Herzem, Guilherme e críticas: candidatos de Conquista fazem o feijão com arroz no primeiro dia da propaganda na TV
Atualizado às 20h59
Não tem jeito, as redes sociais estão aí, têm força, engajam, ajudam a enriquecer influenciadores, mas a velha e boa televisão, quando entra no jogo político se mostra soberana. É uma linguagem aberta, popular, sedutora. E os candidatos e as candidatas à Prefeitura de Vitória da Conquista bem que capricharam no primeiro dia da propaganda eletrônica.
Tanto no rádio como na TV, Waldenor foi o primeiro, com o refrão de seu jingle ‘Muda Conquista’ introduzindo a memória dos governos de Guilherme Menezes e de Zé Raimundo. Foram 43 segundos de referências ao sucesso da gestão petista (1997-2016), uma espécie de escalada colorida para encaixar as primeiras pancadas em preto e branco, incluindo uma imagem da prefeita com o ex-presidente Bolsonaro. Por 37 segundos, a administração municipal foi alvo de críticas, com depoimentos reclamando de abandono, principalmente na saúde.

Daí em diante foi o que se esperava. A propaganda de Waldenor, propriamente dita; a apresentação da vice, Luciana; até chegar a Lula, em uma rápida menção. No final, Guilherme pede voto para o candidato petista, em discurso; Zé Raimundo se empolga; Jaques Wagner faz analogia com futebol, como sempre, e Waldenor encerra prometendo recuperar a autoestima da população. Um trecho de jingle reforça o lema da mudança. Foram 2 minutos e 59 segundos de propaganda eleitoral clássica, em que Waldenor criou algumas demandas para si, entre elas, a de mostrar o que realmente significa ser “o cara que mais trouxe investimento para Vitória da Conquista”.
O candidato petista não deixou de fazer uma firula, a chamada maldade. Fez de conta que o programa dele havia terminado e tascou o que considera uma pancada em Sheila, ao anunciar que estava começando o programa da candidata de Bolsonaro.
Detalhes que eu vi:
– Waldenor foi o único que apresentou a vice. Dedicou nove segundos para destacar o perfil de Luciana, que foi mencionada por Guilherme e Zé Raimundo.
– Os responsáveis pela edição colocaram imagens de trechos de avenidas que não foram feitas por Zé Raimundo, a exemplo da Olívia Flores, que tem mais de 40 anos de aberta e foi requalificada nas gestões de Herzem e de Sheila.
– A chamada na tentativa de colar Sheila em Bolsonaro já havia aparecido no programa de rádio e mostra que a propaganda dos candidatos não vai ser na base do fair play. No seu programa, Sheila também usou de recurso parecido: antes de iniciar o seu próprio programa, o locutor disse que havia terminado o programa do pior deputado do Brasil. Waldenor é deputado federal, no quarto mandato.
Na propaganda de Sheila, a apresentadora começa a falar no escuro. Inusitado, porque esse é um recurso usado quando a pessoa que vai aparecer falará de coisas ruins, que pedem um semblante grave. Mas, a moça foi aparecendo aos poucos trazendo notas de comemoração: “Olá, boa tarde. Foram quase quatro anos de muitas vitórias e de excelentes resultados para todos nós”. Estava enevoado, mas dava para ver que ela sorria. Mudou a feição um pouco para dizer que “a cada dia que passava, nossa cidade se destacava e nos enchia ainda mais de orgulho. Um período de crescimento e de sonhos realizados”.

