Ederlane diz que situação atual não tem nada a ver com 2015, admite deixar direção do ECPP e sugere unir clubes conquistenses em um só



Já são 25 anos. Tudo começou com um projeto social com crianças, em 2021, e evoluiu para o clube mais vitorioso da história do futebol conquistense. Mas, nem tudo foram flores. E agora, quase tudo perece espinho. Em um péssimo momento, o Esporte Clube Primeiro Passo Vitória da Conquista, atualmente denominado ECPP Moriá, por uma parceria com o projeto mantido pelo ex-jogador Pena, tem visto minguar o número de torcedores a favor e crescer o de quem torce contra. O total de ingressos vendidos para os quatro jogos no Estádio Lomanto Júnior foi 1.325 (750, 175, 291 e 109), enquanto nas redes sociais teve muito mais gente que preferiu vaiar.
Faltam dois jogos para encerrar a participação no Baianão 2026 Série B, e, sem chance e sem dinheiro, o time vai dispensar alguns jogadores e cumprir tabela contra o Barreiras, lá no Oeste, e contra o Fluminense, no encerramento em casa. Com uma vitória, dois empates e quatro derrotas, três delas no Lomantão, se der sorte o Bode Alviverde fica na posição em que está, sétimo lugar, mas pode descer para penúltimo, atrás apenas do saco de pancadas Camaçari, que perdeu todas e já levou 34 gols. Outra vez, não voltará à Série A, onde chegou a ser vice-campeão em 2015.
Vice-campeonato, aliás, que nunca foi devidamente comemorado. Ao contrário, à medida que o tempo passou e os resultados foram piorando, a derrota para o Bahia na Fonte Nova, por 6 a 0, depois de vencer o Esquadrão de Aço duas vezes em casa (2 a 0, na primeira fase e 3 a 0 no primeiro jogo da final), é apontada como o início da debacle do clube, pois, insistem os detratores do ECPP e do seu fundador e presidente Ederlane Amorim, o jogo teria sido vendido.
Como resposta, Ederlane diz que essa afirmação chega a ser uma aberração. Várias pessoas já foram processadas por isso e perderam, o que não impede a mágoa. “Quem vendeu o título, gente? Como eu já cheguei a falar: eu juro pela minha mãe, pelos meus filhos, eu quero que todos estejam mortos agora, se isso em algum dia chegou a ser, pelo menos cogitado, se alguém me procurou pra isso”, desabafa.
Para o dirigente, o momento é ruim porque o clube não teve recurso financeiro para montar um time melhor, e os resultados não aparecem em campo. “Foi no campo que o resultado deixou de acontecer. Tatu não está embalsamado. Silvinho, Rafael Granja, Edmar, Éder, Arthur, Kleber, esses jogadores não estão embalsamados, o tempo passa e não surgiram outros”, destaca.
“O torcedor vê de um jeito, não quer nem saber o que está acontecendo. Ele é torcedor, ele não quer nem saber, como agora, por exemplo, que eu estou tomando dinheiro na mão de agiota pra pagar a despesa do jogo de ontem (domingo, 14). Ninguém quer saber disso, né? As pessoas só: Ah, vendeu o jogo do Bahia, vendeu o jogo do Bahia…”.

Ederlane se queixa que grande parte da imprensa deixa de ajudar a esclarecer as coisas porque também procura a audiência com a polêmica. “Não estou recebendo imprensa, não estou falando, exatamente por isso: porque eu estou cansado já de fazer as matérias, a pessoa publica e embaixo vem a mesma coisa de sempre, aquela chuva de comentários, aquela mesma conversa de sempre, que as pessoas já pegaram isso já como como jargão. Para qualquer derrota nossa é porque a gente vendeu o jogo para o Bahia. Então, enfim, é uma coisa muito, muito, já sem nexo isso. Não tem uma situação, não tem nada a ver com a outra”.
Ele se lembra do bom começo e da trajetória do ECPP até a queda para a segunda divisão. “Eu sempre escutei na cidade que o futebol daqui era antes e depois de Ederlane. Não que seja eu, foi o momento do ECPP, que muitas mãos carregam esse projeto comigo. Então, sempre o futebol de Conquista teve o antes e o depois do surgimento do clube. Hoje virou isso”.
