Dizer que mulher vota mal é misoginia e ataque à democracia, afirma Márcia Viviane, em artigo sobre fala do youtuber bolsonarista Paulo Figueiredo


Vereadora no terceiro mandato, Márcia Viviane é enfermeira e advogada, com mestrado em Gestão da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Atualmente, é presidente municipal do PT. Na Câmara de Vereadores é líder da oposição, corregedora e integrante da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (CDDM).
O artigo abaixo foi recebido pelo BLOG como resposta ao questionamento “Estou fazendo uma matéria e gostaria de uma opinião de V.Exas. sobre a frase ‘mulher vota mal’. Como avaliam esse tipo de interpretação do voto feminino?”, enviado a todas as cinco vereadoras de Vitória da Conquista. A fala foi proferida pelo youtuber bolsonarista Paulo Figueiredo, filho do ditador João Figueiredo (que governou o Brasil 15 de março de 1979 a 15 de março de 1985). Somente Márcia Viviane respondeu.
A afirmação de que “mulher vota mal” não pode ser tratada como uma simples opinião ou uma provocação. Ela recupera um discurso historicamente marcado pelo machismo e pela misoginia, que procura colocar em dúvida a capacidade das mulheres de participar da vida política em condições de igualdade.
Esse tipo de interpretação não analisa o comportamento eleitoral. Ao contrário, transforma milhões de mulheres em um estereótipo, como se fosse possível atribuir maior ou menor capacidade política a alguém apenas em razão do seu gênero. Mulheres não votam de forma homogênea. Assim como os homens, possuem diferentes convicções, valores, projetos de sociedade e fazem escolhas políticas diversas.
Essa lógica não é nova. Durante muito tempo, foi utilizada para justificar a exclusão das mulheres da vida pública, sustentando que não teriam preparo para votar, ocupar cargos ou participar das decisões políticas. O discurso mudou de forma, mas preserva a mesma essência: deslegitimar a autonomia política das mulheres.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, as mulheres representam 52,47% do eleitorado brasileiro. São maioria nas urnas e exercem papel decisivo na definição dos resultados das eleições. Desqualificar o voto feminino significa colocar sob suspeita a legitimidade política da maior parcela do eleitorado brasileiro.
A democracia pressupõe igualdade política. É legítimo discordar de candidatos, partidos, governos e projetos de sociedade. O que não é compatível com a democracia é atribuir incapacidade política a milhões de cidadãs exclusivamente por serem mulheres. Esse tipo de discurso não atinge apenas as mulheres. Ele enfraquece um princípio fundamental da democracia: o reconhecimento de que toda cidadã e todo cidadão possuem o mesmo direito de participar, em igualdade de condições, das decisões sobre os rumos do país.
Acredito que mulheres que ocupam espaços públicos também ajudam a construir referências para outras mulheres. Durante muito tempo, fomos ensinadas que a política era um lugar masculino e que nossa participação deveria ser secundária. Cada vez que uma mulher ocupa um mandato, dirige um partido, lidera uma comunidade ou participa das decisões públicas, ela ajuda a romper essa ideia.
Por isso, é importante que discursos marcados pelo machismo e pela misoginia não sejam naturalizados. Não porque precisem de uma resposta individual, mas porque carregam uma mensagem coletiva: a de que mulheres seriam menos capazes de decidir, liderar ou influenciar os rumos da sociedade. Esse tipo de narrativa precisa ser confrontado, especialmente por quem acredita na democracia e na igualdade política.
Espero que esse debate também faça mais mulheres perceberem que política não é um espaço reservado a poucas pessoas. Política é o lugar onde se decidem os rumos da educação, da saúde, da economia, da segurança, dos direitos e da vida em sociedade. E, se as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro, é natural e legítimo que também ocupem cada vez mais os espaços onde essas decisões são tomadas.
Quanto mais mulheres compreenderem que sua participação política é um direito e não uma concessão, mais forte será a democracia brasileira.
TEXTO REVISADO PELA AUTORA
FOTO DESTAQUE: ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA COM AJUDA DO CHATGPT
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