Nos corredores da vida | Passos pequenos e sensações gigantescas no caminho da recuperação
O primeiro dia depois de uma cirurgia ‘simples’ como uma prostatectomia radical tem componentes físicos e emocionais de que nenhuma pessoa que não seja o operado pode falar.
Fui para a cirurgia sem maior ansiedade. Não havia outra coisa a fazer, então deixei apenas acontecer. Acredito em Deus e na Medicina, então, esperei que agissem. Em nenhum momento, contudo, fiquei sem medo, apenas procurei não pensar no pior. Faz parte temer, afinal, são tantos casos de operações ‘simples’, que têm complicações.
Não digo isso somente pelo fato de qualquer cirurgia sob anestesia geral conter risco – são cerca de duas horas em uma condição anormal para o corpo humano, submetido a incisões, furos, objetos mexendo por dentro, medicamentos fortes e variados fatores que podem interferir no funcionamento de outros órgãos.
Tem, além do aspecto físico, um composto emocional de magnitude que apenas os que têm a chance de viver isso podem dimensionar.
A voltinha nos corredores do 2º andar do Hospital 9 de Julho, na manhã do domingo, primeiro dia em que amanheci sem o câncer de próstata que descobri em novembro, ganhou essa dimensão.
Os passos dados com a ajuda da fisioterapeuta parecem fáceis no filme. Mas ainda havia dores e medo, compensados, aínda bem, pela não mensurável sensação de reconquista do viver.
Se não foi tão fácil, foi renovador. E eu estava feliz. Dolorido, devagar, mas muito feliz. Com a alegria de quem agradecia por isso.
Talvez dê para notar.
Quatro dias depois, apesar de dificuldades que eu constrangeria os leitores se narrasse aqui, alguma dor no abdômen e uma sonda útil, necessária, fundamental, mas incômoda para caramba, já dou passos a mais.
Muda o corredor, muda a supervisão, agora com minha amada Dulcy, até o homem mudou, porém não se altera a confiança e a gratidão.
É breve a volta. Logo, o BLOG, não falará só de mim.