E o que vai acontecer depois do dia 5 de julho, quando termina a competição? “Vamos tentar mudar para o ano que vem, porque não precisa nem estar igual não, se tiver parecido 10% do que foi este ano, eu não participo. Já vai começar pelo Sub 15 ou Sub 17 agora, que talvez eu não participe. Talvez não, se eu não tiver uma situação que está sendo desenhada, eu não vou participar. Aí pronto, vai ficar todo mundo quieto”.
Ederlane vê um cenário sombrio para o esporte profissional conquistense. “E se o Conquista não participar? O Azul e Branco ficou de fora do Sub 20, ontem, também. O Serrano tinha ficado na fase passada. Então, os três times de Conquista ficaram de fora. O profissional está de fora. Então será que o problema está em mim? Será que realmente sou eu? Por que o Serrano não disputa o profissional? Por que não classificou no Sub 20? O Conquista, que tem o amparo aí da Unimed, de Belitane, do Grupo Esquadra também não passou, ficou na mesma fase que o meu Sub 20, que estava viajando na hora do jogo”.
Neste ponto, ele dá uma sugestão inédita: “O ideal aqui, sabe o que era? Era juntar as forças, era fazer um clube só. Aí sim. Por que eu vou fazer time como, Giorlando, pelo amor de Deus? Eu estava vendendo camisa, cara, para sobreviver. É mole? Então é isso que as pessoas não entendem. Precisa de recurso financeiro pra tudo. Você não faz nada sem dinheiro. e no futebol, então. Você pensou em fazer um time aqui, você já está gastando”.
Ederlane explica que não é só chegar e assumir. Há um estatuto e regras que incluem prazos de associação. “Primeiro, a pessoa tem que ser aceita pela diretoria, tem um prazo a ser cumprido para o modelo associativo. Só pode ser presidente do clube quem já faz parte da diretoria do clube, ou quem já tem 12 meses, no mínimo, como sócio. Quando eu digo sócio, não é sócio que tem que pagar, não, porque lá nenhum diretor paga nada. É sócio mesmo, benemérito, fundador, enfim.”
E se não der para juntar todo mundo em um projeto só, o fundador do ECPP diz que aceita abrir o clube para outras pessoas ou empresas: “Como a gente não está tendo mais fôlego para poder disputar de igual para igual com outras equipes, ou pelo menos tentar disputar, é melhor parar e esperar um momento que isso aconteça, a reestruturação financeira, ou que venham outras pessoas”.
Ele diz que o clube está aberto a qualquer pessoa que queira assumir a presidência da entidade. “A gente convoca uma assembleia, faz uma reunião, o clube está aberto a qualquer um, a qualquer pessoa que tenha essas fórmulas prontas, essas receitas prontas, ou talvez até alguém que possa investir, mas não quer investir porque eu esteja no clube. Sinta-se à vontade, as portas estão abertas. Porque ficar só falando é muito fácil”, pontua.
O ideal, porém, concorda o dirigente, seria a entrada de uma empresa, O ECPP tornar-se Sociedade Anônima do Futebol. “Num modelo de SAF, qualquer empresa, a Coca-Cola, a Hyundai, a Cambuí, a, enfim, qualquer empresa que chegar lá, a gente pode negociar até 90% do clube e eu ficaria com o secundário. Você sabe quem é o presidente do Bahia hoje? Da parte do futebol é Emerson Ferretti, que foi goleiro e é o atual presidente da Associação do Esporte Clube Bahia, mas quem manda é o grupo City. Então ele tem lá 10% contra 90%. Com o maior prazer, pelo bem da instituição e pelo bem da instituição, eu faria sim.”
O estilo de Ederlane de dar entrevista é enviar vários áudios, em que fala tudo o que sente em relação ao Esporte Clube Primeiro Passo Vitória da Conquista e o momento atual do futebol profissional conquistense. Desta vez foram 76 minutos. Ele pediu que tudo fosse colocado, sem cortes ou edições.
Mas em um blog em que o material vai em forma de texto, não cabe nada tão longo. Uma hora e 16 minutos, não há jeito. Por isso, a conversa vai ser dividida. A primeira parte aqui e a segunda em outra matéria, apenas com os destaques da fala dele. Quem realmente se interessa pelo futebol conquistense não pode deixar de ler.
AS DUAS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTA MATÉRIA MOSTRAM EDERLANE EM UM MOMENTOS TÍPICOS QUANDO O ECPP JOGA NO LOMANTÃO: ASSISTE ISOLADO E CONCENTRADO, FORA DO CAMPO. AS DUAS FOTOS SÃO DE 2018 (ARQUIVO DO BLOG DE GIORLANDO LIMA)


