Tiro, porrada e bomba: reta final das campanhas e a beligerância eleitoral – Coluna de Ronnie Peterson


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras
Olho para o calendário e sinto aquela familiar e incômoda sensação de vertigem. Estamos nos últimos dias de campanha e a política transformou-se, mais uma vez, em um cenário dominado pelo famoso “tiro, porrada e bomba”. A atmosfera é pesada. Em vez de assistirmos a um debate maduro sobre as diretrizes que nortearão o país nos próximos anos, testemunhamos o recrudescimento desmedido da polarização política. É a consolidação de uma dinâmica em que convencer o eleitor pelo argumento virou artigo de luxo, o objetivo agora é aniquilar o adversário.
Basta abrir as redes sociais por alguns minutos para perceber como a maquinaria da desinformação opera em sua potência máxima nesta reta final. Fatos descontextualizados e abertos a interpretações distorcidas dividem espaço com factoides descaradamente fabricados, todos desenhados com precisão cirúrgica para levar a população a falsos discernimentos. O feed virou um campo de batalha psíquico no qual a verdade é a primeira vítima. O eleitor, bombardeado por estímulos de raiva e medo, vê sua capacidade crítica ser sistematicamente corroída.
O que me causa profunda inquietação, contudo, é o uso instrumental da fé nesse processo. O advento e a consolidação de movimentos religiosos, sobretudo de matriz neopentecostal, no centro da cena política trouxeram para o debate público pautas que jamais deveriam ser objeto de plataformas eleitorais. Citações bíblicas e símbolos de fé, elementos que pertencem ao foro íntimo e sagrado das pessoas, são apropriados como merchandising de campanha. Transforma-se a fé em palanque e a crença em cabo eleitoral, manobra que não apenas empobrece a discussão democrática, mas também divide a sociedade entre “moralmente eleitos” e “inimigos a serem expurgados”.
Enquanto versículos são arremessados de lado a lado e escândalos artificiais ganham as capas dos jornais, o essencial é empurrado para debaixo do tapete. Têm passado longe das disputas os verdadeiros projetos de país. Onde estão as propostas estruturadas para a saúde, a segurança pública, a transição ecológica ou a educação básica? O plano para a próxima gestão virou uma abstração, substituído por slogans ocos e ataques pessoais. Resta saber se, nestes dias derradeiros, haverá fôlego para movimentos dentro da conjuntura capazes de provocar mudanças radicais de rumo entre os candidatos que concentram os polos dessa disputa nacional.
Quando volto meus olhos para o plano estadual, aqui na Bahia, percebo que o desenho da polarização se repete, porém moldado por tons sensivelmente diversos. A disputa entre o governador Jerônimo Rodrigues e o ex-prefeito ACM Neto monopolizou as atenções e inviabilizou o surgimento de terceiras vias competitivas. Olhando para o comportamento consolidado nas pesquisas mais recentes, é possível afirmar com relativa segurança que o vencedor sairá diretamente dessa Batalha dos Dois, sacramentando o novo governador já em primeiro turno.
Entretanto, a campanha baiana em si segue estranhamente morna se comparada à fervura do cenário nacional. Há uma razão tática muito clara para esse freio de mão puxado: ACM Neto caminha sobre ovos. O candidato da oposição tem pouquíssima margem para fazer críticas ofensivas ou estridentes ao petismo, justamente porque sabe que uma fatia expressiva do seu próprio eleitorado vota em Lula para a Presidência. O “voto casado” da pragmática política baiana obriga o opositor a um equilíbrio delicado, evitando a virulência que marca o debate em Brasília para não afugentar quem deseja o PT no Planalto, mas prefere a mudança no Estado.
Assim, nos encontramos nesta encruzilhada. Entre o ruído ensurdecedor das redes no âmbito nacional e a cautela calculada das disputas locais, o eleitor é chamado às urnas. Torço para que, no silêncio da cabine de votação, a razão consiga romper o barulho dos factoides e das manipulações ideológicas, permitindo que a escolha do voto seja, antes de tudo, um ato de consciência e responsabilidade com o futuro.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT
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