Futebol | Ederlane desabafa, se queixa de falta de apoio, reclama de covardia e diz que não vai desistir de time que ele criou

Futebol | Ederlane desabafa, se queixa de falta de apoio, reclama de covardia e diz que não vai desistir de time que ele criou

No dia 21 de janeiro, o Esporte Clube Primeiro Passo de Vitória da Conquista (ECPP) completou 19 anos. Nesse tempo, saiu de uma escolinha de futebol para se tornar uma das principais forças do futebol baiano. Em 2006, venceu o campeonato da 2ª divisão do Campeonato Baiano e subiu para a Série A. Lá ficou por 16 anos seguidos, tendo chegado a vice-campeão baiano em 2015. A sorte começou a mudar em 2022, quando o alviverde, carinhosamente apelidado de Bode, foi rebaixado e voltou à 2ª divisão. Disputou no ano passado e por apenas um gol não conseguiu o acesso de forma invicta, o que seria um feito inédito.

Time do ECPP que venceu a 2ª divisão em 2006 e subiu para a Série A do Baianão

Na trajetória do ECPP, uma pessoa assumiu a sua criação e busca a sua volta ao topo do futebol, Ederlane Amorim. O ex-atleta tem sido alvo de queixas de quem acha que o clube vai mal por causa dele ou que acredita que seu afastamento poderia mudar a situação do clube. Ederlane diz que essa reação é injusta. Mais, afirma que é uma covardia. E ele não está só nesse sentimento, uma parte grande da torcida, que sempre chega perto quando o time precisa, reconhece que o presidente do Bode é dedicado ao clube e se o ECPP Vitória da Conquista existe e chegou aonde chegou tem por trás o esforço e o sacrifício de Ederlane Amorim, sempre com um pires na mão, como ele diz.

Ederlane, em 2013

O BLOG DE GIORLANDO LIMA procurou Ederlane e quis saber o que ele acha das críticas, como o clube pretende reagir à situação ruim em que se encontra e se ele pensa em desistir do papel que desempenha à frente do alviverde de Vitória da Conquista. Veja abaixo o que ele disse.

A leitura daqui em diante durará 10 minutos, você pode ler tudo de uma vez ou aos poucos. Mas, o que segue é fundamental para entender o que se passa com o único time de Vitória da Conquista em atuação no futebol profissional baiano – e o de maior sucesso em todos os tempos.

Falar de futebol é fácil, fazer é que complicado

“O futebol é cíclico. O exemplo que eu te dou é do Atlético de Alagoinhas. Nos últimos quatro anos, o Atlético fez três finais do campeonato baiano, hoje está praticamente rebaixado, não está matematicamente ainda, mas vem de quatro derrotas seguidas, está com quatro pontos só, a linha de corte são nove e só faltam três jogos, então se ele perder mais um jogo, praticamente vai estar rebaixado. Um time que foi bicampeão e perdeu a última final para o Bahia nos pênaltis. Então, trazendo para a nossa realidade, a gente pode assemelhar que o futebol é em campo.

Existe uma lacuna, uma distância abissal, entre falar de futebol e fazer futebol. O falar de futebol é a coisa mais fácil que tem, o fazer futebol é diferente. Posso te dar um outro exemplo agora: o gestor do Bahia de Feira, que é um time milionário, vai sair do futebol, divulgou em todos os noticiários. Time que tem uma estrutura, estádio próprio, e ele não está aguentando mais. Ele fala que é muito difícil fazer futebol na Bahia. E olha que o Bahia de Feira ainda é autossustentável, ele é independente. E o futebol é difícil porque lida com muita coisa, com arbitragem, com bastidores, com interesses, com política, com vaidades, com seres humanos, com essa coisa do esporte que é ter resultado imprevisível, e ainda tem a máfia de resultados ameaçando. Com tudo isso você lida. Então, se eu digo que o futebol é em campo, digo também que está longe de uma partida ser decidida só no campo. E aqui, em Conquista, a realidade, você sabe, vou fazer um resumo: aqui a dificuldade, sempre foi e sempre vai ser a financeira.

Uma força ainda

Hoje, eu estava fazendo um resumo de todos os nossos resultados nas competições. Nós ainda somos uma das duas equipes do interior da Bahia, junto com o Bahia de Feira, que mais vezes disputaram a série D do Campeonato Brasileiro, desde a nossa fundação disputamos seis vezes; nós ainda somos a equipe do interior que mais vezes disputou o Copa do Brasil, foram cinco; e somos um dos dois times do interior que mais vezes disputaram semifinais do campeonato baiano, foram seis, junto com a Juazeirense. A gente só perde em número de participações na Copa Nordeste, participamos de duas e a Juazeirense participou de quatro.

