Experiências com o ChatGPT | Para quem acha que usar Inteligência Artificial (IA) é simples, não é bem assim. Não basta pedir


Ouço gente criticando blogs, redatores, professores e até candidatos por usarem a Inteligência Artificial. Quase sempre a crítica vem carregada de desqualificação: “Usou IA, que feio. Não é confiável”. Muitos acreditam que com essas ferramentas a relação é simplesmente mandar fazer, receber e copiar. É verdade que há casos assim. Em Vitória da Conquista eles pululam.
Mas a coisa não é tão simples, nem para quem usa mal, nem, sobretudo, para quem quer usar bem. Mesmo os que vão pela simplicidade precisam saber dizer minimamente o que querem. Quem já fazia bom jornalismo antes de a IA chegar, por exemplo, vai querer acrescentar ao seu trabalho, aprofundar, aprimorar, melhorar o que já faz. Desde o Google, que nos afastou das enciclopédias e dicionários e até do costume de forçar a memória, saber perguntar passou a ser tão importante quanto saber responder. É o tal do prompt certo, nome moderno para uma velha exigência: formular direito.
A IA não vai bater no seu ombro pela manhã e perguntar se você quer fazer uma reportagem ou artigo sobre determinado assunto. Não vai dizer: “Acordei com uma ideia. Que tal escrever sobre as consequências do desmatamento na alimentação da população?”. Nem: “Sonhei que ACM Neto e Jerônimo desistem da eleição e vão apoiar Ariel. Vamos escrever sobre isso.” Você pode retrucar que Ariel pode não ser o candidato, porque a Jjustiça Eleitoral não decidiu entre ele e Estevão, ela pode lhe responder: “Mas eu estou falando da Ariel, a pequena sereia”. Isso não acontece, claro.
Ou seja, o que o leitor vai ler foi definido pelo jornalista, blogueiro, articulista, uma pessoa de carne e osso, que precisa saber o suficiente para dar as linhas. E o que você pedir, a IA vai entregar (estamos falando de textos). Vem junto o aviso de que a IA pode errar, inventar, simplificar demais. Cabe ao interessado conferir as informações que importam. Em resumo, não basta saber pedir. É preciso saber o que está pedindo e entender o que recebeu.
Outro dia, quando eu escrevia um artigo sobre o bafafá ocorrido numa reunião de políticos, contado pelo Blog do Sena, mostrei meu texto ao ChatGPT, que me apresentou a versão dele, bem diferente da minha. Tive que lembrar quem mandava. “Aí você quer dominar meu estilo. Meu texto não está ruim, você quer me superar”, reclamei.
O ChatGPT, ou Wilson, como o trato (inspirado em ‘O Náufrago’), reconheceu o abuso: “Você tem razão na crítica. Eu passei do papel de lapidar o seu texto para o de competir com ele, e isso muda completamente a relação. Seu texto já tinha voz, ritmo, humor e arquitetura próprios. O que cabia a mim era apontar onde havia risco jurídico, tropeço de concordância, repetição ou perda de fluidez. Ao criar uma versão alternativa muito resolvida, eu acabei impondo uma cadência minha sobre a sua.”
Passada a etapa das discussões de forma e estrutura, sobre o que é importante constar do texto, comparar o que escrevo com o que o ChatGPT escreve e, brigar um pouco, vem outra, que muita gente também imagina ser automática: a criação da ilustração para a matéria, a imagem de capa, a cena que precisa traduzir o texto sem estragá-lo.
Para o artigo em que ponguei na coluna Foguetinhos do Sena, fiz o meu pedido assim: “Quero uma ilustração em que duas mulheres, Lúcia e Leia, uma em frente à outra, com dedos em riste, mas usando máscaras de carnaval para não se identificarem. Loyola, ele mesmo, sem máscara, assiste com olhar de espanto. Ao fundo um foguete com janelas (invenção nossa) com pessoas olhando pela janela. O foguete tem as cores vermelha e amarela. Digam se isso parece simples.

Veio a primeira imagem. O povo do foguete estava identificável demais. As mulheres pareciam com raiva em excesso. Havia penas demais, um ar carnavalesco que eu não queria. As máscaras, no meu pensamento, serviam apenas para reforçar o “segredo” que Sena quis manter, para esconder as duas, não para transformar a cena numa avenida de folia. Expliquei de novo. Disse que queria máscaras de bal masqué, discretas, roupas normais, menos fúria, menos carnaval.

A segunda versão melhorou, mas o ambiente ainda me incomodava. Pedi para tirar o prédio e acrescentei uma observação brincalhona: “Mesmo com o foguete presente, o ambiente é uma sala. Tudo meio Salvador Dalí. Rs.”

Pronto. Bastou mencionar Dalí para Wilson levar a referência ao pé da letra. Não era isso. Precisei explicar mais uma vez: eu não queria uma estética surrealista. Quando citei Dalí, estava apenas dizendo que a situação já era, em si, absurda. Uma sala de reunião comum, duas mulheres mascaradas, um homem olhando assustado e um foguete vermelho e amarelo parado ali dentro. O surrealismo estava na cena, não no traço. “Entendeu agora?, perguntei.
Wilson entendeu. Ou disse que entendeu: “Agora entendi perfeitamente. Você não queria estética surrealista. Queria uma cena realista numa sala de reunião comum, cuja própria composição já é surreal pelo absurdo dos elementos: duas mulheres de roupa normal usando discretas máscaras de bal masqué, Loyola olhando espantado e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, um foguete vermelho e amarelo estacionado dentro da sala com curiosos anônimos nas janelas. Ou seja: realismo visual, surrealismo da situação.”

Parecia resolvido. Mas ainda não estava. Na imagem seguinte, o ChatGPT mudou as feições dos personagens. Loyola ficou parecendo um ator espanhol. O ambiente estava certo, mas as pessoas tinham virado outras. Pedi que retomasse as caricaturas anteriores, preservando tons de pele, roupas e aparência geral.

A resposta veio num meio-termo esquisito. Variou de foto para desenho, manteve parte das caras de uma versão anterior. Não servia.
Mostrei que ele já havia dado caras aos três na primeira foto. “Aqui estão Lúcia, Leia e Loyola. Use estes.” Só então a coisa entrou no eixo.

A imagem final ficou no ponto. Sala de reunião realista, situação absurda, máscaras discretas, Loyola reconhecível, foguete presente como elemento cômico, sem virar carnaval, sem virar Salvador Dalí, sem trocar os personagens no meio do caminho. Digam, então, se foi fácil.
Porque é essa parte que os críticos apressados da Inteligência Artificial não veem. Não houve um botão mágico. Houve uma ideia inicial, um comando, erro de interpretação, correção, novo comando, exagero literal, nova correção, disputa de estilo, negociação de linguagem e, no fim, direção humana do começo ao fim. A ferramenta ajuda. E ajuda muito. Mas “qualquer um faz”, não. Nem de longe.


