Muito mais voo que mergulho | Em memória de Iris Neri do Prado, por Esechias Araújo Lima
Foi sepultado neste domingo (11), no Cemitério da Saudade, em Vitória da Conquista, o corpo de Iris Neri do Prado, falecido no sábado (10), aos 74 anos. Mais conhecido pela sua profissão de contador e pela sua devoção religiosa, como paroquiano atuante no Seminário de Fátima, Iris, no entanto, foi um dos protagonistas do cenário cultural de Vitória da Conquista nos anos 1970 e início dos anos 1980, tendo atuado com música, literatura e teatro, conforme registrado na inauguração do Teatro Carlos Jehovah, quando ele dirigiu a peça O Rico Avarento, de Ariano Suassuna, com o grupo Araponga.
Não há maiores registros com o nome de Iris Nery na internet, a não ser aqueles relacionados à sua empresa, a Contabilidade Prado. Ele também foi dirigente sindical, no Sindicato dos Contadores e Técnicos em Contabilidade de Vitória da Conquista (Sincotec).
O BLOG DE GIORLANDO LIMA solicitou do secretário municipal de Educação, Edgard Larry de Andrade, poeta e escritor, contemporâneo de Iris nas atividades culturais, um artigo que pudesse falar mais sobre ele. Larry conversou com o também escritor Esechias Araújo Lima, autor de ‘O Auto da Gamela’ (em coautoria com Carlos Jehovah), outro da convivência cultural com Iris Neri do Prado, que escreveu o texto abaixo, enviado para nós por Larry.
MUITO MAIS VOO QUE MERGULHO
É fato que Vitória da Conquista perde um expressivo nome da arte com a partida precoce de Íris Neri do Prado. Consternados ficamos todos nós que o conhecíamos, que o admirávamos e que o respeitávamos como um incentivador da cultura e um homem que transitava, com desenvoltura invejável, por vários segmentos artísticos com muita propriedade, mas revestido de uma simplicidade inimaginável.
Íris, ou Ziu, como o tratávamos nós, seus amigos, abrilhantou sempre todas as atividades religiosas no Seminário Nossa Senhora de Fátima, imbuindo-se de uma fé traduzida nos acompanhamentos, ao piano, dos hinos que ali eram entoados em louvor à transcendência do Criador e dos Santos.
Participou, de forma efetiva e constante, dos eventos da Casa da Cultura Carlos Jehovah, sendo um grande parceiro artístico daquele inesquecível poeta. Em todos os recitais de final de ano, lá estava ele embevecendo os presentes com seu dom para a música. Nunca mediu esforços para transformar todos os eventos da Casa da Cultura em algo fascinante e majestoso. Tanto se dedicou, que chegou à vice-presidência cujo cargo honrou com afinco.
Convidado por Edgard Larry Andrade Soares, quando este exercia a presidência da Academia Conquistense de Letras, atuava nos saraus líteromusicais, vezes ao piano, vezes ao acordeom, mas sempre enriquecendo todas as solenidades. Harmonizava as declamações de Edgard Larry com um acompanhamento suave, de forma a não comprometer o entendimento dos versos.
Descoberto pelo dom de garimpar talentos, próprio de Carlos Jehovah, juntou-se a ele, de forma a contribuir incessantemente para fomentar o teatro como uma manifestação artística de conscientização política e promoção da cidadania.
Com Poliana Policarpo de Magalhães Aguiar, esta na presidência e ele na vice, contribuiu eficazmente para que a instituição tivesse o respeito e o reconhecimento que hoje tem como entidade promotora da cultura, fazendo jus à aprovação nas esferas municipal, estadual e federal.
Num território totalmente oposto, também estava Íris, lidando com números e sua frieza misteriosa, ao exercer, efetiva e eficazmente, a sua profissão de contabilista com escritório estabelecido nesta cidade.
Embora sua presença física já não se faça efetiva entre nós, não se pode afirmar que Íris tenha morrido, posto que, no dizer de Marguerite Yourcenar, “só se morre quando se está só”, e é fato que Íris estará sempre acompanhado de todos aqueles que veem, na arte, um caminho para a libertação.
Sendo assim, Íris, ao partir, fez muito mais um voo que um mergulho, pois o voo eterniza. Seu nome se fará presente nos movimentos culturais, e havemos de dizê-lo “…como se diz uma semente, um pedaço de sol, uma ilha de água, luz e coral”, afirma Roseana Murray.
Enfim, repetindo Padre Fábio de Melo, “a saudade eterniza a presença de quem se foi”.
Esechias Araújo Lima, fevereiro de 2024