Houve nosso momento, teve nossa história, tivemos nossa regularidade nos resultados, enquanto havia uma situação financeira que pudesse nos levar a fazer elencos competitivos. Jogadores vão passando, a gente já não tem mais Rafael Granja, não tem mais Tatu, não tem mais Sílvio. A divisão de base, com muita dificuldade a gente consegue participar. O poder municipal aqui, você sabe, sem querer defender bandeira, nunca, nunca houve um apoio substancial, mais relevante, para que pudéssemos realmente falar que o poder municipal ajuda o clube, como a maioria dos outros clubes são ajudados. Então é muito, é muito difícil.

Sem política

Agora, mesmo, eu não sei se eu vou conseguir disputar a 2ª divisão. No cenário de hoje (quarta-feira, 7 de fevereiro), se a inscrição fosse até amanhã, por exemplo, eu não inscreveria o time porque não tem recurso. Para disputar o sub-20 está uma dificuldade, por que de onde vai vir o dinheiro,? A relação com a sociedade é aquilo, quando você tem resultados, eu sou Deus, quando eu não tenho, eu sou o demônio. Tudo se atribui a mim, por ser uma cidade pequena, por a gente ter uma linha rígida e disciplinar de trabalhar, de não aceitar influência externa, de não aceitar coisas que são injustas, que não fazem parte da nossa disciplina, da nossa cartilha disciplinar. Tudo isso acaba afetando em razão de a gente não ter um direcionamento na questão política. Talvez isso pudesse contribuir, escolher um lado, abraçar um lado e viver na política. A gente não tem isso, o clube é apolítico. Então, são vários os fatores.

Agora, eu resumo te dizendo que o fazer e o falar futebol são anos luz de distância. É muito difícil. Te dei dois exemplos na prática, do Atlético de Alagoinhas que, nos últimos quatro anos foi o principal time da Bahia, desbancou o Vitória, fez três finais seguidas. O Bahia de Feira, o gestor está entregando, ele e o filho, vai se tornar Saf, porque não está aguentando mais. Você imagina a gente aqui, que sobrevive de rifa, de uma ajuda de R$ 50 mil do poder municipal, e mesmo assim demora dois meses para receber o dinheiro.

Então, é muito difícil você manter um calendário de forma sazonal. Mesmo sem estar com o time profissional disputando, você mantém a base disputando, você mantém CT (Centro de Treinamento) funcionando, funcionários, contadores, sede administrativa funcionando, com IPTU, conta de água, luz, aluguel… é uma despesa anual, constante. O fazer e o falar… é muito difícil. Só que isso não vai convencer torcedor.

Se você abrir a rede social do Atlético de Alagoinhas, hoje, só tem as piores críticas. O presidente que foi bicampeão, hoje não presta, tem que entregar o cargo. Então, é essa gangorra, não tem jeito, uma roda gigante. Isso faz parte de quem é público. Isso acontece com todos os clubes do país, da primeira divisão, Flamengo, Palmeiras, enfim, perdeu, ninguém presta; ganhou, todo mundo presta. E com a Internet, que todo mundo tem acesso a tudo, todo mundo é presidente, todo mundo é diretor, todo mundo é treinador, todo mundo é jogador.

Eu estava aqui vendo as redes sociais do Atlético e trazendo para minha realidade. Quando nós tivemos as épocas áureas, a gente era aclamado na rua. Hoje, a gente é culpado por todo o esse lamaçal que o clube está vivendo, essa areia movediça, que a gente está derrapando atolando e não consegue sair.

Dinheiro não chega

O clube começou a cair um pouco, a partir de 2020. Por coincidência ou não, em 2019 nós ainda fizemos uma semifinal do Baiano, poderíamos ter ido para a final, naquele jogo contra o Bahia de Feira, em que fomos prejudicados, de forma deliberada, pela arbitragem. Em 2020, fizemos uma excelente série D, saímos no mata-mata para o Salgueiro, a duas fases de subir para a série C. Infelizmente, no mesmo 2020 veio a pandemia e de 20 para 21 paralisou tudo, tirou todo o cenário do futebol, os holofotes, bilheteria, patrocínios. Em 2021 fomos quase rebaixados, e em 2022, com a mudança do regulamento, eu aconteceu o rebaixamento, já descendo a ladeira de forma grotesca, financeira.

