O apequenamento político de Vitória da Conquista: sintomas de falta de liderança – Coluna de Ronnie Peterson


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática
Vitória da Conquista, historicamente conhecida como a “Joia do Sertão” e um dos colégios eleitorais mais estratégicos da Bahia, atravessa um momento de profunda crise de identidade política. A cidade já foi palco de grandes decisões políticas, se destacando como bastião da democracia. O cenário atual revela um fenômeno sintomático: a ausência de lideranças com projeção estadual, tanto no campo governista quanto na oposição, o que tem transformado a política local em um tabuleiro de incertezas e fragmentações que já antecipam o embate de 2028.
A política conquistense vive sob a sombra de dois gigantes que, por anos, polarizaram e organizaram os grupos locais. A aposentadoria política de Guilherme Menezes, o artífice do projeto petista na cidade, e o falecimento prematuro de Herzem Gusmão, a voz que unificou o sentimento de oposição ao PT, deixaram lacunas que nenhum herdeiro político conseguiu preencher com a mesma estatura.
Essa “orfandade” resultou em grupos políticos desorientados. Sem figuras de proa capazes de aglutinar forças e ditar o ritmo das coalizões, o que se vê hoje é uma busca desenfreada por sobrevivência individual em detrimento de projetos coletivos sólidos. A dificuldade em fortalecer novas lideranças locais com penetração em Salvador ou Brasília isola a cidade das grandes decisões estaduais.
No epicentro dessa crise está a prefeita Sheila Lemos. Embora detenha a máquina administrativa, Sheila enfrenta obstáculos severos para consolidar um projeto político que extrapole os limites do Paço Municipal. A fragilidade de sua base foi exposta de forma crua durante as recentes articulações para a chapa majoritária estadual.
O fato de Sheila ter sido preterida pelo prefeito de Jequié, Zé Cocá, na composição da chapa encabeçada por ACM Neto, foi um golpe simbólico e prático. A escolha de Cocá em detrimento da prefeita da terceira maior cidade do estado sinaliza uma perda de prestígio político de Conquista no cenário baiano. A ausência notável de Sheila no evento de lançamento da chapa Neto/Zé Cocá não foi apenas um desencontro de agendas, mas o reflexo de quem “sentiu o baque” de ser escanteada pelas lideranças estaduais.
As constantes interferências de lideranças estaduais na política local (como o caso do vereador Diogo Azevedo) têm contribuído para o esfacelamento da base de apoio da prefeita. Quando as decisões que afetam o município são tomadas em gabinetes na capital, sem considerar as nuances e o peso de Conquista, a autoridade local se dilui.
Essa desarticulação projeta uma sombra de dúvida sobre os planos familiares e políticos de Sheila. A eleição de seu esposo, antes dada como uma extensão natural de seu capital político, hoje é considerada uma grande incógnita. Sem uma base coesa e com aliados flertando com outros centros de poder, a manutenção do grupo de Sheila no poder para além de 2026 torna-se um desafio hercúleo.
Embora o foco imediato seja a sucessão estadual e federal de 2026, os movimentos em Vitória da Conquista são, em sua essência, ensaios para a eleição municipal de 2028. A incapacidade dos grupos em se aglutinar e a falta de novos nomes que empolguem o eleitorado criam um ambiente de pragmatismo frio.
Pelo lado do PT: A dificuldade em encontrar um sucessor para o legado de Guilherme Menezes que não dependa exclusivamente da imagem de Lula ou Jerônimo Rodrigues.
Pelo lado de Sheila: A necessidade urgente de recuperar a autonomia política e provar que Conquista não aceita ser apenas um satélite de interesses externos.
O que se desenha é uma política de “salve-se quem puder”, onde a falta de um projeto coletivo pode levar ao surgimento de candidaturas fragmentadas e ao enfraquecimento da representatividade conquistense na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal.
Vitória da Conquista precisa redescobrir sua força política. Enquanto a cidade permanecer refém da saudade de lideranças passadas ou da subserviência a caciques estaduais, continuará a ver cidades vizinhas ocuparem o espaço que, por direito e relevância, deveria ser seu. 2026 será o teste de fogo: ou surgem novas lideranças capazes de unir os grupos órfãos, ou a cidade chegará a 2028 ainda mais dividida e politicamente apequenada.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
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