“Nasceu!” | A Casa de Saúde São Geraldo e o orelhão, uma crônica sobre uma história que se mantém viva por trás da grade e do mato


Ninguém passa pela Rua Góes Calmon a passeio. Na pressa, depois de reconhecer a firma no cartório, passar por um exame médico ou visitar uma pessoa internada no IBR, comprar os óculos novos, acertar o aluguel de um apartamento ou conversar com um velho advogado que chegou antes de todo mundo na rua, quem vai olhar para os lados, em busca de histórias e reminiscências?
Eu.
Presto sempre atenção nos caminhos por onde ando. Sou do tipo chato que vai lendo em voz alta placas e letreiros na viagem, como se fosse locutor de rádio, enchendo o saco do motorista. Todo mundo tem uma brincadeira quando viaja, adedonha, por exemplo. Essa é a minha.
Mesmo assim, nunca havia parado para olhar como está o prédio histórico da antiga Casa de Saúde São Geraldo, que mais recentemente se popularizou como Hospital São Geraldo. Foi onde minha filha Alice nasceu, em 1995. Meu filho, Giorlando, como eu, nasceu no Unimec, um Unimec bem diferente, com entrada pela Rua 2 de Julho, mas que ainda esta lá, pleno de saúde.
Macas, focos cirúrgicos, espéculos, que tenham sumido!, bisturis, berços e camas, tudo foi para o Hospital Samur. Ficou o prédio, com letreiro e tudo. E um orelhão, com aparelho e tudo.
No mesmo local, separados dos passantes apressados pela grande grade e quase escondidos pelo mato que cresce sem pedir licença, dois equipamentos da maior importância no passado já não servem a ninguém. Ao mesmo tempo que o abandono os torna irrelevantes, também os preserva e, com eles, a sua memória.
Criado em 1971, pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, inspirado no formato do ovo, o orelhão apareceu nas ruas em 1972, e deve estar totalmente extinto no Brasil até o final de 2028, encerrando uma era de mais de 50 anos de história.
O processo de retirada em grande escala e desativação das estruturas começou em janeiro de 2026. Em Vitória da Conquista ainda há alguns, sujos, quebrados, desprezados, como obstáculos na paisagem.
É impossível saber quantas histórias passaram por aquele orelhão, ainda na entrada de um hospital que já se foi. Sua presença no local permite imaginar a função que um telefone público cumpria quando não havia celular e uma notícia importante precisava encontrar um fio para chegar ao seu destino.
Provavelmente, muitas ligações começaram com a mesma palavra: “Nasceu”.
O orelhão também pode ter servido para chamar o táxi que levaria a mãe e o bebê para casa. Talvez o pai saísse do hospital, colocasse uma ficha ou um cartão no aparelho e telefonasse para o ponto mais próximo.
Mas nem todas as ligações devem ter levado alegria.
Daquele telefone podem ter saído pedidos urgentes para que um parente fosse ao hospital, avisos sobre acidentes, notícias de agravamento de uma doença e palavras difíceis de pronunciar. Algumas pessoas devem ter desligado aliviadas. Outras talvez tenham permanecido por alguns instantes sob a concha azul, sem saber para onde ir depois da ligação.
O mesmo aparelho que anunciou nascimentos pode ter comunicado mortes. Deve ter chamado médicos, localizado familiares, pedido ajuda e levado esperança. Em diferentes momentos, foi o elo entre o que acontecia dentro do hospital e a vida que continuava do lado de fora.
Hoje, o telefone não toca e ninguém atende no hospital. As portas estão fechadas.
A Casa de Saúde São Geraldo foi inaugurada em 1943, segundo consta, criada pelos irmãos médicos Fernando Spínola e Orlando Spínola, e fez parte da vida da cidade durante mais de sete décadas. E embora tenha funcionado durante muito tempo como hospital geral, sua marca mais forte ficou associada à maternidade, uma das mais importantes da região.
O hospital aparece em numerosas biografias e relatos pessoais como local de nascimento de moradores da cidade e da região. A prefeita Sheila Lemos, por exemplo, nasceu ali e fala disso com orgulho. Isso ajuda a medir a presença da Casa de Saúde na memória coletiva.
Em 28 de junho de 2019, foi anunciada uma fusão entre o Hospital Samur e a Casa de Saúde São Geraldo. Os serviços do São Geraldo passaram a integrar o hospital maior, que seria remodelado para receber a maternidade e a UTI neonatal.
No início deste ano, o vereador Ricardo Gordo apresentou indicação para que a Prefeitura aproveitasse “as instalações do Hospital São Geraldo” para restabelecer serviços de saúde afetados pelo encerramento dos atendimentos da Unimec pelo SUS.
A proposta de Gordo não vingou, porque não foi necessário fazer a adaptação.
E a velha Casa de Saúde São Geraldo mantém-se fechada, viva na memória de milhares de conquistenses e preservada em sua construção. Com o orelhão na porta. Ambos sem serventia, a não ser como tema de uma croniqueta para matar a saudade.



