Série Ruas e Praças de Vitória da Conquista: a história pelo caminho | Parte 1
Esta reportagem foi publicada na última edição da revista Conexão, que eu editei em março de 2018. O trabalho foi realizado com as jornalistas Giovana Maria e Luana Figueredo, que ainda eram estudantes na Uesb. Procuramos contar um pouco da história e da motivação para o nome de algumas das principais ruas e avenidas de Vitória da Conquista.
Para o advogado Ruy Hermann de Medeiros, professor universitário aposentado e doutor e mestre em Memória: Linguagem e Sociedade, ouvido por nós, “ser nome de rua é uma das maiores homenagens que um município pode conceder a uma pessoa”. Segundo Ruy Medeiros, o ato envolve, ainda, a preservação da memória, que interessa não a que fez a homenagem, mas também aos descendentes dos homenageados. “Isso tem um aspecto simbólico e político muito grande”, pontua ele.

Algumas ruas e praças perderam os seus nomes tradicionais, o que, para Ruy Medeiros ocasiona uma perda histórica. “Tinha a Rua das Flores, hoje Rua Góes Calmon; o Beco da Sabina, uns nomes assim bem típicos, bonitos, né? Esses nomes, na verdade, deveriam ser preservados. Travessa do Comércio, que é a Rua Ramiro Santos. Tem a Francisco Santos, antiga Rua do Espinheiro. Eram nomes bem sugestivos”. Para o historiador, de acordo com o crescimento da cidade cada geração nomina as ruas seguindo as homenagens que deseja fazer, o que não significa que os nomes tradicionais precisem ser alterados. “Com o nome tradicional se conserva mais o vínculo histórico”, diz Ruy Medeiros.
Vitória da Conquista tem cerca de 4.000 avenidas, ruas, travessas, alamedas e praças com nomes de pessoas, lugares ou datas. Em bairros grandes, como Brasil, Ibirapuera e Patagônia, por exemplo, muitas artérias têm nomes de cidades, estados ou países, com significados mais conhecidos, outras receberam nomes de familiares e amigos de políticos, alguns mais, outros menos importantes. Para saber quem são ou o significado dos nomes, seria necessário um trabalho muito demorado, que envolvesse uma grande equipe e os setores de memória da Prefeitura, da Câmara Municipal ou da Uesb, mas não há esse projeto – ou mesmo esses setores funcionando -, por isso, a pesquisa foi limitada.
Veja qual a origem de alguns dos nomes de ruas e avenidas, da cidade. À lista da revista foram acrescentados outros. Estão por ordem alfabética. Grande parte fotos é do ano em que a matéria foi feita originalmente, 2018, e outras de um tempo depois. Vamos mudando aos poucos.
9 de Novembro (Centro): A antiga Praça da Piedade foi inaugurada em 9 de novembro de 1940, durante o governo de Régis Pacheco, para homenagear a data da emancipação política de Vitória da Conquista. Na Praça 9 de Novembro foram realizados desfiles de carnaval, foram abertas as primeiras lojas de ferragem, os primeiros bares, uma unidade da Caixa Econômica Federal e ainda outros negócios importantes para o comércio naquela área. No local, Régis Pacheco construiu um obelisco em homenagem aos fundadores da cidade.
10 de Novembro (Alto Maron): Neste dia, em 1937, Getúlio Vargas instaurou a Terceira República Brasileira, ditadura regida pela Terceira Constituição da República (quarta desde a existência da nação). Antes de se chamar 10 de Novembro, era chamada de Rua dos Tocos. Hoje, oficialmente, a rua – que vai da esquina com a Avenida Rosa Cruz e a Rua João Pessoa, com uma distância de pouco mais de mil metros – não é uma nem outra, mas Rua Sifredo Pedral Sampaio, nome dado pela Câmara de Vereadores nos anos 1990, em homenagem ao engenheiro e pai do ex-prefeito José Pedral Sampaio.
Adriano Bernardes (Centro): Adriano Bernardes Batista, natural de Entre Rios, veio para Conquista em 1929, nomeado delegado de polícia do munícipio. Era um profissional admirado pela população e foi eleito em 1946 deputado constituinte da Bahia, pelo Partido Social Democrático (PSD). Ele também foi professor do Ginásio de Conquista e dizia dever todas suas medalhas à cidade. Seu nome batiza a Travessa Adriano Bernardes.

Alameda Dom Celso José Pinto da Silva (Centro): Foi bispo de Vitória da Conquista, por 20 anos, de 1981 a 2001, quando foi para Teresina e se tornou bispo emérito. Faleceu naquela cidade aos 84 anos, em setembro de 2018. No ano seguinte, o então prefeito Herzen Gusmão construiu a alameda, incorporando a rua em frente à Catedral de Nossa Senhora das Vitórias à Praça Tancredo Neves.

Alameda Ilza Matos (Centro): Também em 2019, foi construída essa alameda, na segunda metade da Travessa Moderato Cardoso, ligando a Rua Góes Calmon à Praça Estevão Santos (no sentido ao Fórum João Mangabeira). Ilza Viana Matos nasceu em Salvador, em 1937 e se mudou para Vitória da Conquista em 1960, aos 23 anos, para trabalhar como dentista perita do INSS e professora do Instituto de Educação Euclides Dantas (Escola Normal). Foi vereadora por três mandatos, de 1973 a 1988, tendo chegado à presidência da Câmara Municipal.
Alameda Lima Guerra (Centro): José Antônio de Lima Guerra, Oficial da Guarda Nacional, foi intendente (o equivalente ao cargo de prefeito atual) eleito, quando governou de janeiro de 1896 a dezembro de 1899, e nomeado, tendo continuado no cargo de janeiro de 1900 a dezembro 1903. Era correligionário e seguidor político do Coronel Pompílio Nunes e o único dos intendentes de oposição ao Coronel Gugé.

Alameda Moderato Cardoso (Centro): Fica entre a Praça Caixeiros Viajantes e a Rua Góes Calmon e já tinha esse nome quando era travessa. Moderato Silveira Cardoso era o pai do ex-deputado Leônidas Cardoso falecido em 10 de fevereiro deste ano.
Alameda Ramiro Santos (Centro): Ramiro Santos Fernandes de Oliveira, filho do Coronel Gugé e Joana Angélica e irmão de Dona Zaza (Jeny Fernandes de Oliveira), nasceu em maio de 1888 e faleceu em abril de 1947, foi coletor de impostos no município. A alameda, que já teve vários nomes, foi o local onde surgiram as primeiras lojas da cidade.
No próximo capítulo: Ascendino Melo, Bartolomeu de Gusmão, Coronel Gugé, Crescêncio Silveira, Corrente, Pedrinhas, Dois de Julho, Dos Andrades, Dos Fonsecas e Ernesto Dantas.






Fica a dica também dos nomes tradicionais e apelidos populares de bairros e localidades, como o bairro de Olavo (hoje Guarani), o Calango Nú (Bela Vista), Péla-Jegue (Nova Cidade), Cachorro Sentado (Urbis V) e outros. Ótimo resgate.
Realmente, é uma ótima ideia para outra série.
Parabéns, pela matéria! Já que nas escolas não se fala da história da cidade.
Que seja contado também sobre alguns personagens folclórico, como: cabeção da alameda, cheiroso , machadinho, carcará, dona Dió, Dunga e outros.