O voto feminino e o racha na direita: como a misoginia sabota o bolsonarismo – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.
O cenário político brasileiro tem desenhado uma linha de fratura profunda e decisiva: o eleitorado feminino. Se em 2022 o voto das mulheres foi o pilar que sustentou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, as pesquisas atuais mostram que a tendência se mantém estável, colocando o atual presidente consideravelmente à frente de nomes da oposição, como o senador Flávio Bolsonaro. No entanto, o que antes era um distanciamento ideológico ou programático transformou-se, recentemente, em uma crise aberta de misoginia e disputas internas que ameaça enterrar de vez as ambições eleitorais da extrema-direita.
A recente querela pública entre Flávio Bolsonaro e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, expôs as entranhas de uma coalizão fragmentada. A disputa pelo espólio político e pelo controle de fatias partidárias deixou de ser um embate de bastidores para virar um espetáculo público de vaidades. Para além da óbvia briga por poder, o episódio acendeu um sinal de alerta para a ala pragmática da direita, evidenciando que a coesão do grupo está por um fio.
Para colocar ainda mais lenha nessa fogueira já incandescente, o comentarista Paulo Figueiredo, frequentemente apontado por críticos como um “nepobaby” herdeiro da ditadura militar, proferiu ataques que dinamitaram qualquer tentativa da direita de se aproximar do público feminino. Em uma fala carregada de misoginia, direcionada de forma velada e direta a figuras como a própria Michelle, Figueiredo resgatou o mais rústico dos preconceitos ao afirmar textualmente que “mulher não sabe votar”, utilizando ainda termos chulos para se referir às cidadãs brasileiras.
O episódio não é um ponto fora da curva, mas a verbalização sem filtros de uma marca indelével: o machismo estrutural que a direita conservadora brasileira não faz a menor questão de esconder.
Ao tratar o voto feminino com tamanho desprezo, essas lideranças parecem ignorar a demografia e a história recente. As mulheres representam a maioria do eleitorado nacional. Humilhá-las publicamente e reduzir sua capacidade cívica a um suposto déficit cognitivo ou emocional é um suicídio eleitoral em larga escala. O que Figueiredo e outros influenciadores do ecossistema bolsonarista demonstraram não foi apenas grosseria, mas uma miopia estratégica impressionante.
A reação a esse bombardeio de hostilidades não demorou. O anúncio da saída de Michelle Bolsonaro do comando do PL Mulher foi o ápice dessa crise. Ao desembarcar do cargo, Michelle não apenas reagiu ao fogo amigo e aos ataques machistas que vinha sofrendo de aliados de primeira hora de seu marido, mas também escancarou um racha que pode ser fatal para o bolsonarismo. A decisão isola ainda mais a ala extremista e demonstra que a convivência pacífica entre as diferentes correntes da direita, especialmente sob a sombra do clã Bolsonaro, tornou-se insustentável.
O voto feminino sempre foi um terreno árduo para o bolsonarismo, que historicamente flerta com discursos que relegam a mulher a papéis subalternos ou puramente simbólicos. Quando a maior liderança feminina desse campo decide recuar e expor as feridas abertas pela misoginia de seus próprios pares, o sinal é claro: a direita está sabotando o próprio futuro.
Em suma, a rejeição das mulheres a esse projeto político não se baseia apenas em propostas econômicas ou sociais, mas no cansaço diante de uma retórica que agride a dignidade feminina diariamente. Ao normalizar o machismo e validar ataques despropositados contra suas próprias lideranças, a direita constrói o cenário ideal para a consolidação de Lula e de seus aliados entre as eleitoras. Sem o voto das mulheres, nenhuma força política vence uma eleição majoritária no Brasil. E, ao que tudo indica, o bolsonarismo optou por cavar o próprio isolamento das urnas.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE: ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA COM AJUDA DO CHATGPT
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