Divulgação de pesquisa antiga como nova presta um desserviço e compromete a confiabilidade do levantamento
Já faz cerca de duas semanas que o instituto AtlasIntel começou uma pesquisa de intenção de voto para prefeito de Vitória da Conquista. No site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a empresa informa que o levantamento se iniciaria no dia 27 de agosto, mas no dia 23 o link para o questionário já estava disponível e circulando na internet. Eu mesmo respondi no dia 23.
A divulgação estava prevista para o dia 2, ontem. Mas, não aconteceu. Considerando a data marcada e informada à Justiça Eleitoral, o atraso na publicação, em si, se os resultados saírem ainda hoje, não causaria prejuízo.

Entretanto, em se tratando do dinamismo de uma campanha eleitoral – onde um único fato, seja uma mera fofoca, uma fake news ou um ato falho de candidato, pode alterar o cenário -, o que deve ser levado em conta não é apenas a demora na divulgação dos números, mas também, e principalmente, a prolongada duração do levantamento, que parece ainda não ter sido fechado, já que o link e o questionário estão disponíveis para quem ainda não respondeu.
Em duas semanas, vários eventos podem provocar uma reação do eleitor, uma dúvida, um novo interesse, um reposicionamento. Do contrário, seria negar a característica do que se chama campanha política, e considerar como desperdício todo esforço dos concorrentes: as mensagens para atrair o voto, as propostas, as denúncias, as atividades de rua, o corpo a corpo, o conteúdo da propaganda e a sua estética, ou seja, a evolução da campanha eleitoral, em si.
Uma pesquisa que de desdobra em tão longo espaço de tempo despreza a campanha. E essa demora – não somente entre a data inicial e a de sua divulgação, mas a quantidade de dias que ela passou sendo realizada – lança dúvida sobre a metodologia e, por extensão, à confiabilidade da pesquisa.
Ainda em tempo, esclareço que não estamos fazendo julgamento das intenções ou da capacidade técnica do AltasIntel, sobre cujo histórico de competência e qualificação já falamos, e nem este redator é estatístico ou ou especialista em pesquisas. Contudo, com experiência adquirida em décadas de trabalho em campanhas e em governos, com uso frequente de pesquisas de opinião pública, penso que é preciso muito mais clareza, não apenas jogar os números na rua, como se joga milho apenas para ver a disputa dos pombos.
Talvez o leitor não esteja familiarizado com a expressão tracking. É uma palavra da língua inglesa que significa ‘monitoramento’, e em eleições é uma pesquisa diária que, normalmente, dura todo o período da campanha, com o objetivo de acompanhar as oscilações das intenções de voto e orientar táticas novas ou correção de rumos.
Uma forma de realizar o tracking é pesquisar por quatro dias seguidos, em áreas da cidade previamente definidas, e no quarto dia fechar o relatório. No dia seguinte, os pesquisadores retornam ao campo inicial e os dados do primeiro dia são descartados. Com os números novos agregados, têm-se um relatório atualizado, e assim por diante, sempre descartando o campo mais velho. Assim, a cada quatro dias surge uma pesquisa nova.
Com esse monitoramento, é possível captar as alterações de humor do eleitorado, originadas da movimentação política, seja ela grande, causada por uma denuncia bomba, por exemplo; seja silenciosa, causada por gesto ou fala capazes de penetrar a camada de indecisos.
Todo mundo que trabalha com pesquisa se acostumou com o seu conceito menos questionável, de que se trata de um retrato ou reflexo momentâneo, com curta validade, ainda que a possibilidade de perdurar exista, mas, então, captada por novo levantamento. Tanto é que a pergunta sobre o voto é, obrigatoriamente, feita na condicional: ‘Se os candidatos fossem esses…’.
Nesse entendimento, ao ser divulgado duas semanas depois que a pesquisa começou, o relatório, para ser completamente honesto, deveria trazer o esclarecimento: os resultados apresentados referem-se às intenções de voto que os respondentes tinham há tantos dias.
A conclusão é de que a divulgação de uma pesquisa de intenção de voto velha, a ser vendida como atual, quando o que ela mediu foi uma possível realidade já significativamente passada, presta um desserviço à informação e à própria democracia, com o inevitável comprometimento da sua confiabilidade.
N.E.: Não dá para saber se as respostas dadas hoje à pesquisa AtlasIntel/A Tarde estão sendo aproveitadas pelo instituto. O fato é que o link está aberto e o formulário disponível para resposta. O BLOG enviou perguntas ao instituto e aguarda retorno. As informações enviadas poderão ser agregadas ao texto acima ou gerar outra matéria. O mesmo pedido de informações foi enviado ao jornal A Tarde, contratante da pesquisa.



