História | Com Irma e Sheila Lemos, Conquista completa 45 dias seguidos com mulheres à frente do governo

História | Com Irma e Sheila Lemos, Conquista completa 45 dias seguidos com mulheres à frente do governo

O motivo pelo qual isso acontece não comporta comemoração, mas mesmo havendo quem prefira negar, é histórico: oficialmente, Vitória da Conquista está sendo governada por mulher há 45 dias. E, para dar ainda mais lustre histórico ao fato, mãe e filha se sucederam na função.

Irma Lemos (PTB), que já há havia assumido o cargo de prefeita em exercício entre outubro e novembro de 2019, por licença do prefeito Herzem Gusmão (MDB), num total de 23 dias, voltou a assumir, com efeito temporário, no dia 18 de dezembro, quando Herzem precisou se internar no Hospital Samur, por causa da Covid-19, diagnosticada no dia 7 de dezembro.

A vice-prefeita acabou ficando na função até o fim do mandato, em 31 de dezembro, quando o gestor já estava no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Considerando os dois períodos em que substituiu Herzem, Irma Lemos foi prefeita por 37 dias.

E coube a ela fazer a transmissão para a vice-prefeita Sheila Lemos (DEM), já que Herzem não pôde tomar posse porque estava na UTI.

Apesar do comedimento na comemoração, diante da circunstância pessoal do prefeito, mãe e filha ficaram muito emocionadas com o evento inédito de que foram protagonistas.

E neste domingo (31), somando os dias em que Sheila substitui Herzem, enquanto ele se trata da Covid em São Paulo, com os 14 que a mãe dela assumiu em dezembro, são 45 dias seguidos que o município tem uma mulher à frente da Prefeitura. E isso é histórico, quer se enquadre ou não nos discursos de quem se apropriou do lugar de fala da valorização feminina, da igualdade de direitos e de espaços na política para a mulher e outros gêneros que não somente o masculino. Na campanha passada, era a tônica dos discursos de três das candidaturas.

Uma delas, a da Rede, apresentava a credibilidade essencial de ter uma mulher concorrendo para prefeita e não apenas coadjuvando para fazer valer o discurso. Mesmo assim, independente de as duas outras mulheres presentes em chapas majoritárias aparecerem como vices, a mensagem era a da ampliação da participação feminina na política, mais mulheres nos espaços de poder, como defendiam, por exemplo, PT e PCdoB, que se ligaram mais a partir da presença da jornalista Luciana Oliveira na chapa com Zé Raimundo.

Vitória da Conquista teve três mulheres eleitas vice-prefeitas. Margarida Oliveira – que também foi candidata a prefeita, em 1982 – foi eleita na chapa de José Pedral Sampaio, em 1992; Irma Lemos, que foi vereadora três vezes, foi a primeira vice de Herzem; e Sheila Lemos, eleita no ano passado, tendo assumido o cargo de prefeita no dia 1º de janeiro.

Considerando os 23 dias que Irma Lemos tirou as férias de Herzem, em 2019, são 68 dias com mulher no cargo de prefeita de Vitória da Conquista, ainda que de forma provisória. Há quem possa dizer que isso não significa nada. Mesmo considerando que nos outros 65.677 dias de vida política de Vitória da Conquista, desde 9 de novembro de 1840, quando foi instalado o município, todos os dirigentes foram homens: 41 deles.

Apenas Irma e Sheila quebraram esse monopólio masculino, já que Margarida Oliveira abriu mão, ao renunciar de ser vice-prefeita e continuar deputada estadual (a única eleita em Vitória da Conquista, cujo mandato se encerrou em 1995, há mais de 25 anos).

MAIORIA NA POPULAÇÃO E MINORIA NO PODER

Em todo o Brasil, apesar de serem 52,5% do eleitorado brasileiro, as mulheres praticamente não ocupam espaços na política e, principalmente, no poder. Os números são vergonhosamente ínfimos, refletindo a desigualdade de gênero no país. Para cada dez candidaturas a prefeito apenas uma é de mulher. Já para o cargo de vice-prefeita elas foram 21,27% na eleição do ano passado. Para as câmaras de vereadores o percentual foi de 34%. Em 2020, o TSE registrou a eleição de apenas 649 prefeitas e 885 para o cargo de vice, 12,05% do total de chefes do Executivo municipal. Em pelo menos 1.350 municípios não há mulheres nas câmaras de vereadores.

Em Vitória da Conquista, os números para a Câmara de Vereadores demonstraram que apesar de a disputa para prefeito de 2020 ter sinalizado no início uma mudança na política, com uma candidata a prefeita, Maris Stella Schiavo (Rede) e duas a vice, Sheila e Luciana, a mudança não se confirmou no pensamento do eleitor, a população mostrou que ainda não está consciente da importância do voto em representantes mulheres. Nem os partidos e a superestrutura da política.

Entre 431 candidatos a uma vaga no legislativo local, em 2020, spenas 143 eram mulheres, ou 33,17% do total, um pouco acima do percentual de 30% estipulado pela lei eleitoral. Das candidatas, só cinco ficaram entre os 50 mais votados e entre os 100 primeiros estavam somente 12 mulheres. Das três vereadoras eleitas em 2016, duas foram (re)eleitas e Nildma Ribeiro ficou pelo caminho

Em relação à representação na Câmara de Vereadores, aliás, Conquista não dá um bom exemplo, historicamente. Desde 1936, quando foi eleita a primeira mulher, Geny Fernandes de Oliveira Rosa, Dona Zaza, apenas dez mulheres assumiram mandatos de vereadora, sendo oito eleitas e duas como suplentes. Comparativamente, nas dez últimas eleições (1982 a 2020) foram eleitos 98 homens.

Desde a eleição de 1992, a representação feminina no plenário da Câmara Municipal de Vitória da Conquista tem sido garantida pela presença de uma vereadora: Maria Lúcia Rocha, eleita oito vezes seguidas. Ela esteve sozinha de 1993 a 1996 e 2009 a 2012. Em 2013, ela ganhou a companhia de Irma Lemos; depois, em 2016, Irma foi eleita vice-prefeita e a bancada feminina passou a ter Márcia Viviane Sampaio e Nildma Ribeiro. Este ano, só tem Lúcia, a decana do legislativo municipal, e Viviane.

E na Prefeitura, Sheila Lemos vem tocando a administração há 31 dias, de um total de 45 dias seguidos em que o governo municipal é conduzido por mulher. Mesmo que seja pouco, bem pouco, isso é histórico, ainda que muita gente prefira não concordar.

Vereadoras em Vitória da Conquista

  1. Dona Zaza
  2. Ilza Matos
  3. Diná Carvalho
  4. Carmem Lúcia Dantas (suplente)
  5. Lúcia Rocha
  6. Helita Figueira da Silva
  7. Lygia Matos
  8. Irma Lemos
  9. Márcia Viviane Sampaio
  10. Nildma Ribeiro

* A ex-primeira-dama Josete Menezes, esposa de Guilherme Menezes, foi eleita em 2004, mas renunciou sem tomar posse.

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