O radialista atacado, que precisou de defesa; o político que prometeu não processar, e o prefeito que desmente os dois
Em uma noite qualquer do ano de 1985, a Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista estava lotada. Era uma sessão especial, inusitada. Embora não houvesse tanto lugares, todas as cadeiras estavam ocupadas e havia gente em pé. O plenário ficava no prédio antigo, onde hoje está instalado o Memorial da Câmara, com entrada pela Rua Zeferino Correia. Entre as pessoas sentadas na fila da frente estava eu, chegado havia um ano a Vitória da Conquista.
Naquele tempo eram 13 os vereadores*, organizados, mais pela afinidade pessoal do que pelas relações políticas, em duas bancadas laterais, mais ou menos como é hoje no novo plenário, tendo a mesa diretora centralizada, um nível mais alto. Herzem estava na mesa principal, entre quatro vereadores.
A pauta da sessão daquela noite não estava nos padrões, sequer se encaixava no regimento. Não estaria em debate qualquer questão relativa à administração do município ou às atividades dos vereadores. Eles foram ao antigo Sobrado de Maneca Santos – adquirido pela Prefeitura, no primeiro governo de Pedral (1963), para ser a sede do legislativo municipal – com o objetivo de discutir as razões pelas quais o radialista Herzem Gusmão houvera sido demitido da Rádio Clube de Conquista, AM, prefixo 1060, e do seu emprego no setor de poupança do Banco Econômico (a Casaforte, dos três sacis, para quem é da época). Herzem saiu da Clube naquele 1985 e do banco no ano anterior.
A sessão foi aprovada atendendo requerimento dos vereadores de oposição ao prefeito José Fernandes Pedral Sampaio, a quem se atribuía perseguição a Herzem, porque este era um insistente crítico do político.
Foi uma reunião tumultuada, que chegou a ter ameaças de violência. Herzem e seus aliados vereadores de oposição não pouparam adjetivos para definir a “tirania” de Pedral, o autoritarismo do prefeito que se dizia democrático, mas que não teve qualquer melindre para exigir dos empregadores de Herzem que colocassem na rua um profissional, pai de família só porque o questionava fortemente.
Herzem repetiu, por mais de uma hora, todas as denúncias, acusações e críticas que fazia a José Pedral e a seu governo no rádio. Chegou a retroceder ao governo anterior para narrar o que, na opinião dele, tinham sido práticas corruptas. Sua contundente e ostensiva defesa era um ataque sem pausa a Pedral e aliados.
Chegamos a 2017. Herzem é prefeito, eleito prometendo fazer um governo muito melhor que o do PT, que ficou 20 anos no poder municipal. Elegeu-se garantindo transparência e prometendo não perseguir ninguém. A mim disse, várias vezes, que nenhum colega – ele é jornalista e radialista -, nenhuma pessoa da imprensa seria processada por ele em razão de crítica política ou da gestão. Falava das ações movidas contra ele pelo ex-prefeito Guilherme Menezes, considerando-as exageradas, fora de propósito e meras tentativas de intimidar a imprensa, coisa que ele não faria.
Mas, no sábado (4), no programa Resenha Geral, veiculado na Brasil FM, no exercício daquela que ele considera a sua função primordial, o prefeito mudou o discurso e subiu o tom. Não apenas ameaçou processar jornalistas e meios de comunicação, como, diante de denúncia de ter deixado de tomar a atitude mais firme diante de episódio confuso (uma marca da sua administração neste início) e com viés de escândalo, envolvendo a secretária de Finanças, o ex-secretário de Administração, um vigia e ele mesmo, o prefeito chamou os profissionais de “pistoleiros morais”. Uma expressão, em si, bastante ofensiva.
Justo Herzem Gusmão, o político que, na condição de radialista, usando por quase quatro décadas os microfones da Clube, fez seu nome exatamente com críticas contundentes a Pedral e a Guilherme Menezes (os elogios de dez anos viraram ataques duros) e que, com sua voz, intimidade com verbos e adjetivos e reconhecido talento, colocou acima e abaixo nomes e famas, incluindo de ex-inimigos atuais que o perdoaram e hoje estão a seu lado.
