O porquê de escrever para quem não pode ler
Minha irmã não esperou a primavera de 2023 e nos deixou. Sentiu uma dor no peito e mesmo socorrida pelos braços do amor de sua vida, não teve jeito, foi para o céu de sua fé, da qual ela nunca titubeou. Eu falei dela aqui. Mais contei da minha própria dor, da saudade intensa que assumiu o meu coração a partir daquele 21 de setembro, do amor lindo e verdadeiro que ela dedicou a cada um que Deus escolheu para sua família. Falei do meu amor, da minha gratidão, do quão ela foi (ainda é) importante para a minha vida. Mas, ela não leu. Onde estava já não precisava mais de declarações de amor, poesias e canções. Já era flor no jardim de Deus.
Assim como a minha irmã, já escrevi sobre o meu pai. Ele faleceu em um dia tão intensamente triste da minha vida que eu nem me lembro qual, mas já faz muitos anos. Quando eu falei dele em um blog, já havia um tempo que seus olhos de leitor voraz não miravam mais as palavras aqui da Terra.
Ontem, como já fiz quando a alma sucumbiu às lágrimas no adeus a outros amigos, contei meu sentimento pela morte de Mini Hippie, registrado Antônio Carlos Fernandes Limongi. Mas, ele assim como todos os outros que não estão mais entre nós, não leu. E por que eu escrevi? Em primeiro lugar, porque penso que há três coisas em minha vida que não sei deixar de fazer: respirar, amar e escrever. São as três coisas que me permitem estar aqui, segunda-feira (1º de abril), ao meio-dia, filosofando. Se eu escrevo, estou vivo. Vivo no amplo sentido de aproveitar a luz e o ar.
E escrevo também sobre outras vidas e suas mortes. Não sei o que escreverão sobre mim quando eu não puder mais ler. Espero que não escrevam RIP. Porque é outra língua que não a minha e significa o que não creio. Certamente, dado meu apego à vida, às pessoas que eu amo e a minha paixão por lutar, não estarei descansando em paz. Não quero morrer.
O que desejo é deixar alguma coisa que tenha alguma relevância que justifique a outra pessoa escrever umas linhas sobre minha passagem neste planeta. Ainda acho que não realizei nada para que as notas de pesar, essas que os blogs publicam, digam que eu farei falta. Às vezes, penso como seria interessante, antes de ir de vez, abrir um canto de olho e ver que ficou algo. Talvez até me venha a paz que eu digo que não vejo na morte.
Não lerei o que escreverão sobre mim quando meu corpo estiver rijo e frio sobre uma lápide ou em um caixão feito de madeira aglomerada, simples como a minha vida tem sido. Mas, hoje sei que me cabe deixar uma cola, uma pesca, um exemplo que seja, de que não terei vivido em vão. Ou, pelo menos, que não tenha sido eu a razão do sofrimento de outras pessoas. Penso que se eu tiver feito alguma coisa boa, uma que seja, que possa ser repetida, repassada, usada como exemplo, terei sido útil à humanidade.
E é essa a razão por que eu escrevo sobre quem não pode mais ler. Talvez todo mundo que escreva para quem não pode mais ler, pense assim. Ressaltar o exemplo, a trajetória, o bom que se pôde ver e ter de uma pessoa. Ou, no lamento, dizer que a gente não pode fazer de novo, com outro, o que fez com aquele que se foi. No caso de Limongi, escrevi para dizer que ele foi um cara retado, que quis fazer o mundo melhor com cultura, com música e a alegria que deriva dela. Mas, estava ali o meu lamento, também, porque o deixaram sozinho no seu sonho, o vimos na luta e não lhe demos as condições para a vitória que merecia.
Não escrevi para Mini Hippie, escrevi para que olhemos os mini hippies que andam por aí, nos contando de seus sonhos e nos permitindo sonhar com eles, mas a quem deixamos continuar a andar a esmo. Escrevo para que lembremos do que pessoas que valeram a pena realizaram, se não diretamente para nós, mas por nós, na medida em que ninguém é uma ilha.
Acho que os obituários e as crônicas de pesar, as homenagens aos valentes, aos poetas, aos cientistas, aos esportistas, à vizinha doce, ao colega de trabalho generoso, ao político zeloso, ao religioso que falou de amor de verdade, aos artistas, aos que morreram na luta por liberdade ou por nossa segurança, aos parentes que amamos, a quem tentou fazer o bem, são escritos para nos dizer que daqui a pouco pode ser um de nós e que vale a pena mirarmos nos bons exemplos. Ou são escritos para chamar a atenção sobre a nossa desatenção com os Limongi da vida, ainda que na morte.
É por isso que escrevo para quem não pode mais ler.





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