Integração, J. Pedral, Frei Benjamin | Ruas e Praças de Vitória da Conquista: a história pelo caminho: Parte 3
Na continuação da série, apresentamos alguns dados sobre os nomes de 11 ruas e avenidas de Vitória da Conquista. Por que receberam as denominações que têm, quem foram as pessoas homenageadas? A reportagem foi publicada, originalmente na edição de março de 2018 da revista Conexão, com a participação das jornalistas Giovana Maria e Luana Figueredo. Algumas fotos são da época, outras de pouco depois, quase nenhuma é atual. Nesta parte, uso fotos minhas, de Nei Ferraz e do Blog do Anderson, aos quais agradeço. Também reproduzo uma foto do acervo de O Globo que espero não me causar problema.
Boa leitura, serão menos de 10 minutos.
Fernando Spínola: A antiga Estrada dos Campinhos virou Rua Fernando Spínola, em homenagem ao médico e político Fernando Ferreira Spínola, que foi prefeito de Vitória da Conquista entre abril de 1967 e abril de 1971. Como prefeito, Fernando Spínola deu grande atenção à área da saúde e da educação, mas também realizou modificações urbanas importantes, como a construção do mercado da Praça da Bandeira que, durante mais de 20 anos foi o centro de compras mais importante da cidade. Ele também construiu uma fonte luminosa na Avenida Lauro de Freitas. A fonte foi demolida para dar lugar ao terminal de ônibus em 1984.
Francisco Santos: Já teve o nome de Rua do Espinheiro, foi um dos principais centros econômicos da cidade na primeira metade do século passado e ainda é uma das artérias comerciais mais importantes. O nome atual é homenagem ao coronel Francisco José dos Santos, que foi um líder político forte da antiga Conquista, entre os anos 1880 a 1909, quando faleceu. Francisco Santos, nascido em 3 de dezembro de 1848, era filho de Sinhazinha Santos, nome com que passou a ser chamada Ana Angélica de Lima depois do casamento com o português Manoel José dos Santos Silva (Tenente Santos). A família de Francisco Santos é considerada um dos principais ramos familiares da cidade, em termos históricos e, por muito tempo, em descendência. Apesar da forte liderança e influência, o Coronel Chico Santos, como era conhecido, não aceitou ser nomeado ou eleito intendente municipal, cargo equivalente ao de prefeito. Uma curiosidade sobre Francisco Santos: ele faleceu no dia 9 de setembro de 1909, 09/09/09. Mera curiosidade.

Frei Benjamin: Frei Benjamin Lamberto Cappelli nasceu em Villagrande, Itália, no ano de 1922. Da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, ele chegou a Vitória da Conquista em 1956, onde, no ano seguinte, criou a segunda igreja da cidade, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima e Santo Antônio de Lisboa. Ruy Medeiros o descreve da seguinte forma: “Foi um homem que tinha uma liderança grande entre os religiosos e uma capacidade de trabalho magnífica. Era uma pessoa realmente fabulosa”. Frei Benjamin também ajudou a construir o Hospital São Rafael em Salvador e se destacou pelo trabalho social realizado no município de Barra, local onde implantou a chamada Missão Barra, cujo objetivo era levar atendimento médico às comunidades mais pobres. Frei Benjamin faleceu no dia 19 de maio de 2012, aos 90 anos de idade.
Genésio Porto: Apesar de prometido, não conseguimos levantar dados sobre quem foi Genésio Porto.

Góes Calmon: Francisco Marques de Góes Calmon, natural de Salvador, foi ex-governador da Bahia, foi também historiador, banqueiro e advogado. Dá nome a uma das mais movimentadas artérias comerciais da cidade, ainda conhecida por muita gente como Rua da Flores, devido ao cultivo de diversos tipos de flores nos quintais das casas que antes havia ali. Hoje quase todos os imóveis são clínicas, hospitais, escritórios de advocacia ou lojas.

