Luto e pesar: Noeci Salgado, aos 74 anos
Era uma quinta-feira, 21 de março, um idoso atravessava tranquilamente a Avenida Otávio Santos, em Vitória da Conquista, quando uma motocicleta sem condutor o acertou em cheio, jogando-o ao chão e dali para um leito de UTI. A moto sem ninguém foi embora ligeira, em busca de um lugar para se esconder.

Por dias, ninguém soube nada dela. Enquanto isso, o homem, um velho e corajoso trabalhador pelas causas do bem, um rural, um político, um católico de muita fé, um pai, avô, amigo e completamente estranho para aquela motocicleta vermelha, perdeu um rim e permanecia intubado, entre a vida e morte.
Do lado de fora do hospital, quem conhecia o idoso não perdia a esperança de que ele ficasse bom, fosse desentubado, recebesse alta e voltasse para as batalhas nas quais lutou a vida inteira, no campo e na cidade. Também não se perdia a fé que a polícia chegasse até aquele veículo apressado e sem compaixão.
Até que chegou o dia em que a moto foi descoberta. Tinha até um dono. E foi ele quem apareceu na delegacia, duas semanas depois que o atropelamento aconteceu. E confessou que a moto não andava sozinha, que foi ele que não freou quando a vítima, de 74 anos – completados 20 dias antes de ser presenteado com uma pancada tão forte que o levaria à morte, nesta quinta-feira, 11 de abril – só queria atravessar a rua e continuar viva.

O condutor do bólido, cuja velocidade e pressa abreviaram a vida do ex-vereador conquistense*¹, Noeci Salgado Ferreira, usava dados de outra pessoa para atuar como condutor de aplicativo de transporte, pois não tinha Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Estava todo errado, como se diz. Mas, se apresentou na delegacia, disse onde havia escondido a moto, confessou os crimes e foi para casa, dormir o sono dos vivos.
O nome de Noeci Salgado, hoje sinônimo de tristeza e saudade para seus familiares e amigos, está aí. Sabemos quem morreu. O nome da pessoa que o matou está resguardado pelas regras da Corregedoria de Polícia da Bahia*². A preservação do algoz, quando a vítima está exposta. Ou morta.
Noeci era meu amigo. De muitos anos, uns 40. A última vez que o vi na Câmara de Vereadores, dias antes de ele ser atropelado, eu disse a ele que o admirava e era grato pela amizade e o respeito por todos esses anos. Ele respondeu que também era grato por minha amizade e na reciprocidade do respeito.
Não há muita gente no mundo como o doce Noeci Salgado. Doce, mas de luta pela terra, pela moradia, pela humanidade, pelo estado de direito, pela vida. Morto por um irresponsável sem CNH e sem nome, como determina a Polícia da Bahia.
Meu pesar.
*¹ Noeci foi vereador de 2001 a 2004, eleito pelo PT.
*² Isso explica porque abri com uma moto sem condutor


