O jatinho subsidiado e o prato vazio: Huck e a crônica da hipocrisia rigorosa – Coluna de Ronnie Peterson

O jatinho subsidiado e o prato vazio: Huck e a crônica da hipocrisia rigorosa – Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.

O Brasil carrega um paradoxo cruel. Estatísticas econômicas recentes consolidam o país como a 8ª maior economia do mundo, um gigante em produção de riquezas e recursos. No entanto, o mesmo retrovisor que aponta a pujança econômica reflete o espelho da nossa maior vergonha: ocupamos também a 8ª posição no ranking global de desigualdade social. Essa disparidade não é um acidente de percurso; é um projeto mantido por uma elite econômica e midiática que historicamente criminaliza a pobreza enquanto se farta nas benesses do Estado.

Essa dinâmica ficou nítida em episódios como a polêmica declaração do apresentador global Luciano Huck sobre os beneficiários do Bolsa Família. Ao questionar ou ironizar programas de transferência de renda que garantem o mínimo existencial para milhões de famílias, figuras públicas como ele expõem o que o sociólogo Jessé Souza batizou de “a elite do atraso”. O cinismo da crítica se torna ainda mais evidente quando confrontado com a folha de antecedentes desses mesmos críticos. Huck, que acumula polêmicas que vão de crimes ambientais em suas propriedades a questionamentos éticos, não vê problema em utilizar o dinheiro público quando este serve aos seus caprichos: seu jatinho particular foi financiado com juros subsidiados pelo BNDES — um dinheiro que, ironicamente, vem dos impostos pagos por toda a sociedade, inclusive pelos mais pobres.

Esse comportamento não é isolado, mas o modus operandi da classe dominante brasileira. Propaga-se o mito do “Estado mínimo” para os direitos sociais e do “Estado máximo” para o socorro aos grandes empresários. Enquanto o auxílio para quem passa fome é tratado como “esmola que gera acomodação”, a verdadeira mamata acontece no andar de cima. Bilhões de reais são distribuídos anualmente em isenções fiscais, perdões de dívidas e empréstimos com juros abaixo do mercado para grandes corporações e barões da economia. Para a elite, o subsídio é chamado de “estímulo ao desenvolvimento”; para o pobre, a sobrevivência é tachada de “vadiagem”.

O reflexo mais perverso dessa narrativa é a sua capacidade de colonizar as mentes da própria classe trabalhadora. Através do bombardeio sistemático da grande mídia e, mais recentemente, de influenciadores digitais nas redes sociais, operou-se uma inversão ideológica. Sob o manto do discurso da “meritocracia” e do “empreendedorismo”, trabalhadores são induzidos a acreditar que direitos trabalhistas e previdenciários — conquistados a duras penas após décadas de greves e repressão — são amarras que impedem o seu crescimento. O ápice desse absurdo é ver o cidadão precarizado defendendo a perda de seu próprio descanso semanal ou o fim de garantias básicas, em nome de uma liberdade ilusória que só beneficia o patrão.

Enquanto o debate público é artificialmente direcionado para atacar os poucos reais destinados à segurança alimentar dos vulneráveis, a verdadeira farra institucionalizada segue blindada de qualquer indignação. Quase não se vê o mesmo rigor midiático para questionar os privilégios da classe política e do alto funcionalismo. Nossos vereadores desfrutam de frotas de carros, verbas de gabinete, diárias e o famigerado vale-alimentação que equivalem a praticamente um salário mínimo. No Congresso e assembleias legislativas, deputados acumulam desde o anacrônico “auxílio-paletó” até uma infinidade de penduricalhos que tornam seus vencimentos astronômicos.

Para esses setores, o orçamento público sempre tem espaço. Mas, na hora de fechar as contas, a narrativa oficial insiste que o problema fiscal do Brasil é o prato de comida do Bolsa Família ou o fato de o trabalhador exigir um dia a mais de descanso após uma jornada exaustiva. Superar a desigualdade brasileira exige, antes de tudo, desarmar essa armadilha discursiva. É preciso apontar o dedo para os verdadeiros drenos do dinheiro público e entender que um país só será verdadeiramente rico quando a sua dignidade parar de ser medida pelo jatinho de poucos e passar a ser garantida no prato de todos.

FOTO DESTAQUE: ILUSTRAÇÃO CRIADA SUANDO CHATGPT

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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