Integração/Presidente Dutra: Pouco gente sabe ou se lembra, Integração, como é chamado o antigo trecho da BR-116 (Rio-Bahia) que atravessa, é um apelido. O nome mesmo é Avenida Presidente Dutra, pois o trecho é federal e a mudança do nome só se daria por lei federal ou após a municipalização, ainda assim ouvindo os eventuais moradores. A ideia do nome era desfazer um sentimento existente de que a via separava geograficamente e socialmente dois lados da cidade. A mudança seria de separação para integração. Pouca gente acha que funcionou.
Como Rio-Bahia aquela parte da rodovia foi inaugurada, com a presença do presidente João Goulart, em 1963. Para tornar em via urbana aquela parte da BR-116 foi (ou deveria ter sido, porque até hoje carretas e outros veículos usam o trecho para atravessar a cidade), foi necessário ter sido construído o anel viário, a partir de emenda ao Orçamento da União articulada pelo então deputado federal Coriolano Sales. O trecho era um dos mais perigosos da extensão da rodovia que, aliás, se chama Santos Dumont. Essa condição foi mitigada com a sua urbanização, mas ainda é muito perigoso, embora menos letal.

Há um registro de um episódio interessante na Presidente Dutra. Há 65 anos, em abril de 1959, dezenas de caminhões ficaram parados na rodovia, em uma fila de 18 quilômetros, impedindo a sequência da viagem de outros motoristas, em uma greve de protesto contra a alta dos preços. A mediação foi feita por um importante morador de Vitória da Conquista que também se tornaria nome de uma avenida: Frei Benjamim Villagrande, que agiu “ao notar o estado de penúria em que se encontravam os retirantes nordestinos, detidos, ao relento, pela greve, procurou auxiliá-los, levando leite em pó para as crianças e alimento para os adultos”, segundo o jornal O Globo do dia 6 de abril de 1959.
João Pessoa: A atual Rua João Pessoa foi um dos caminhos pelos quais as boiadas vindas de Minas Gerais passavam rumo a Feira de Santana. Por esse motivo, se chamava Rua da Boiada. A alteração do nome, assim como no caso da Rua Siqueira Campos, teve relação com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. João Pessoa Cavalcanti Albuquerque nasceu na Paraíba em 1878, era advogado e foi governador do seu estado entre 1928 e 1930, quando integrou a chapa de Getúlio Vargas como candidato a vice-presidente, mas não ganhou a eleição. Em julho do mesmo ano, João Pessoa foi assassinado por João Dantas, seu inimigo. O crime foi atribuído ao governo federal e foi o estopim para a Revolução de 1930. Washington Luís foi deposto e Vargas assumiu o seu lugar. Os políticos de Vitória da Conquista entenderam que a homenagem manteria viva a memória de João Pessoa e apagaram a memória da Rua da Boiada.
Joaquim Hortélio: Nascido em Serrinha, onde cursou os cursos primário e o ginasial, Joaquim Hortélio da Silva Filho mudou-se para Vitória da Conquista com a família, ainda novo. Aqui casou-se com a filha do coronel Zeferino Correia, Argemira. Quando o Banco Econômico abriu sua primeira agência na cidade, por influência do sogro, muito endinheirado, Joaquim Hortélio foi indicado gerente. Em pouco tempo, ele destacou-se na função, tendo sido agraciado pela instituição bancária como um dos melhores do quadro. Mais tarde, Joaquim Hortélio tornou-se assessor do presidente do Econômico, Miguel Calmon. Por sua reconhecida capacidade e pelas relações feitas durante o período no banco, Joaquim Hortélio foi eleito deputado estadual constituinte em 1946 (1947-1951), pelo Partido Social Democrático-PSD. Na Assembleia foi presidente de várias comissões e teve elevado destaque.
Jonas Hortélio – Era irmão de Joaquim Hortélio e foi indicado para ficar em seu lugar no Banco Econômico quando foi eleito deputado. É importante destacar que o gerente de banco no início do século XX, neste caso entre os anos 1930 e 1950, era um cargo de alto valor social e político. Jonas Hortélio foi o responsável pela construção da primeira sede própria local do Banco Econômico, que era uma potência do setor na Bahia e no Nordeste. Cerca de 1.100 metros, da altura da Biblioteca Sá Nunes, na Conquistinha, até a esquina com a Sifredo Pedral Sampaio (antiga 10 de Novembro). A avenida que tem o nome do irmão dele, em tese mais importante, te menos da metade do comprimento, apenas 527 metros.

