Crônica de adeuses em um domingo com tristeza
Este é um domingo com tristeza. Enquanto escrevo, ouço Dulcy dizer, com a voz embargada: “Esse lençol quem me deu foi minha parente, ela que costurou, era caprichosinha”. Um lençol, parte de um legado de amor, de cuidado, um símbolo, uma homenagem a Rita, sua amiga de longos anos, e de quem ela se despediu na manhã de hoje. Não havia um dia que Dulcy não falasse dessa amiga, tia dos filhos dela. Chamavam-se de ‘parente’. Rita faleceu de um câncer, contra o qual lutou por muito tempo. Estava hospitalizada até ontem, quando não resistiu mais.
Nesta hora, amigos e familiares estão se despedindo de Kardé Mourão, no Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, Salvador. Jornalista, sindicalista, mulher que dedicou a vida à categoria e a lutas por direitos iguais e democracia. Eu a conheci em 1984, quando cheguei a Vitória da Conquista enviado pelo jornal A Tarde e a encontrei assessoria de imprensa da Emurc e do então presidente da empresa, Murilo Mármore. Filiada ao PCdoB, altiva e generosa.
Apenas dois anos mais velha que eu, percebeu o quanto eu precisava de ajuda profissional, especialmente quando assumi a coordenação de comunicação na gestão de José Pedral Sampaio, e me aconselhava como me movimentar entre as pedras e espinhos daquele campo minado do jornalismo político. Tínhamos horas de conversas, muitas vezes em seu fusca, com o qual me ajudava a agilizar minhas pautas.
Nas fotos abaixo, estamos na inauguração da Praça Tancredo Neves, ela em um elegante vestido branco, com uma faixa vermelha na cintura, eu atrás dela; nós entrevistando um dos mais antigos funcionários da Prefeitura à época; eu anotando e ela falando ao telefone; e em sessão da Câmara de Vereadores.




Fábio Santos Santana era uma das figuras mais conhecidas de Vitória da Conquista. No caso dele, dizer que tinha tantos amigos quanto a torcida do Flamengo não seria um exagero muito grande. Senão amigos, fregueses; se não da torcida inteira, da torcida conquistense. Flamenguista apaixonado, seu bar era um dos points dos rubro-negros em dias de jogo do clube. E lá estava ele, dando duro e atenção, para lá e para cá, garçom, gerente, mas torcedor, parando um pouco em frente à TV cada vez que passava para levar cerveja ou um petisco para a mesa.

Falava pouco nessas horas, mas era um bom papo quando o bar estava com pouca gente. Voz rouca e quase fina, risadas breves. Morei por muitos anos quase em frente ao bar de Goró, a quem sempre chamei de Goras. Comprava fiado, bebia e comia muito, mas pagava aos poucos. Eu reclamava que ele descansava pouco e que deveria cuidar da hérnia. Ele dizia que faltava tempo, mas que já havia falado com o doutor.
Além da falta que ele faz, penso que eu insisti pouco para que ele se cuidasse. Acho que todos somos assim, a gente sempre acha que falou pouco, aconselhou pouco, que poderia ter brigado mais quando isso acoontece. Foi assim com Lelê.
Lelê era eletricista, um dos criadores do baba de saia que um grupo de marmanjos fazia no Clube Social no primeiro dia do ano. Em 1998, ele trabalhava comigo e Dudé na campanha de Coriolano Sales. Costumávamos ficar pela rua, bebendo cerveja, dando risada e comendo “porqueiras”, depois que as reuniões e comícios noturnos acabavam. Numa dessas noites, Lelê reclamou de mal estar, uma dor no peito e nas costas. Quisemos levá-lo ao pronto-socorro, ele não quis, insistimos, ele retou. Disse que aquele mal estar era recorrente, do estômago, sempre que comia muita fritura. “Pronto, passou, estou de boa”.
Então, já que ele se sentia melhor e se explicou, decidimos ir descansar. Lelê prometeu que iria ao médico na manhã do dia seguinte. Jorginho deixou cada um em sua casa. Na madrugada passou mal, quando fomos avisado ele já havia morrido, infartado. Perdemos a figuraça do Lelê. E ficamos pensando que deveríamos tê-lo levado ao hospital na marra. Mas, como, se acreditamos mais nele do que nos nossos conhecimentos; Como driblar o destino e as pegadinha da morte?
Até o dia 17 de janeiro deste ano, eu mantinha uma conversa frequente com o fotógrafo Alberto Viana, conquistense radicado em Curitiba. Os assuntos variavam de cultura, fotografia e política a futebol, porque falamos do títulos que o Botafogo ganhou no ano passado. Em especial, foram muitos papos sobre o projeto do parque da cidade, que a equipe de Jaime Lerner criou a pedido de Herzem Gusmão. O incomodava saber que o projeto foi alterado aqui e não andava. Muitas conversas, vários assuntos, menos de saúde.
Na madrugada de 17 de janeiro, perto de duas horas, ele me enviou uma mensagem de WhatsApp, era um link para uma vaquinha digital com o objetivo de ajudar nas despesas do tratamento do câncer. Só então fiquei sabendo pelo que passava o meu amigo. Antes, em seu Instagram e em nossas conversas, ele mencionava a nova revista ‘Jornal de Fotografia’ ou o projeto ‘No Rastro do Conselheiro’, que o levou a viajar o Nordeste, conhecendo e fotografando lugares e pessoas ligados à história de Antônio Conselheiro, mas não seu estado de saúde.
Beto Viana morreu no dia 27 de fevereiro. Abriu a temporada de saudade que hoje passou a arder mais com as perdas que choramos de Goras, Rita e Kardé.
Não era meu desejo retomar o BLOG falando de coisas tristes, como morte. Contudo, é uma realidade contundente da qual ninguém se desvia e um tema que é presente todo dia, porque a morte é inexorável, não há como nos livrarmos dela, pelo menos como corpos, matéria, seres humanos. E quanto mais vida tivermos, mais ela se nos apresentará sem qualquer piedade, levando antes que desejemos ou esperemos pessoas que nos são caras, impondo-nos dor e tristeza.
Este BLOG não publica notas de pesar e quando escreve sobre algum falecimento (que não tenha ocorrido por acidente ou crime, ou de alguém cuja notoriedade e papel na sociedade ensejem a obrigação jornalística) o faz por ser esse alguém da minha relação pessoal, tratando-se de homenagem, seja à pessoa, ao seu legado, ou à relação que vivemos.
Algumas vezes, pode ser um lamento para que possamos refletir acerca do que poderíamos ter feito quanto à vida, aos projetos ou sonhos de quem se foi, ou para relembrar o que fizemos e não foi bom, com o sentido de chamar a atenção para situações que podem estar se repetindo sem que vejamos ou demos atenção.
Falo disso no texto ‘O porquê de escrever para quem não pode ler‘.


