou uma brecha na lei e saiu do cargo de secretário e retomou o mandato de prefeito.
A virada começou no retorno de J. Pedral. A contratação do radialista mais conhecido da cidade, Herzem Gusmão, para trabalhar na campanha de Murilo, emprestando seu vozeirão e carisma ao projeto de vitória do pedralismo foi um sinal do que viria a acontecer. No começo da campanha, Herzem estava com Sebastião Castro.
O jovem redator, aprendiz de marqueteiro, viu que alguma coisa estava mudando justamente em um momento festivo da campanha de Tião, evento que empolgou os militantes do deputado que tentava, mais uma vez, chegar à Prefeitura da cidade que o acolheu com amor desde que chegara de Ribeira do Pombal, sua terra natal, ainda bem novo.
Eu estava em cima de um trio elétrico durante uma belíssima carreata de Tião. À altura da Catedral de Nossa Senhora as Vitórias, quando podia ver o ‘U’ invertido formado pelos carros que contornavam a Praça Tancredo Neves, eu localizei espaços vazios, e avaliei que a carreata tão comemorada não ‘bombara’, como se diz atualmente. Fiquei horas tenso.

Mais tarde, fui conversar com duas pessoas muito importantes da campanha, também médicos do Samur e personalidades de alto respeito na campanha e na sociedade. Comecei a dizer aos doutores Aderbal Pereira de Oliveira e Carlos Eduardo Borges Nery da minha preocupação com o que vi, e ia pedir aos dois que me ajudassem a convencer Tião a fazer uma pesquisa de opinião pública, para sentir se o que sabíamos do começo da campanha se mantinha. Mas, como dizem na minha velha Jacobina, Aderbal retou logo na abertura da minha exposição.
De inexperiente e louco fui de tudo um tanto nas palavras do querido cardiologista. Para alívio do meu susto, certamente muito mais para acalmar o amigo e evitar que eu sofresse um precoce ataque cardíaco, Nery contemporizou. Argumentou com Aderbal que eu poderia estar certo, que todos eles estavam muito envolvidos desde o começo do processo politico e isso poderia impedir avaliações neutras, de ver as possíveis ameaças. Aderbal me concedeu o perdão, não estava zangado, mas que eu parasse de pensar bobagem, a eleição estava ganha.
Alguns dias depois, ainda com a sensação de que a coisa tomava um rumo ruim, conversei com Clóvis Assis, vice na chapa, e com Tião, na casa deste, sob árvores frondosas, em uma tarde fresca de outubro, a uns 20 dias da eleição. Propus com toda ênfase que meu respeito e admiração por ele permitiam, que contratássemos uma pesquisa.
Clóvis disse que não tinha dinheiro, Tião disse que não havia necessidade. Com a simpatia com que sempre falou comigo, o candidato a prefeito colocou a mão no meu ombro e disse: “Quando estivermos na Prefeitura você vai poder fazer quantas pesquisas quiser na Assessoria de Imprensa [era o setor que cuidava da comunicação municipal na época]”.
Ok, vamos lutar. Saí, conversei com Joaquim e George sobre minha preocupação. A deles não era igual, mas os dois também achavam que uma pesquisa era necessária. Os três mantivemos a cabeça erguida, apesar da ducha fria, e fomos produzir material para o fim de semana.
A eleição se daria no dia 15 de novembro, uma terça-feira. No domingo pela manhã, Joaquim me alcança pelo telefone (nem Nostradamus previa o WhatsApp). Tião queria falar urgente conosco. Na reunião, o candidato falou que soube que poderia surgir alguma dificuldade com a eleição, pois havia alguns números não favoráveis de levantamentos feitos pela campanha de Murilo Mármore e que Pedral já estava cantando vitória. E foi bem claro: “Vocês precisam produzir um material gráfico que diga que eu estou na frente em todas pesquisas”. Mas, Tião, como a gente pode fazer isso? “É com vocês, tenho que aparecer com uma frente de 10 pontos, em média”.
Fomos para a Grafiset, nosso quartel-general de criação, comecei a escrever e Joaquim a elaborar a arte. No final, a peça afirmava que o povo ia vencer, com Tião, e as pesquisas comprovavam isso. Lá estavam números atribuídos ao Ibope, Vox Populi, Gallup e Sistema Nordeste de Comunicação (TV e Rádio Itapoan, de Pedro Irujo).
Ficou um primor o material, Joaquim era um criador de obras-primas e a Grafiset, sob a batuta de George e o estímulo da mãe dele, Adalgisa, caprichou nos 50 mil panfletos tamanho ofício, que foram entregues tarde da noite, na mais caprichada discrição, para serem espalhados pela cidade na segunda-feira, véspera da eleição.
Mas, como se a história já tivesse feito uma curva e não aceitasse cavalos de pau, por um motivo qualquer, a Justiça Eleitoral determinou busca e apreensão no comitê central, localizado na Rua Zeferino Correia – se não me engano onde hoje é o Real Palace Hotel. A polícia lacrou tudo. A pesquisa que Tião quis na última hora virou lixo sem sequer ir para a rua.
Murilo Mármore teve 25.252 votos, 54,32% da votação válida. Sebastião Castro 43,70%, equivalente a 20.315 votos. Pode ter sido a caneta cuja tinta se apagava, mas essa é outra história, que George Bittencourt pode contar.
Tião se reelegeu deputado, em 1990. Foi candidato a vice-governador em 1994, na chapa de Nilo Coelho, que ficou em terceiro no primeiro turno.
No dia da primeira diplomação de Herzem Gusmão como prefeito, em 2020, saímos juntos, eu e Tião, de Cemae. Eu já ia cantarolar a musiquinha com a qual brincava com ele (Tiao! Oi! Tu fostes? Fui. Comprastes? Comprei…), quando ele se vira para mim e diz, enquanto andava rápido para o carro: “Até que enfim, ganhamos uma”. Era seu desabafo por ter esperado dez eleições de prefeito até poder fazer a comemoração que ficou engasgada em 1988.
Trecho do jingle de Tião, criado, se não me engano, por Duda Mendonça
Daqui pra frente o deputado mais votado
vai estar sempre ao meu lado,
nunca vai me abandonar.
É Tião, é Tião, é Tião
É luta é povo, é união
É Tião, é Tião, é Tião
O voto do coração


FOTOS: ARQUIVO (CRÉDITO: HILDEBRANDO OLIVEIRA)