José Pedral Sampaio/J. Pedral: O primeiro trecho do Corredor Perimetral, obra iniciada em 2015, com 2.200 metros de extensão, recebe o nome do engenheiro José Fernandes Pedral Sampaio, filho de Sifredo Pedral Sampaio e de Maria Fernandes Pedral Sampaio, e neto do coronel José Fernandes de Oliveira (Coronel Gugé). Pedral é considerado por muitos a figura política mais significativa da história da Vitória da Conquista, eleito prefeito três vezes. Na primeira, em 1962 com 37 anos, foi cassado pela ditadura militar em 1964. Preso, cassado e sem direitos políticos, atuou nos bastidores e nas articulações da política conquistense até eleger-se mais uma vez em 1982, para um mandato de seis anos, o mais profícuo de todos, quando a maioria das obras estruturantes da cidade foram feitas ou iniciadas. Voltou a ser reeleito em 1992, em uma composição que incluiu partidários de seu adversário Antônio Carlos Magalhães, que era governador. O governo pedralista de 1993 a 1996 foi considerado um desastre e a porta de entrada para o PT, que elegeu Guilherme Menezes em 1996 e ficou no poder por 20 anos.
Pedral traçou ou abriu avenidas, como a que se tornou a Luís Eduardo Magalhães; construiu um terminal que durou 34 anos, sendo substituído pela atual Estação Herzem Gusmão; fez as feiras do Ceasa, o bairro Brasil e do Alto Maron; transformou o antigo Quartel de Polícia e cadeia na atual Prefeitura; construiu dezenas de escolas, postos de saúde; levou água a bairros; no seu governo a Prefeitura iniciou a implantação da macrodrenagem da cidade; asfaltou ruas na cidade e na zona rural; inaugurou a Escola Técnica Federal, que hoje é o Ifba; abriu estradas no interior; trouxe a estrutura modular em cimento para montar a biblioteca municipal e o Hospital Esaú Matos; criou a exigência de prédios comerciais construídos no centro da cidade terem estacionamento subterrâneo… Mas, quando se fala em Pedral, muita gente só associa ao viaduto de projeto incompleto que ele deixou na Avenida Régis Pacheco, chamado de Bigode de Pedral.
A Avenida José Pedral Sampaio recebeu esse nome por uma homenagem do prefeito Herzem Gusmão e da Câmara de Vereadores, em julho de 2018, quatro anos depois de seu falecimento, em setembro de 2014, quando o prefeito era Guilherme Menezes, do PT, justamente quem decretou a sua morte eleitoral em 1996. Depois daquela eleição, Pedral chegou a ser candidato a deputado estadual obtendo somente 6.300 em Vitória da Conquista.

Juracy Magalhães: Juracy Montenegro Magalhães nasceu em Fortaleza (CE), no dia 4 de agosto de 1905. Foi um dos integrantes do movimento tenentista. Após a Revolução de 30, Magalhães foi nomeado por Getúlio Vargas interventor federal da Bahia, em 1931. Três anos depois, foi eleito governador do estado e, a partir daí, passou a ocupar diversos cargos públicos dentro e fora da Bahia. Juracy Magalhães faleceu no dia 15 de maio de 2001, aos 95 anos, em Salvador.




4 comentários sobre “Integração, J. Pedral, Frei Benjamin | Ruas e Praças de Vitória da Conquista: a história pelo caminho: Parte 3”