Coluna de Ronnie Peterson | Identidade em crise: por que a Seleção Brasileira deixou de ser o Brasil?



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.
O futebol brasileiro vive uma crise de identidade que vai muito além das quatro linhas. O esporte que outrora moldou a cultura nacional e exportou ao mundo a mística do “futebol-arte” passa por uma metamorfose comportamental e estrutural. À medida que o epicentro financeiro e tático do futebol se consolidou na Europa, a essência do jogador brasileiro e a própria atmosfera que cerca a Seleção mudaram drasticamente.
A transformação começa na base. O dinheiro europeu enriqueceu os clubes do Velho Continente, transformando a UEFA Champions League no campeonato referência e as ligas da Espanha e da Inglaterra no novo El Dorado do futebol mundial. Diante desse cenário econômico avassalador, as categorias de base no Brasil mudaram de foco. A nossa histórica “fábrica” de craques deixou de ter o futebol brasileiro como referência estética e conceitual.
Hoje, o objetivo é moldar atletas perfeitamente adaptáveis ao rigor europeu. Soma-se a isso a mudança geográfica e social nas cidades: os campos de terra e os “vazios” urbanos nas periferias escassearam, sufocando o futebol de rua. A espontaneidade e o improviso do drible foram substituídos por treinos táticos e posicionais desde a mais tenra infância. Onde antes nascia o drible irreverente, hoje cultiva-se o preenchimento de espaços e a tomada de decisão pragmática.
Essa transição para o modelo europeu também ecoa no comportamento dos jogadores na Seleção Brasileira. Há uma nítida mudança na dinâmica de grupo e na convivência. Em uma entrevista marcante, Rogério Ceni, goleiro do pentacampeonato em 2002, revelou que sua música favorita era o rock, mas, como a maioria do elenco preferia o pagode, ele participava ativamente da cantoria festiva na concentração e no ônibus. Havia um pacto de convivência, uma comunhão de vestiário.
Hoje, a cena que se repete nos desembarques e bastidores é outra: cada jogador chega isolado em seu próprio mundo, ostentando grandes fones de ouvido individuais. A interação de outrora deu lugar a um individualismo hiperconectado com as redes sociais, mas desconectado do companheiro ao lado. A perda desse espírito de corpo reflete em campo, onde a liderança parece pulverizada e o senso de união, fragilizado.
Para o torcedor, a Copa do Mundo ainda resiste como um dos poucos momentos sagrados em que famílias, amigos e vizinhos se unem. Diante da tela, esquecem-se temporariamente as fraturas políticas, religiosas e as desavenças do cotidiano para empurrar o país. No entanto, a cada ciclo de quatro anos, sente-se uma erosão desse sentimento. O distanciamento dos jogadores — que saem do Brasil cada vez mais jovens — dificulta a criação de ídolos com forte identificação popular. A cada eliminação e a cada Copa perdida, o ritual se repete: busca-se um culpado imediato, alguém promete uma reforma profunda na gestão, mas poucos encaram o diagnóstico real.
Deixamos de ser o Brasil em nossa essência futebolística. Abandonamos a espontaneidade e o improviso para adotar um futebol pragmático e posicional à europeia. Para coroar esse processo de descaracterização, a própria liderança técnica reflete essa busca por validação externa. A presença de um técnico italiano de ponta no comando, que, apesar do currículo inquestionável e repleto de títulos, nunca foi conhecido pelo “jogar bonito”, simboliza o veredicto final: o Brasil abriu mão da própria identidade para tentar vencer como os europeus vencem. Resta saber se, ao mimetizar o Velho Mundo, não perderemos de vez o que nos tornava únicos.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE: ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA COM AJUDA DO CHATGPT
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