Mas, digamos que o radialista não mudou. O que choca é, ao microfone, como se apenas radialista fosse, o prefeito, no papel para o qual foi eleito, desvestir-se do político que se afirmou democrático, moderno, do diálogo, da transparência, que não iria perseguir ninguém nem processar jornalistas, justamente por considerar essas atitudes pobres e autoritárias. Ou desnecessárias. É decepcionante testemunhar o prefeito, ao falar na rádio, exonerar sem dó o Herzem da pregação de paz e harmonia, e anunciar que vai processar jornalistas, blogueiros, radialistas, aos quais chama, aqui e ali, de colegas.
E ainda estão colocando na conta de Herzem o afastamento de radialistas ou o fim de programas de rádio que o criticavam. O que motivou aquela sessão da Câmara de Vereadores há quase 32 anos, se repete agora, com a vítima no papel de algoz? Rezo que não.
Enviei mensagens ao prefeito sugerindo que ele desistisse da beligerância, da ameaça, pelo bem da relação governo e imprensa. O fiz por atrevimento. Ele não me pediu. Por isso mesmo não me agradeceu. Insistiu que não houve invasão (ok, mude-se o termo, mas o episódio em si ocorreu, sim). Confirmou que o episódio ocorreu, ainda que não na dimensão que tomou, ao me dizer que, sim, ele esteve lá, com Marivone (a secretária de Finanças).
Segundo Herzem, “ocorreu apenas acesso ao setor de processamento de dados – que funciona no mesmo prédio da secretaria de Finanças”. Na segunda parte da resposta, o prefeito disse: “Não irei censurar colegas de imprensa que exerçam a crítica, mesmo que dura e em tom sarcástico, o que não aceito são as ofensas e mentiras irresponsáveis”.
Para que eu soubesse exatamente como ele fará, doravante, na sua relação com “os colegas”, escreveu: “Faça o que você acha que deve fazer. Vou acionar os autores de difamações e calúnias”. E encerrou, enfático, com três exclamações: “Qualquer um!!!”
Eu sou um crítico contumaz de todos os governos, em qualquer nível. Governantes recebem delegação minha, nossa. E nós pagamos os seus salários. Entretanto, a despeito de editoriais em que cobro mais ação efetiva da atual administração municipal, sem o chororô da lamentação contra o governo que saiu para ele entrar, sempre destaquei que acreditava nas boas intenções de Herzem e confiava quando ele afirmava – candidato e depois prefeito – estar buscando o caminho do acerto, com estudo e fé.
Já não sei se posso continuar crendo e dizendo a mesma coisa. Vejo o apetite para o governo, mas começo a duvidar da aptidão para a gestão política. O tratar com todos, incluindo o que criticam.
Vou ficar do lado dos “qualquer um”. Sou imprensa, colega de jornalistas, radialistas, blogueiros. Os colegas do prefeito são os que se reúnem na UPB.
* Os vereadores que estavam na sessão de 1985, de desagravo ao radialista Herzem Gusmão, tido como perseguido pelo prefeito da época, José Pedral Sampaio:
Do PMDB: José William de Oliveira Nunes, Virgílio Mendes (Vivi), Everardo Públio de Castro, José Flordoaldo Góes, Pedro Alexandre Jardim (Pedro Massinha), Ariosvaldo Silva Prado (Zinho do Prado), Osvaldo Pedro, Ilza Viana Matos, Ubirajara Mota e Robério Sampaio. Do PDS: Lanteney Nunes Braga, Manoel Ramaldes Rocha, Gesner de Oliveira Chagas, Eugênio Flores e Antônio Aragão.
FOTO DESTAQUE: FACHADA DA CÂMARA DE VEREADORES ANTIGA