A gente saiu de uma folha de R$ 120 mil, R$ 130 mil, para uma folha de R$ 60 mil, R$ 70 mil. Então, é muito difícil. Disputamos a 2ª divisão no ano passado, com o pires na mão, aliás, você acompanhou, você foi testemunha das minhas queixas, e a gente não pode externar tudo aqui. Porque eu, particularmente, acho isso o cúmulo, prometer um recurso e demorar dois meses para pagar, sendo que os jogadores não esperam. A gente teve que tomar dinheiro em banco, a juros – e juros altos – para honrar compromisso, e ter que ficar se humilhando, cobrando uma coisa que foi prometida.

Um dos meus maiores sonhos era não ter que tocar na porta de ninguém, pedir nada a ninguém, de a gente ser autossustentável, ter o recurso, pois a pior coisa é você estar se humilhando, buscando as pessoas, que te atendem quando querem, da forma que querem, quando não é conveniente para eles o retorno. Mas, enfim, Deus está no comando de tudo. Deus vai estar provendo tudo, sempre proveu. Já houve anos de disputas, como a de 2015, em que a gente foi vice-campeão baiano, estava na Copa do Brasil, o Palmeiras veio aqui, a Copa Brasil foi fantástica, bilheterias lá em cima… era a safra gorda. Como agora é época das vacas magras. A gente tem que entender as duas realidades e entender que é o propósito de Deus neste momento.

Então, não é questão de apontar culpados, a questão é o futebol, como eu estou te dando exemplos. Palmeiras está ganhando tudo agora, o Flamengo tem dez finais que não ganha nada, já começou a entrar em crise, ano passado. E assim é. Se a gente voltar a ganhar, eu volto a ser o melhor diretor do mundo, mesmo não sendo. Ou se a gente continuar perdendo, eu posso continuar sendo o pior diretor do mundo, mesmo sendo o melhor. O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? É assim a vida.

A realidade atual

Mas, a gente está trabalhando, nós não paramos. O Bahia de Feira e o Fluminense de Feira, por exemplo, no ano passado nem disputa de base eles tiveram, e olha que eles estão lá no principal circuito da competição, que é tudo pertinho para eles. A gente não, é com viagem, viajando no dia, jogador sai aquele dia sem comer, para ir jogar.

O resultado é a consequência da estrutura que você oferece. Se você tem uma estrutura boa, a possibilidade de ter um retorno de resultado – a possibilidade, não é uma conta exata – é maior. Se você não tem uma estrutura, um time forte, considerado forte para aquela competição, aí passa a ser loteria. Você já vai sem a expectativa de ter bom resultado. É o que vai acontecer nessa segunda divisão, o Fluminense de Feira já se tornou uma SAF (Sociedade Anônima de Futebol), deve ser um candidato forte ao acesso, e a outra vaga vai ser disputada entre os demais clubes, pode acontecer qualquer coisa. Como no ano passado, quando nós, mesmo com o pires na mão, por um gol não não tivemos o acesso à série A, de forma invicta ainda.

Então, o segredo está nisso, está em continuar trabalhando. Agradecer a Deus por tudo, mesmo pelo momento ruim que a gente vem passando, nessa área movediça há dois anos, esperando que, mais na frente, a gente consiga realmente ter um apoio substancial, de um planejamento financeiro anual, como a gente está fazendo agora, com a lei do incentivo fiscal, se a gente conseguir, pelo menos para a base, a gente vai tirar o pires da mão. Isso aí (de não ter apoio) é o que mais me me entristece, é o que mais me chateia.

Não digo que me revolta porque é o cenário que eu construí, eu não tenho nenhuma empresa por trás que me ajuda a bancar o clube, como o cara do Bahia de Feira tem, é dono de faculdade, entretenimento, é fazendeiro, como ele mesmo fala que o Bahia de Feira é o brinquedo do filho dele – e olha que ele fez um estádio para isso. E se ele não está aguentando, imagina a gente aqui, que todo ano, além dessa cobrança, que é muito, eu diria, desleal, desonesta e covarde, que a sociedade, às vezes, tem a meu respeito porque os resultados não acontecem, o apoio é muito pequeno, é muito pequeno mesmo.

Mas, enfim, a gente não vai desistir, vamos até o final.”

 

 

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