Fim de papo na Copa, fim de papo aqui: salvo pelo Camaçari de ser o pior da Bahia, ECPP Vitória da Conquista tem futuro incerto


No atual Campeonato Baiano da Série B, o Fluminense de Feira venceu oito partidas seguidas, marcou 33 gols na competição e a vitória com menor placar foi o jogo contra o Feira Futebol Clube, 2 a 1. Deixou para empatar no último jogo, em Vitória da Conquista.
Com nove reservas, enfrentou o ECPP Vitória da Conquista no Lomantão e ficou no 2 a 2. Apenas 41 torcedores pagaram para ver.
Se o time da casa tivesse vencido, terminaria o Campeonato Baiano da Série B em sétimo, distante do acesso à Série A, mas, também longe da humilhante sublanterna. Em 2022, quando caiu para a segunda divisão, o ECPP também ficou em penúltimo, mas pelo menos venceu duas partidas em casa e chegou a sete pontos. A campanha deste ano teve cinco derrotas, três empates e apenas uma vitória, em cima do pior time da Bahia, o Camaçari, que levou 41 gols e perdeu todas as partidas.
Camaçari fazia sua reestreia no futebol profissional da Bahia, depois de cinco anos. O ECPP Vitória da Conquista fez sua 21ª competição profissional Na primeira, há 20 anos, foi o campeão invicto dessa mesma segunda divisão da qual se despediu ontem com seu pior desempenho.
O presidente do clube, Ederlane Amorim já disse que em 2027 a chance maior é de que o ECPP não esteja na disputa pelo acesso à Série A. Com o ECPP fora e se Serrano ou Conquista não entrarem, poderá a primeira vez em 21 anos que Vitória da Conquista não terá um time disputando algum torneio de futebol profissional no estado. Essa situação se deu entre 2002 e 2005, após um longo período de 22 anos de participações (1980 a 2001).
Em entrevista que deu em junho ao BLOG DE GIORLANDO LIMA, o presidente Ederlane Amorim, desabafou sobre o presente e o futuro do ECPP e sobre seu sentimento diante do cenário. Para ele, dificilmente o time disputará o acesso de novo, em 2027. “Se a gente tiver de fechar, que a tendência é continuar dessa maneira, a gente não deve disputar mais nada o ano que vem, afirmou. Ederlane diz que o ECPPP não tem recursos financeiros para seguir em frente. E cita como exemplo de clube que subiu para a Série A graças à a condição financeira, que, no caso do conquistense, segundo o dirigente, não existe por falta de apoio.
“Em 2021, poucas pessoas sabem disso, quem subiu o Barcelona da primeira para a segunda divisão, o Barcelona, que é um time de Ilhéus, fui eu. Eu fui contratado, e enquanto o ECPP jogava a primeira divisão aqui, em 2021, o Barcelona, que estava na segunda, me convidou pra eu fazer o futebol lá. Eu fui o executivo do futebol, eu que contratei, eu que formei o elenco, levei várias pessoas daqui pra trabalhar com a gente, o Lima, o Paulo, o André Borges, e nós fomos campeões. Só subia um time naquele ano e subimos praticamente sem dificuldade, porque nós tínhamos o recurso pra trabalhar. Aqui não, aqui é uma dificuldade enorme pra se ter um recurso”, se queixa.
“Tudo aqui é motivo de avaliação, se um jogador que vem de fora, o torcedor não sabe, mas custa quase R$ 3 mil só de papel, e um jogador aqui da cidade custa 400, 500 reais só pra inscrição. Então quer dizer, olha só a diferença que é, e lá no Barcelona eu não tive essa preocupação e subimos. Nós subimos com o Barcelona em 2021 e caímos em 2022, com o Vitória da Conquista. Olha só que ironia”, relata Ederlane.
Ele afirma que poderia ter trazido o mesmo elenco que formou no Barcelona, se tivesse dinheiro. “Mas não tive como concorrer com o próprio inimigo, no bom sentido, que eu coloquei na primeira divisão. Quando eu digo eu coloquei, foi a minha administração junto com todos”.
Ederlane aproveita para dizer que esse sentido coletivo na direção é uma característica dele à frente do ECPP, mas as pessoas não perceberiam. “Então, esse é outro detalhe que evidencia a força do nosso trabalho quando se tem condições de trabalhar. Mas pra aquele torcedor que não consegue enxergar isso, que só faz criticar, que não vive o dia a dia do futebol, vai simplesmente falar que a gente não sabe fazer futebol, que eu vendi o jogo pro Bahia, que o time está assim porque vendeu o jogo do Bahia. E isso não tem nenhuma verdade, isso nunca aconteceu”.