Foi quando a escuridão, que já durava 20 segundos, pareceu se justificar: “Mas não foi assim que este ciclo começou. De repente, o choque”. A ideia do escuro era para lembrar da morte do ex-prefeito Herzem Gusmão, dando início a uma homenagem ao político que faleceu de Covid, em março de 2021.
As qualidades de Herzem e a tristeza pela sua morte foram realçadas em dois minutos, até a hora em que Sheila apareceu, dizendo que ficou só com a perda do prefeito (com quem foi eleita vice), até que as pessoas começaram a apoiá-la. “Foram anos de saudade, mas nunca mais estive só”. Na sua fala, a prefeita repete o mote que mais tem sido usado pela sua gestão, de que Vitória da Conquista é a melhor cidade para se viver, e propõe que o apoio popular fará de “Conquista uma cidade cada vez mais respeitada e humana, uma grande referência para a Bahia e para o Brasil”.
Um jingle suave se segue à fala da candidata, conforme o manual do marketing político, com imagens dela com a mãe, além de um prolongamento da sua associação com Herzem Gusmão, gente sorrindo, até uma poesia com tons nordestinos, e o fechamento com a fala da viúva de Herzem, Dona Luci, dizendo que Sheila na condição de prefeita, é uma bênção de Deus, como foi o marido. O programa fecha com uma tela informando que foi uma homenagem ao ex-prefeito.
Detalhes que eu vi:
Fora a estranha abertura no escuro, com a apresentadora vestida de preto, como um luto, o programa de TV de Sheila teve um desenvolvimento típico de primeira aparição. Há uma tradição no marketing político de não “entregar” o tesouro no primeiro programa de meio-dia. Talvez por isso o que é considerado sucesso pelo time da prefeita tenha sido citado apenas genericamente, sem especificar um ponto chave de suas realizações. Mas, o programa foi repetido à noite.
A ausência do candidato a vice-prefeito, em qualquer momento, por qualquer duração, foi percebida. Em um programa de 5 minutos e 15 segundos, Doutor Alan poderia ter aparecido, mesmo que fosse em uma foto de abraço.
Lúcia Rocha começou seus 79 segundos de programa de rádio e de TV de forma leve, com crianças anunciando a chegada dela. O locutor abriu dizendo que Lúcia não precisava ser apresentada, pois todo mundo já a conhece. Assim, a propaganda começou a desenvolver uma narração em que se misturava o que seria a apresentação das pessoas, e não da candidata, e críticas à gestão municipal, com destaque para deficiências na área da saúde pública.

O programa da candidata da coligação A Mãe Tá On, tanto no rádio como na TV, se desenvolveu com o uso insistente da palavra “gente”, em um perceptível apelo à ideia de igualdade e de pertencimento. Como é propaganda, coube até o exagero para enaltecer a candidata: “Se Lúcia não resolver, ninguém vai resolver”, disse uma eleitora.
Lúcia faz sua fala se oferecendo para ser prefeita, porque ela conheceria cada canto desta terra pela qual ela tem um amor imenso. Fala de manual, sem exigir profundidade, usando palavras e frases simples que pretendem dizer tudo, mas são apenas iguais em toda campanha, de toda cidade, de qualquer país. O pouco tempo não permitiu a apresentação do vice, o vereador Marcus Vinicius, que empresta à chapa um histórico de competência.
Detalhes que eu vi:
A leveza da abertura com duas crianças, muito parecida com a abertura do programa do ex-prefeito de Itabuna, Vane do Renascer, em 2012.
Lúcia, que está com Herzem nas inserções, não mostrou o ex-prefeito no programa de hoje meio-dia. Também não o fez à noite.
A ideia de simplicidade, de pessoa igual à maioria dos eleitores, passada na abertura em que Lúcia faz o café.
O destaque para mulheres e para pessoas mais velhas, que exprimem uma forte representação familiar e de pertencimento à terra. Pelo menos 30 mulheres apareceram, o dobro das aparições masculinas; cinco mulheres falaram, enquanto apenas um homem falou.
O candidato do Avante, Marcos Adriano, não poderia fazer muito com apenas 22 segundos, mas poderia fazer melhor. Optou pela fala mais simples, marcada por trocadilhos e clichês. É novo, mas não é novato. É o homem da mudança (lembra logo um carreto). Criou o compromisso de, nos próximos programas, explicar como levou melhoria real na vida das pessoas, trabalhando há mais de 20 anos em gestão público, mas como contador.

Detalhe que eu vi:
Marcos Adriano é o que, no meio publicitário, se chama de “bom de vídeo”: boa aparência, boa dicção, boa intepretação. Sabe-se, ainda, que é muito inteligente, portanto, se falar do que conhece terá mais sucesso do que repetir o discurso da mudança do candidato do PT, que não é novato, tem mais história, mais tempo de propaganda, mais parcerias políticas e, por isso, mais chance de polarizar com a incumbente.


