Barragem do Rio Pardo, de uma antiga necessidade a uma falácia eleitoral

Barragem do Rio Pardo, de uma antiga necessidade a uma falácia eleitoral

Afora a função de criticar e atacar os adversários, a propaganda política, via de regra, tenta vender o que ainda não existe; explora as demandas do eleitor, que se ressente da falta de um equipamento ou serviço público, e lhe apresenta uma ideia muito bem embrulhada em um palavrório queixoso e marqueteiro, às vezes uma maquete, um mockup, quando não um desenho tosco. O que importa é dar forma à promessa, insinuando que o gestor atual, ou o adversário a quem se quer vencer, deixou de fazer aquilo ou não saberá fazer como o candidato dono da propaganda fará.

Não importa se existe dinheiro para fazer, os candidatos vão dizer que farão. E contam com os quatro anos de mandato para enrolar o eleitor ou esperar um milagre que permita a realização da promessa. Obviamente, não estamos falando de todos os candidatos nem de todas as promessas.

Nesta eleição, como vem ocorrendo há uns 30 anos, a barragem do Rio Pardo volta à gondola das promessas no mercado das ilusões eleitorais. E está lá ou porque o candidato não sabe que a promessa não faz sentido e, na megalomania que toma alguns, quer apresentá-la porque é grandiosa; ou por que, mesmo sabendo que não vai acontecer (pelo menos nos próximos 40 anos), quer impressionar o eleitor demonstrando um pseudoconhecimento do problema de abastecimento de água ou para criticar quem ainda não fez o dever de casa definitivo relativo à questão.

Leitor, acredite: a barragem do Rio Pardo que vem sendo prometida por alguns candidatos a prefeito de Vitória da Conquista é inalcançável em um horizonte de 30 anos, ou seja, não pode ser obra de ninguém dos que disputam a atual eleição. É um projeto que não cabe em 2024, ainda que um dia passe a ser a única alternativa para o abastecimento de água em Vitória da Conquista. Simplesmente porque: 1. Até 2052, a cidade não precisará da barragem do Rio Pardo; 2. Nenhum governo vai gastar quase R$ 1 bilhão para fazer duas barragens para uma cidade que só precisa de uma; 3. É falácia dizer que a cidade tem deficiência de água. A explicar.

Até 2052, a cidade não precisará

Iniciada em maio de 2019, a barragem do Rio Catolé, localizada no município de Barra do Choça, foi projetada para dar conta do abastecimento de Vitória da Conquista, Belo Campo e Tremedal por 30 anos. O prazo para a inauguração era de 33 meses e deveria terminar no início de 2022, mas foi interrompida em junho do ano passado, com 22% das obras realizadas. Pela projeção dos engenheiros do Governo do Estado, a cidade só terá necessidade de uma ampliação do reservatório no ano de 2052.

Obra da barrafem do Catolé no poto em que parou em

A bacia hidrográfica da barragem do Catolé ocupará uma área de 761,20 km2, com altura de 53 metros; terá extensão de 347 metros com largura do vertedouro de 55 metros, volume máximo normal de 23,73 hm3 e vazão regularizada (100% garantida) de 670 litros por segundo. A capacidade de armazenamento é de 24 bilhões de litros de água, o que é quatro vezes mais do que a barragem de Água Fria II, que vem dando conta da necessidade atual de abastecimento de Vitória da Conquista, apesar da ineficiência da Embasa na distribuição de água na cidade e na zona rural.

Nenhum governo gastará quase R$ 1 bilhão para fazer duas barragens para uma cidade que só precisa de uma

Pelo que se tem notícia, o projeto da Barragem do Catolé continua valendo e as obras podem ser retomadas a qualquer momento, como parte do chamado PAC Seleções, lançado pelo presidente Lula em setembro do ano passado. De acordo com os dados divulgado pelo governo federal, estão garantidos R$ 237 milhões para a conclusão das obras e ampliação do Sistema Integrado de Abastecimento de Água de Vitória do Conquista. Considerando, ainda, que 22% do projeto estão prontos, tendo consumido mais de R$ 50 milhões, é muito dinheiro.

Em 25 de abril de 2017, há sete anos e cinco meses, uma nota técnica do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), assinada pelo então coordenador estadual na Bahia, Heraldo Eduardo Rocha, e pelo chefe do Serviço Técnico, Raimundo Goethe Peixoto Júnior, orçava a obra da barragem do Rio Pardo em R$ 364.432.519,87, sendo R$ 308.216.158,16 para a barragem, em si, e R$ 56.216.361,71 para obras e serviços complementares, como desapropriações.

Os valores chegam a R$ 643.951.096,43, atualizados em julho de 2025 pelo IGP-M (FGV), usando a calculadora disponibilizada pelo Banco Central, com base no último orçamento feito pelo DNOCS em 2017.

Para fazer as duas obras, a União (os recursos anunciados para a barragem do Catolé são federais e o governo do Estado não teria capacidade para bancar sozinha a barragem do Rio Pardo) teria que investir, praticamente ao mesmo tempo, em duas barragens para um mesmo fim, algo em torno de R$ 864.215.699,14, fora o que já se gastou na barragem do Rio Catolé.

É falácia dizer que a cidade tem deficiência de água

É verdade que o município de Vitória da Conquista, localizado no semiárido, sofre com a seca quase constante, nos últimos dez anos a Prefeitura decretou estado de emergência pela estiagem praticamente todo ano. É verdade que os povoados e vilas da zona rural padecem de ausência de água encanada. E também é incontestável que, frequentemente, os bairros da cidade ficam sem água ou recebem pouca água. Mas, isso não se deve, neste momento, à falta de armazenamento e tratamento – frise-se que, na área da barragem não acontece falta de chuvas há sete anos – mas a uma deficiência estrutural do sistema, que a Embasa, apesar do polpudo lucro com a concessão, não teve a celeridade e a capacidade de resolver.

É importante ressalvar que, pelo contrato assinado com o Município, quando era gestor o falecido prefeito Herzem Gusmão, a empresa pública baiana tem até 2027 para universalizar as ligações de água. Em relação ao esgotamento sanitário, a empresa tem de garantir que pelo menos 97% da população seja atendida com ligações à rede coletora até 2033. Ou seja, a Embasa tem tempo contratual. Acontece, porém, que a população tem pressa e direito, e a empresa capacidade de resolver a deficiência, precisa apenas querer fazer. No caso da barragem do Catolé, retomar a obra é uma questão de respeito aos três municípios que dependem dela.

Finalmente: empresas não estão deixando de vir para Vitória da Conquista porque não temos a barragem do Rio Pardo. Isso é falácia eleitoral. A cidade tem recebido muitos investimentos externos, grandes empresas da Bahia e do Brasil, e até multinacionais, chegaram nos últimos anos e continuam a chegar. Com a barragem do Catolé, a segurança hídrica estará garantida e a cidade poderá crescer ainda mais. É fato.

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