O trauma de 2015 persegue o dirigente. Parte da torcida atribui os últimos desempenhos do ECPP a uma nunca provada venda do jogo da final contra o Bahia. “Nós estamos à frente do clube há 21 anos, com tantos nomes de pessoas da sociedade que emprestaram o nome deles pra nossa diretoria, a Tubos Kep, recentemente o Paulinho passou a ser diretor do clube, Falcão Calçados. Olha quem são as pessoas [que estão com o clube]. Você acha que essas pessoas iam ter esse tipo de movimento [favorável] se tivesse algum fundo de verdade essa situação [do Bahia]? Ninguém estaria fazendo isso, ninguém estaria emprestando aquilo que tem, que a gente tem de mais sagrado, que é o nosso nome”.
Ederlane ressalta que a pandemia criou dificuldades para todos os clubes, principalmente os pequenos, com a redução de patrocínios e que o rebaixamento foi a gota d”água da crise. “Fomos rebaixados no ano que mudou o regulamento, quando passaram a cair dois clubes e nós fomos o penúltimo por saldo de gols. E aí, infelizmente, quando você cai, você já perde o principal patrocínio da televisão para a competição, que hoje deve estar em cerca de R$ 300 mil da Série A. Na Série B, você não recebe um centavo, então a gente tem feito as competições da Série B com recursos auferidos aqui na cidade, e é realmente muito pouco para o que se tornou o futebol hoje, onde os times grandes todos estão investindo. Ou seja, é complicado, fica muito desigual você poder competir com outras agremiações que estão num momento de poder de investimento muito maior que o nosso”.
Para o o criador do Bode. falta compreensão de grande parte da torcida. “O torcedor vê de um jeito, não quer nem saber o que está acontecendo, ele é torcedor, ele não quer nem saber. Como agora, por exemplo, que eu estou tomando dinheiro na mão de agiota para pagar a despesa do jogo de ontem [contra o Redenção, no dia 14 de junho). Ninguém quer saber disso, né? As pessoas só dizem: ‘Ah, vendeu o jogo do Bahia, vendeu o jogo do Bahia'”.
Embora lamentando, sem negar a tristeza que a situação causa a torcedores e diretoria do ECPP, o dirigente diz que se não der mais, vai parar. Mas, diz que se alguém tiver interesse em assumir, a abertura existe. “Então, como a gente não está tendo mais fôlego para poder disputar de igual para igual com outras equipes, ou pelo menos tentar disputar, é melhor parar e esperar um momento que isso aconteça, financeiramente você se reestruturar, ou que venham outras pessoas. O clube está aberto a qualquer pessoa que queira assumir a presidência da entidade”.
“Se ano que for parecido 10% com o que foi este ano, eu não participo não. Já vai começar pelo Sub-15 ou Sub-17 agora, que talvez eu não participe. Se eu não tiver aí uma situação que está sendo desenhada, eu não vou participar. Aí pronto, vai ficar todo mundo quieto. E se o Conquista não participar, pois o azul e branco ficou de fora do Sub-20 também. O Serrano já tinha ficado na fase passada. Então, os três times de conquista ficaram de fora. O profissional está de fora. Então, será que o problema está em mim? Será que realmente sou eu? Por que o Serrano não disputa o profissional? Por que não classificou no Sub-20? O Conquista, que tem o amparo aí da Unimed, de Belitane, do grupo Esquadra, não sei se você sabe dessa realidade, também não passou, ficou na mesma fase que o meu Sub-20, que só conseguia viajar na hora do jogo. Então não é isso, cara, não é isso [de Bahia, de 2015]”.
Criador do Esporte Clube Primeiro Passo em 2001, com recursos próprios, Ederlane diz que a situação do clube repercute em sua vida pessoal e afirma que chegou a vender camisa para sobreviver. “É mole? Então é isso que as pessoas não entendem. Precisa de recurso financeiro pra tudo. Você não faz nada sem dinheiro no futebol. E eu vou fazer time como, pelo amor de Deus? Eu já estou enfrentando problemas familiares por conta do futebol, dificuldades. Então, você vai se cansando, né? Já vou fazer 60 anos, já não sou mais nenhum garoto. Tenho que reavaliar se tudo isso vale a pena. Eu não busco reconhecimento de cidade, eu nunca quis, nunca. Não anseio o cargo político, não tenho essa diretriz. Então, não tenho porque estar preocupado com formação de opinião, o que me preocupa, na verdade, são os meus familiares. E a minha relação interpessoal que eu tenho com o Nosso Senhor. Isso aí me basta, é suficiente”, afirma.
Ederlane encerra: “Se tiver de fechar a porta do clube, que seja. Se tiver de outra pessoa assumir, que venha. Pronto. Se o nosso tempo foi só até agora, assim foi a vontade de Deus. Se é para a gente sair, a gente sai. Sempre Deus tem o melhor para as nossas vidas e tudo o que está acontecendo é o de melhor. As nossas derrotas, as nossas frustrações, as nossas decepções com o clube, com o desgaste, é o melhor para as nossas vidas, ainda que a gente não perceba isso no momento, lá na frente a gente vai sorrir disso tudo”.

FOTO DESTAQUE: ANDERSON MARCA O SEGUNDO GOL DELE E DO ECPP CONTRA O FLUMINENSE, EM 5/07/26 (REPRODUÇÃO DA INTERNET)


